sexta-feira, 21 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 1

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 1



É estranho dizer que alguém tenha acordado dormindo. Causa estranhamento por ser inexeqüivelmente contraditório, ou, em sentido contrário, ser óbvio. Ora, não se pode acordar e permanecer dormindo; mas também estado preliminar para se acordar é estar dormindo.
A verdade é que Zé Ninguém, então com quinze anos, acordou... dormindo. Abriu os olhos, espreguiçou-se e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou sua irmã Cleópatra Rockefeller, sua mãe Amélia (a mulher de verdade), seu pai Petit Cacá (o filósofo metafísico, físico clássico e relativístico, químico explosivo e engenheiro-geral, Doutor Cacareco), e a empregada Raimunda, que era feia de cara...
Zé Ninguém cumprimentou a todos e, qual de ordinário, deglutiu seu pão-com-manteiga e café-com-leite, a tradicional refeição matinal brasileira. Foi então que mamãe Amélia o foi despertar a fim de tomar seu rumo na vida, Zé Ninguém: é hora de ir para a escola!
Ele não respondeu aos chamados, nem acordou; porém já havia tomado café e caminhava para a escola deliciando-se com a fresca brisa da alvorada. “Minha Nossa Senhora!”, exclamou Amélia. “Espera aí: a Senhora é tua ou nossa?”, perguntou o Dr. Cacareco. “Que importa, homem?! Nosso filho morreu!”. Fez-se um minuto de silêncio; Cleópatra Rockefeller, exibindo um sorriso matreiro, foi apalpando o pulso do irmão até que sentenciou: “Ele nunca me enganou; é fingido, é preguiçoso e burro; morto que morreu mesmo não pode ter estes batimentos cardíacos que sinto no pulso do safardana!”. Com violência, Cleópatra Rockefeller derrubou o irmão da cama. Devido à queda, o nariz de Zé Ninguém começou a sangrar, mesmo assim ele permanecia inerte. O remorso levou Cleópatra Rockefeller a chamar uma ambulância. Zé Ninguém foi internado no Hospital da Glória, onde os médicos, sem achar explicação melhor, declararam soberanamente que ele estava em coma.
Qual coma, qual nada! O ilustríssimo cidadão da república, de quem nos ocupamos, seguia vivendo normalmente. O corpo inerte, mas seu imaginário (quiçá a sua alma) continuava mais ativo que nunca. Não estava no Hospital da Glória, mas já no começo da sua própria glória: a primeira aula de Literatura da sua vida!
Foi logo simpatizando com o professor, seu xará Zé Coisinha, que, qual todos os demais professores, ensinou-lhe tudo o que ele sempre poderia aprender sozinho sem ter que engolir o que regorgitavam dos livros os mestres sofistas da modernidade. Isto porque tudo o que lhe ocorreu após a manhã em que acordou dormindo foi fruto da sua imaginação, unicamente adubada pelas vivências reais precedentes. Bem, simpatizou com Zé Coisinha porque nele sintetizou seu ideal de professor: o que ensina tudo aquilo e somente aquilo que os alunos querem aprender, ou seja, o que interessa.
Apesar de saber antecipadamente o que seria ensinado, tratando-se de sonho, Zé Ninguém simulava que tudo era novidade empolgante, incrível; e aprendia com gosto. Tinha razão, Zé Coisinha desenvolvera um método pedagógico muito razoável que consistia em classificar os livros conforme as suas espessuras: quanto menos grosso, melhor. Nem por isso desprezava a volumosa Bíblia, simplesmente não a considerava como objeto de estudo da Literatura, mas da Teologia. E se a questão fosse estudar um livro grosso, preferia Dom Quixote a Guerra e Paz, pois o primeiro fazia rir à beça, enquanto que o segundo era frio como a Sibéria.
Já que se mencionou Teologia, as aulas de Religião tiveram um começo confuso para o nosso jovem estudante onírico. Ele aprendera com seu pai, o Dr. Cacareco, que a “força maior” do universo vem do núcleo dos átomos, que são invisíveis mas existem; sim, existem; felizes daqueles que creem sem ter visto jamais! Em contra partida, Zé dos Santos, o professor de Religião, instava com veemência em dar fé que a “força maior” vinha de “cima”, e apontava o dedo indicador rumo ao teto da sala. Com efeito, se o teto um dia caísse durante a aula, muitos iriam se dar mal, por “força maior”.
Uma vez que Zé Ninguém alienara-se do mundo real, todo seu conhecimento passou a ser construído por dedução; de modo que, entre outras áreas do conhecimento, chegou a trabalhar com Geometria Esférica a partir dos teoremas aprendidos antes do sonho; e tudo ele simulava aprender com as aulas sonhadas. Isto é que pode se chamar: poder da mente. Isto, a imaginação, é a fração de Deus que existe no ser humano.
E os dias do tempo mental foram passando, ainda que ele mal tivesse chegado ao hospital.
Zé Ninguém dormindo, sonhando...

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