domingo, 30 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 10

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 10



Graças ao espírito empreendedor do capitalismo selvagem peculiar à personalidade de Cleópatra Rockefeller, desde a retificação autoral o nome do Zé Ninguém tornou-se muito conhecido entre discentes e docentes. Breve, agradou ao gosto popular; teve alguns versos musicados e tocados nas estações de rádio de boa parte do país.
Foi por essa época que a Rádio Universitária o convidou a redigir crônicas semanais para um dos programas estudantis. Meio sem jeito, todo encabulado, ele insinuou a princípio uma recusa; seu pendor não era bem a prosa, diluir o pensamento pelos artifícios da coesão e concatenação de idéias afigurava-se-lhe perda de tempo; poesia sim, arte concentrada na densidade original de sua essência! Contudo, provavelmente por vaidade, ou talvez por mera polidez, escreveu para a rádio dois sofríveis ensaios acerca de leituras anteriores ao sonho, e só. Ei-los:

1° ensaio:
“Abordemos a estética, em particular, a musical. Debrucemo-nos sobre a obra Do Belo Musical, do músico e filósofo Eduard Hanslick.
Consoante ao colega Bob Moon, aluno do curso de Astronomia da nossa universidade, uma razoável definição de Filosofia seria a de que esta é a arte de elucidar o óbvio. Exemplos temos vários; famoso é o episódio do navegador Cristóvão Colombo quando propôs que seus companheiros conseguissem a façanha de equilibrar um ovo verticalmente sobre uma mesa: todos acharam um absurdo, porém, quando ele obteve sucesso na proposição quebrando parcialmente uma das extremidades do ovo fazendo-o permanecer em pé, foi contestado com o argumento de que aquilo era fácil demais. Assim também ocorre com a Filosofia.
Em sua obra Do Belo Musical, Eduard Hanslick nada mais faz do que demonstrar uma verdade que, ao menos no seu tempo, o mundo ainda carecia de conhecer. A idéia principal e motriz de todo o livro é simples: A música tem beleza que não necessariamente determina um sentimento específico.
Para provar tal conceito não seriam pertinentes tantas recapitulações até mesmo prolixas; contudo, Hanslick enriqueceu bem seu texto com divagações filosóficas, as quais certamente despertam o raciocínio do leitor e satisfazem a coerência.
Mas, focalizando o que há de notável à luz da estética, Hanslick propõe a superlativa sublimidade da arte musical ao afirmar que as melodias são transmitidas de um espírito para outro por um meio de modo algum material, palpável, ou simbólico. Esta natureza sublime e totalmente subjetiva da música é que a diferencia das demais artes. A música é uma linguagem que todos compreendem, mas ninguém pode traduzir, é uma linguagem universal.
Em verdade, o compositor musical não pode ter a intenção de induzir deliberadamente um sentimento específico nas pessoas que ouvirão sua música. Isto porque uma melodia poderá estimular sentimentos, mas sua subjetividade implícita a desabilita de indicar qual sentimento todos os ouvintes devem sentir.
Consideremos uma melodia suave e harmoniosa. Ela poderá mover um ouvinte a sentir a plenitude da paz interior se para este sentimento ele já estiver predisposto; por outro lado a mesma melodia despertará tristeza em um amante desprezado que no momento recorda sua amada; e ainda, se a dita melodia tangir os tímpanos de alguém que por acaso estiver a recordar um feliz acontecimento, esta pessoa poderá ser acometida pelo sentimento de nostalgia. Enfim, eis a subjetividade da música.”

2° ensaio:
“Recentemente, uma escritora alemã (de sexualidade mal resolvida, quiçá?) anda apregoando pelo mundo afora que a relação sexual só atrapalha no matrimônio. Daí a seguinte questão: o que é mais necessário? Sexo ou casamento? Óbvio que, para a continuidade da espécie e pelo forte impulso instintivo, há que se eleger o sexo em primeiro lugar. Contudo, isso gera algumas implicações.
Se, por exemplo, o macho e a fêmea, ou pelo menos um deles for portador de algum defeito genético, a relação sexual com fim de reprodução é no mínimo irracional, senão cruel ao dar chance para o defeito ser legado à prole (embora a medicina esteja acabando com a seleção natural, e a Engenharia Genética prometa milagres). Existe, também, o sexo sem finalidade reprodutiva; isto é uma particularidade exclusiva do ser humano, o que dá ensejo a pensar se trata-se de um vício da hodierna civilização.
Quanto ao matrimônio, com ele surge normalmente a família, é uma instituição e, conforme está em voga dizer, a família que dele provém é a célula máter da sociedade. Então, pode-se questionar a razão de ser deste costume matrimonial. Imaginemos uma humanidade em que cada indivíduo possuísse ambos os sexos, igual aos caramujos de jardim. Num ato sexual entre dois caramujos não há distinção: acontece um compartilhar de gametas, e os dois caramujos são fecundados. Mesmo que assim fosse a espécie humana, a necessidade de educar os filhos implicaria a união entre dois adultos; um encarregado de cuidar das crianças, e o outro encarregado de, colaborando com a dinâmica social, proporcionar o sustento da família.
Mas, voltando à realidade, o fato é que existem homens e mulheres, e suas anatomias os distinguem inclusive sexualmente. A mulher tem uma gestação, período em que compartilha da unidade com a criança; ela tem mamas para dar o alimento natural do recém-nascido; a mulher tem natural delicadeza física habilitando-a para o cuidado de crianças. Já o homem é desprovido de todos esses atributos, só restando-lhe a função extra-lar na dinâmica da comunidade, trazendo para a família o sustento. É saudável que esta divisão de funções seja instituída; não por um costume social, mas por parecer harmônica e bem natural.”

Este último ensaio deu vaza às sempre mui exageradas manifestações das mal amadas e furiosas feministas de plantão. O constrangimento fez-se insustentável. Isto, somado ao desestímulo predisposto pelo Zé Ninguém, o fizeram encerrar sua meteórica experiência radiofônica.
Ideologias à parte, a confusão engendrada pela polêmica com as feministas acabou até favorecendo a divulgação da ascendente obra do nosso bardo entre os circuitos intelectuais da , assim chamada, literatura oficial: pois não é que os versinhos do Zé Ninguém chegaram enfim a ressoar no olimpo “imortal” da Academia Brasileira de Letras?
Grande Cleópatra Rockefeller! Salve a iniciativa privada!
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