segunda-feira, 31 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 11

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 11


Amigo da Onça, qual é a safadeza da semana? Zé Ninguém prosseguia fiel no jornaleco da faculdade. Dessa vez, deliberou justamente sacanear os velhinhos da ABL (Academia Brasileira de Letras). O Zé Ninguém achava graça na desmedida soberba dos acadêmicos se auto-intitularem imortais. Então, desenhou o Amigo da Onça que, com a elegância de costume, no velório de um afamado acadêmico, perguntava com a mais pérfida inocência: “Ora, se é imortal, morreu por quê?”.
Sabe-se que o motor da humanidade é o medo, que gera a ambição, que gera as demais vontades. O desenho do Zé Ninguém foi um escândalo reproduzido em vários periódicos e revistas de todo o Brasil. Seu autor já sedimentava notoriedade abrangente, efetivava-se qual jornalista. Incomodados que estavam com o jovem petulante, o pessoal da ABL astutamente entendeu que era melhor tê-lo como amigo admirado e admirador do que tê-lo como um Amigo da Onça.
A respeito da poesia do Zé Ninguém, notas e críticas elogiosas saíram na imprensa por parte de vários acadêmicos imortais, até que ele entrou pela primeira vez nos sacrossantos recintos da ABL, numa pomposa cerimônia em que lhe era consedida uma menção honrosa à guisa de confraternização, com direito a todos envergando o fardão; menos o Zé Ninguém, é claro.
Era verão. E a velharada com aquela vestimenta antiquada, quente, pesada. Mormaço no ambiente, suor em toda parte, nas mãos e tudo que por elas se tocava. Aqui e ali, despudorados cochilos com direito a filete de baba escorrendo pelo canto da boca aberta, mórbida. Uma dentadura de repente rola pelo tapete vermelho aveludado..., dentadura! De quem é? Não aparece o dono, ou... a dona. E os discursos da falsa amizade resumiam-se a uma prodigiosa listagem de todos os adjetivos positivos da língua portuguesa, pecando tão somente por não ter sido elaborada em ordem alfabética.
Quase no encerramento da cerimônia, chegou a vez do homenageado pronunciar-se. Num modesto discurso, o Zé Ninguém fez considerações sobre o caos estético ensejado pelas vanguardas artísticas, incomodando a muitos com sua simpatia pela ultrapassada poética parnasiana. Mas o momento apoteótico foi a última declaração: “Confesso que, de tudo que escrevi até hoje e de tudo que por ventura ainda eu venha a escrever, agrada-me em primeiro lugar um poema intitulado Vestindo Estrelas?, o qual veio-me de improviso, em pleno ônibus, e sem maior elaboração. Tudo porque aqueles versos ensejaram a mais franca e inusitada retribuição: foi a única e tão sublime ocasião em que fui correspondido neste meu afã lírico. Agora, vo-lo apresento”. E declamou com braços trêmulos as simplórias redondilhas oferecidas à Claudinéia do seu sonho.
O diretor-chefe de uma renomada editora veio ao encontro do Zé Ninguém já na saída, descendo as escadarias da ABL. Tratava-se do Dr. Lino Grande, que foi logo elogiando o traje (alugado) do pobre rapaz, a eloqüência de suas idéias (gaguejou o discurso todo), e a originalidade dos versos declamados (foram inspirados numa antiga canção de Noël Rosa e Ary Barroso). Mesmo assim, a euforia do Dr. Lino Grande era real, queria publicar as poesias completas do Zé Ninguém: “É a oportunidade da tua vida, homem!”. “E quais as condições..., homem?”. Aí, o editor tossiu disfarçando o embaraço: “Bem, nós somos uma empresa; apesar de lidarmos com criação, nosso objetivo é o lucro, não podemos arriscar. Olha, a primeira edição do teu livro infelizmente terá que ficar a total proveito da editora; mas se vender bastante, e vai vender, a partir da segunda edição te caberá dez por cento de direito autoral”. “Só se for agora!”, assentiu o Zé Ninguém afoito por ver sua palavra na letra de forma impressa e encadernada de um livro. Um respeitável livro!
Tal foi a glória do Zé Ninguém.
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domingo, 30 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 10

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 10



Graças ao espírito empreendedor do capitalismo selvagem peculiar à personalidade de Cleópatra Rockefeller, desde a retificação autoral o nome do Zé Ninguém tornou-se muito conhecido entre discentes e docentes. Breve, agradou ao gosto popular; teve alguns versos musicados e tocados nas estações de rádio de boa parte do país.
Foi por essa época que a Rádio Universitária o convidou a redigir crônicas semanais para um dos programas estudantis. Meio sem jeito, todo encabulado, ele insinuou a princípio uma recusa; seu pendor não era bem a prosa, diluir o pensamento pelos artifícios da coesão e concatenação de idéias afigurava-se-lhe perda de tempo; poesia sim, arte concentrada na densidade original de sua essência! Contudo, provavelmente por vaidade, ou talvez por mera polidez, escreveu para a rádio dois sofríveis ensaios acerca de leituras anteriores ao sonho, e só. Ei-los:

1° ensaio:
“Abordemos a estética, em particular, a musical. Debrucemo-nos sobre a obra Do Belo Musical, do músico e filósofo Eduard Hanslick.
Consoante ao colega Bob Moon, aluno do curso de Astronomia da nossa universidade, uma razoável definição de Filosofia seria a de que esta é a arte de elucidar o óbvio. Exemplos temos vários; famoso é o episódio do navegador Cristóvão Colombo quando propôs que seus companheiros conseguissem a façanha de equilibrar um ovo verticalmente sobre uma mesa: todos acharam um absurdo, porém, quando ele obteve sucesso na proposição quebrando parcialmente uma das extremidades do ovo fazendo-o permanecer em pé, foi contestado com o argumento de que aquilo era fácil demais. Assim também ocorre com a Filosofia.
Em sua obra Do Belo Musical, Eduard Hanslick nada mais faz do que demonstrar uma verdade que, ao menos no seu tempo, o mundo ainda carecia de conhecer. A idéia principal e motriz de todo o livro é simples: A música tem beleza que não necessariamente determina um sentimento específico.
Para provar tal conceito não seriam pertinentes tantas recapitulações até mesmo prolixas; contudo, Hanslick enriqueceu bem seu texto com divagações filosóficas, as quais certamente despertam o raciocínio do leitor e satisfazem a coerência.
Mas, focalizando o que há de notável à luz da estética, Hanslick propõe a superlativa sublimidade da arte musical ao afirmar que as melodias são transmitidas de um espírito para outro por um meio de modo algum material, palpável, ou simbólico. Esta natureza sublime e totalmente subjetiva da música é que a diferencia das demais artes. A música é uma linguagem que todos compreendem, mas ninguém pode traduzir, é uma linguagem universal.
Em verdade, o compositor musical não pode ter a intenção de induzir deliberadamente um sentimento específico nas pessoas que ouvirão sua música. Isto porque uma melodia poderá estimular sentimentos, mas sua subjetividade implícita a desabilita de indicar qual sentimento todos os ouvintes devem sentir.
Consideremos uma melodia suave e harmoniosa. Ela poderá mover um ouvinte a sentir a plenitude da paz interior se para este sentimento ele já estiver predisposto; por outro lado a mesma melodia despertará tristeza em um amante desprezado que no momento recorda sua amada; e ainda, se a dita melodia tangir os tímpanos de alguém que por acaso estiver a recordar um feliz acontecimento, esta pessoa poderá ser acometida pelo sentimento de nostalgia. Enfim, eis a subjetividade da música.”

2° ensaio:
“Recentemente, uma escritora alemã (de sexualidade mal resolvida, quiçá?) anda apregoando pelo mundo afora que a relação sexual só atrapalha no matrimônio. Daí a seguinte questão: o que é mais necessário? Sexo ou casamento? Óbvio que, para a continuidade da espécie e pelo forte impulso instintivo, há que se eleger o sexo em primeiro lugar. Contudo, isso gera algumas implicações.
Se, por exemplo, o macho e a fêmea, ou pelo menos um deles for portador de algum defeito genético, a relação sexual com fim de reprodução é no mínimo irracional, senão cruel ao dar chance para o defeito ser legado à prole (embora a medicina esteja acabando com a seleção natural, e a Engenharia Genética prometa milagres). Existe, também, o sexo sem finalidade reprodutiva; isto é uma particularidade exclusiva do ser humano, o que dá ensejo a pensar se trata-se de um vício da hodierna civilização.
Quanto ao matrimônio, com ele surge normalmente a família, é uma instituição e, conforme está em voga dizer, a família que dele provém é a célula máter da sociedade. Então, pode-se questionar a razão de ser deste costume matrimonial. Imaginemos uma humanidade em que cada indivíduo possuísse ambos os sexos, igual aos caramujos de jardim. Num ato sexual entre dois caramujos não há distinção: acontece um compartilhar de gametas, e os dois caramujos são fecundados. Mesmo que assim fosse a espécie humana, a necessidade de educar os filhos implicaria a união entre dois adultos; um encarregado de cuidar das crianças, e o outro encarregado de, colaborando com a dinâmica social, proporcionar o sustento da família.
Mas, voltando à realidade, o fato é que existem homens e mulheres, e suas anatomias os distinguem inclusive sexualmente. A mulher tem uma gestação, período em que compartilha da unidade com a criança; ela tem mamas para dar o alimento natural do recém-nascido; a mulher tem natural delicadeza física habilitando-a para o cuidado de crianças. Já o homem é desprovido de todos esses atributos, só restando-lhe a função extra-lar na dinâmica da comunidade, trazendo para a família o sustento. É saudável que esta divisão de funções seja instituída; não por um costume social, mas por parecer harmônica e bem natural.”

Este último ensaio deu vaza às sempre mui exageradas manifestações das mal amadas e furiosas feministas de plantão. O constrangimento fez-se insustentável. Isto, somado ao desestímulo predisposto pelo Zé Ninguém, o fizeram encerrar sua meteórica experiência radiofônica.
Ideologias à parte, a confusão engendrada pela polêmica com as feministas acabou até favorecendo a divulgação da ascendente obra do nosso bardo entre os circuitos intelectuais da , assim chamada, literatura oficial: pois não é que os versinhos do Zé Ninguém chegaram enfim a ressoar no olimpo “imortal” da Academia Brasileira de Letras?
Grande Cleópatra Rockefeller! Salve a iniciativa privada!
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sábado, 29 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 9

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 9



Conforme previamente referido, o Zé Ninguém ainda na infância verificou que furtava-se-lhe o vigor mental para em futuro próximo abraçar uma profissão ligada à pesquisa científica. Não resistiu. Buscava entanto a veleidade da glória, “vontade de força” que bole com o sossego das gentes.
Bem antes de ingressar na universidade, idealizava ele cursar jornalismo. Certificando-se, porém, que muitos jornalistas tinham outras e variadas profissões, apresentando graça no manejar a linguagem mesmo sendo eles advogados, engenheiros, médicos, e alguns sem qualquer formação superior, o Zé Ninguém fraquejou quanto ao jornalismo para estudar Astronomia.
Depois de formado, com o precioso canudo (diploma) de bacharel, aí quem sabe poderia também contribuir em algum jornal. Por enquanto, contentava-se em participar dum jornaleco fuleiro do Diretório Acadêmico, em que seus poemas eram bem-vindos junto com desenhos cômicos do Amigo da Onça, personagem do falecido cartunista Péricles da revista O Cruzeiro. Assim, dava continuidade a uma mania de tempos passados: ver qual era a safadeza que o Amigo da Onça aprontara na semana.
Sabe-se que a Ciência engendra grande surto de ateísmo nos meandros acadêmicos. Céticos foram Luis Pasteur, Karl Marx, Charles Darwin, e tantos outros. Por outro lado, seguindo a linha de Isaac Newton, que asquadrinhava as profecias bíblicas, o Zé Ninguém teve sua religiosidade incrementada com os estudos astronômicos. O estopim de tudo foi uma aula de eletro-magnetismo em que viu, na prática, como a força magnética agia mesmo no vácuo; ora, o nada permitindo interações era indício razoável de que as almas poderiam habitar este nada, após a morte. Analogamente, a força gravitacional agia no vácuo, e era a mais corriqueira na vida de qualquer um. Eis que o Zé Ninguém passou a contemplar os astros, enxergando lá em cima a prova da sua própria imortalidade...
No ônibus, a caminho do observatório, sempre viajava uma moça chamada Claudinéia, que atraía o olhar do Zé Ninguém. De início, vencendo sua timidez para com o sexo oposto, ele travou um esboço de diálogo, donde saiu ciente apenas que ela era funcionária da universidade, e deveria ser alijada de qualquer pretensão amorosa, porque tinha noivo. Achou o nome dela feio, mas achou o resto muito bonito. Certa feita, a formosa moçoila apareceu vestindo uma blusa preta toda pontilhada de ciscos cor de prata. Ah!, o Zé Ninguém não resistiu: ver aquele corpinho esbelto envolto em noite estrelada era notícia de primeira página. Inspirado numa canção de Noël Rosa e Ary Barroso, com a caligrafia de analfabeto imposta pelos solavancos do ônibus, escreveu:


Vestindo Estrelas?

Quando à noite olho as as estrelas
na abóbada celeste,
fico distraído ao vê-las,
a ver o que você veste.

E dos amores que tive
desde sempre até agora,
só um no meu peito vive,
que canta, dança e chora.

Seu vestido tem estrelas,
fico distraído ao vê-las,
tudo somente porque
sempre sonho com você.


Destacou a página do seu caderno, e a entregou à Claudinéia afobado e esbaforido pela ousadia. Onde já se viu? Ela era noiva comprometidíssima, ia se casar!
Fernando Pessoa é que sabia das coisas: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”. Foi a melhor atitude sentimental que cometeria em toda sua existência o Zé Ninguém. No mesmo dia, à noite, regressando das aulas, sua musa deu-lhe sorrindo um bilhete com os seguintes dizeres:


Seja Eterno

Deixe que o hoje se
Reflita no amanhã
Para que este dia
Seja eterno.

Refletindo amizade
Neste grande milênio
Para que neste dia
Sejamos eternos.


Claudinéia (no ônibus)


Valeu a pena! Talvez a “vontade de força” que o Zé Ninguém buscava fosse apenas vontade de afeto. E o afeto sincero de uma só pessoa vale a glória do mundo.
A bem da verdade, Claudinéia casou-se com o referido noivo. O pobre Zé Ninguém assistiu à cerimônia do casamento, da sua resignação cabal. Mas a amizade proposta nos versinhos imperfeitos da moça que vestiu estrelas fez-se fato.
Escuta, Zé Ninguém! Põe a vaidade da glória de lado, segura a tenra mão da amizade, e aguarda a vinda messiânica do amor. Se não vier, para que viver?
Mas tudo isso era apenas sonho. A amizade é um grande sonho, o amor é o maior dos sonhos.
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sexta-feira, 28 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 8

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 8



Desde que o Zé Ninguém começou a freqüentar as partidas de futebol, Sócrates Clarimundo perambulava pelas cercanias daquele campo de várzea, e o mesmo hábito manteve anos a fio no tempo onírico que transcorria nos quinze minutos realmente passados desde a entrada do nosso paciente no Hospital da Glória. E a questão já era: quando a final Sócrates Clarimundo viria a cumprir sua promessa de lecionar? “Ah, meu amigo, sendo casado, pobre, e tendo filhos pra criar, sem um diploma primário sequer, minha vida nunca será compatível com o magistério. Nada vale meu auto-didatismo, o que vale nesta terra de bacharéis é uma folhazinha de celulose prensada com a inscrição da palavra diploma”. No fim das contas, nem todo o mundo nasce fadado às posições mais conceituadas. Sócrates, porém, era um talento, como tantos anônimos perdidos, castrado pela burocracia acadêmica. Nasceu pobre.
Com fortaleza, o mestre da várzea suportou a ingrata fatalidade, mantendo o ânimo sempre firme no afã de conciliar os estudos fragmentados com o suor da labuta, as palestras filosóficas junto à rapaziada com a fumaça das frituras.
Um dia, ele nutria especial expectativa pela visita do Zé Ninguém, revelando seu tique nervoso de estalar os dedos das mãos e o tornozelo direito; olhava rapidamente para todos os lados ao redor do campo, e andava em círculos já mancando por tanto estalar o tornozelo. Quando enfim se encontraram, foi enxugando a testa enquanto atropelava as palavras para comunicar ao amigo algo sinistro. Era o soneto em versos alexandrinos dedicado à Lindaura Risoleta: um estudante aparecera na várzea recitando-o decor e cobrindo-o de elogios. “Ótimo, mas minha antiga musa já o havia praticamente exposto em praça pública!”, ponderou o Zé Ninguém; ao que lhe retrucou o outro com os olhos fora da caixa: “O troço brabo é que me disse o moço que teu soneto foi escrito por José Régio, um português!”. Mistério... Mistério, não, novamente ignorância.
Cleópatra Rockefeller seguia lucrando desinibidamente com os poemas do Zé Ninguém, o qual não conhecia um suspiro de direito autoral, e remanescia na peculiar ignorância de prole-otário, ou melhor, proletário.
“E agora, Zé Ninguém?”. “Sei lá, há-de ser armação da Lindaura..., só pode”. “Só pode é o cacete. Estrela não carece de sol pra brilhar: a guria nem lembra que tu existe”. Mais uma frase contundente de Sócrates Clarimundo. E a dúvida imperava.
Perdeu noites de sono, aperreou-se deveras o Zé Ninguém até que o boato dos poemas com autor fantasma correu os bairros da cidade e chegou ao conhecimento das autoridades civis. Só então Cleópatra Rockefeller sentiu-se imersa até o pescoço no rio de lodo da contravenção. Como já tivesse clientela cativa no seu comércio à moda de Literatura de Cordel, não mais necessitava das assinaturas ilustres, e, despudoradamente como antes, continuou a vender a produção do Zé Ninguém, mas agora atribuindo-lhe a verdadeira origem. Claro que de pronto o bardo tomou conhecimento da tramóia, era bem ao talhe da irmã aquele procedimento ignóbil, mas, advertido pela apaziguadora mamãe Amélia, vislumbrou o benefício considerável que a empresa da irmã poderia trazer para seu projeto literário em prol do reconhecimento social que malograra com a ciência e a carreira militar. Vê-se que o Zé Ninguém ignorava os versos de Dorival Caymmi: “Pobre de quem acredita na glória e no dinheiro para ser feliz”. O próprio Caymmi desprezou o que cantava, tendo arrebanhado admiradores para sua glória, e riqueza para sua velhice. Em verdade, todo artista deseja alguma forma de glória, festiva ou silenciosa, opulenta ou gozando a modesta satisfação de contemplar o triunfo alcandorado que sua obra encontra no olimpo do reconhecimento.
O comércio dos poemas já devidamente atribuídos ao Zé Ninguém seguiu com a mesma fluência dos seus poemas por outrem assinados. Bom sinal. Deixai fazer, deixai passar!
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quinta-feira, 27 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 7

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 7



O pseudônimo nada ocultou; nosso Grande Othelo panfletário foi imediatamente descoberto, acabou sendo quase um flagrante delito. Era de domínio público na comunidade escolar a fama de versejador do Zé Ninguém, desde o vilancete à Lindaura Risoleta, o qual ela saiu mostrando para meio mundo como prova da sua competência sedutora. Tanto que até aos ouvidos esclerosados da velha diretora chegou a notícia sobre a verdadeira autoria da ousada irreverência, mas o divino limbo da diretoria não se conspurcaria a ponto de ocupar-se com a preferência vocabular do Zé Ninguém. A questão foi delegada ao inspetor de alunos, Dr. Gaudêncio. É curioso que um simples inspetor desses ostentasse o título de doutor, mas nesta terra abençoada por Deus qualquer um que detenha certo poder, por insignificante que seja, já vai sempre sendo tratado por senhor doutor.
Zé Ninguém, intimado a comparecer à saleta do Dr. Gaudêncio, foi logo escutando: “Moleque safado!, que incontinência é essa de metedor e meter culhões nas paredes da escola?!”. Acompanhando um silêncio covarde, o silêncio do Zé Ninguém, derramou-se um suor frio pelas costas dele. Mas diante da ameaça de expulsão, ocorreu-lhe um argumento: “Excelentíssimo senhor doutor, toda pessoa humana do sexo masculino, do qual a propósito o senhor é um representante exemplar, bem, todo homem normal tem um culhão direito e um culhão esquerdo, que os anatomistas insistem em denominar de testículos; portanto o culhão é apenas o nome popular do que eu e Vossa Excelência carregamos entre as pernas, nada mais natural. E quanto ao ato de se meter, é graças a ele que minha mãe me pariu, e sua santa mãe lhe pariu”.
Escutando esta singela explicação, Dr. Gaudêncio hesitou entre três procedimentos, a saber: considerar seu interlocutor um débil mental; crê-lo momentaneamente privado do pleno gozo das faculdades mentais; ou assassiná-lo imediatamente em legítima defesa da honra. Preferindo a segunda opção, deu por finda a questão: “Olha rapaz, vê se esquece as anatomias, e volta aos versinhos de amor. Passar bem, pode ir”. Dr. Gaudêncio era moralista.
Moral é para quem tem tendências imorais, truculentas, cruéis. Mas quem tem índole inofenciva e civilizada pode viver perfeitamente sem conhecer as leis das condutas morais. Era o caso do Zé Ninguém, um beatíssimo amoral.
Amoral também era Cleópatra Rockefeller que ganhava dinheiro inescrupulosamente, de qualquer maneira dentro do código da confraria capitalista. A diferença para o irmão é que ela podia prejudicar a outrem e manter a mesma leveza de consciência do Zé Ninguém. Instigada pelo episódio do manifesto, Cleópatra Rockefeller bisbilhotou os pertences fraternos onde encontrou uma potencial mina de dinheiro, ou seja, os poemas que lá estavam guardados esperando o dia em que um espírito empreendedor os desse o devido respeito sob a forma de lastro-ouro. Levou furtivamente alguns exemplares à universidade que freqüentava para um mestre os avaliar.
Esses teóricos de literatura! Tratando das obras consagradas, as consagram ainda mais, encontrando sempre nova genialidade em algum significado oculto que nem os próprios autores conceberiam. Quanto aos novos autores, via de regra os desdenham à priori. Conforme a avaliação docente, os poemas do Zé Ninguém eram lixo. Percebendo o preconceito, Cleópatra Rockefeller fez cópias dos poemas do irmão com uma mínima alteração, que consistia somente em atribuir suas autorias a ilustres poetas falecidos. Vendeu que foi uma beleza! E a inspiração do Zé Ninguém foi transbordando o perímetro do colégio, ainda que sob diversos e indesejados pseudônimos, e para o monetário júbilo de Cleópatra Rockefeller.
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quarta-feira, 26 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 6

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 6



No Hospital da Glória, uma junta médica ainda fundia os cérebros e queimava as pestanas no esforço de sentenciar com precisão qual era o distúrbio do Zé Ninguém, em cujo sonho já decorrera dois anos, quando ele teve que aturar, com toda a diplomacia, a vaidade de Cleópatra Rockefeller: “Não, não vou! Não vou de ônibus, nem morta, e pronto. Só te acompanho se formos de automóvel”. Dr. Cacareco não tinha carro. Nem ele, nem sua esposa sabiam guiar; Amélia, por ser apenas prendada em artes do lar, mulher de verdade; e Petit Cacá por uma questão ideológica: sentiria desconforto ao operar uma máquina de tamanha complexidade que fugia ao seu domínio tecnológico; o doutor era lamentavelmente um teórico, nada mais. Irmã dos mil argumentos, Cleópatra Rockefeller rebateu em cima: “Ora, então vamos de táxi”. Quem pagaria o táxi? Zé Ninguém, naturalmente; ele é quem estava convidando... Muito caro, ele não possuía o numerário suficiente. “Minha querida, que tal o Metrô?”.
Havia uma peça teatral sendo encenada por alunos da escola em que estudava o Zé Ninguém. Sua irmã se administrava a contento, burocrática e economicamente a contento, mas carecia-lhe o encanto comum aos jovens, de maneira que Zé Ninguém a convidou com muita propriedade à peça intitulada Aurora da Minha Vida.
Cedendo à diplomacia do meio termo, Cleópatra Rockefeller aprumou o tailleur e, maldizendo a própria sovinice que a impedia de desembolçar sem prejuízo a corrida do táxi, submeteu-se ao “terrível constrangimento” de ir se sacolejando dentro do verme metálico do subterrâneo metropolitano. Na estação onde tomariam o trem, ela comunicou enojada ao irmão que os passageiros, ao atravessarem as roletas de ingresso, podiam ser vistos igual uma manada de bovinos atravessando uma porteira de fazenda, “Oh, que humilhação!”.
Aquela comparação surtiu um poderoso efeito no Zé Ninguém, não pela metáfora, mas pela lembrança impossível de que ele já havia vivenciado a mesma situação, em idênticas condições, e com a irmã. Não seria uma recapitulação instantânea, pois ele soube de antemão que a sua roleta emperraria, e efetivamente emperrou. Coisas das plagas vizinhas aos milagres ainda fogem às luzes da ciência.
A peça dizia respeito à infância e juventude dum grupo de amigos que passaram a vida sempre só planejando o futuro sem nunca terem vivido o presente com a devida consciência. A apoteose dá-se no final, quando, velhos, as personagens cantam sua nostalgia: “Oh, que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais”.
Cleópatra Rockefeller gostou da peça no geral, e quiçá tenha tirado bom proveito, porém não furtou-se ao comentário de que o encerramento tinha o ranço de um Romantismo exagerado, coisa ultrapassada. E o Zé Ninguém, para evitar conflito e por preguiça, obviamente concordou.
Todavia, ainda com a opinião da irmã na mente, tendo sido contrariado por uma colega de turma na escola, colega que o impediu de ler o discurso de Graça Aranha numa representação da Semana de Arte Moderna de 1922, o Zé Ninguém fez reparo em aspectos do Modernismo que o desgostavam tanto quanto a pieguice do Romantismo. Então, relatou seus pareceres a Sócrates Clarimundo através da cortina de fumaça que se impunha entre eles, cada qual dum lado do tacho de frituras na várzea do futebol. Depois de bastante troca de idéias, Sócrates declarou que, sendo um rústico sofisticado, ele achava o Romantismo coisa de efeminados, e o Modernismo coisa de maricas. Aí os dois deliberaram redigir um manifesto estético em prol do talento autêntico. Num primeiro momento Sócrates Clarimundo esboçou as idéias num guardanapo de papel, lá mesmo, sobre a carrocinha engordurada. Posteriormente, o Zé Ninguém deu sua contribuição rítmica, e o texto saiu assim:


Manifesto Rudista

Sim, eu confesso que sou rude.
Nunca gostei do Romantismo,
mas ruim mesmo é o Modernismo
que tirou da arte a virtude
que tinha a métrica e a rima.
O verso livre só me anima
se a idéia for muito boa,
do contrário é coisa à toa.

Apesar de deveras rude,
orgulho-me desta atitude;
pois sou franco na poesia,
e abomino a hipocrisia
que permeia a sociedade.
Porém, tenho a capacidade
de as gentes enternecer
ao cantar que o anoitecer
tem claridade diferente
do seu celestial parente,
o também belo alvorecer.
Eis sutileza, esplendor!
Não nego os lirismos que calham.
Porque para o mal metedor...
até os culhões atrapalham.


Foi um escândalo! De madrugada, um pouco antes do alvorecer, o Zé Ninguém pulou o muro da escola com heroísmo idealista, e afixou em diversas paredes algumas cópias dos versos acima. A primeira aula chegou a atrasar devido ao alvoroço decorrente da divulgação do Manifesto Rudista. Seus autores até que foram bem modestos, assinaram com pseudônimo: Grande Othelo.
No seu sonho, o Zé Ninguém ia arquivando toda a sua produção textual com vistas ao seu ambicioso projeto literário de celebrizar-se pelas letras. Consolo para o cientista frustrado, e o militar inapto.
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terça-feira, 25 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 5

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 5



A princípio, devido à Lei da Inércia que explica o pendor humano pela preguiça, Zé Ninguém desprezava as leituras, seguindo o seu muito conveniente sofisma de que tais leituras contaminariam seu pensamento independente. Logo, porém, entendeu que não existe originalidade absoluta no que concerne a idéias: a Natureza é a origem de toda analogia que fundamenta as abstrações mentais, as quais movem-se numa reação em cadeia; assim, em todo pensamento há um mínimo de plágio. Ele, então, conheceu a sede por conhecimento; verificou também que até aquele momento vivera pouquíssimo e mesmo uma vida inteira seria insuficiente para desvendar o funcionamento das coisas e das gentes. Despencou a ler tudo que lhe chegava ao alcance, agia a “vontade de força”.
Devido a uma atração passional e, portanto, irracional pelas coisas vetustas e passadas, Zé Ninguém escolheu a dedo os livros mais antigos da biblioteca doméstica do Dr. Cacareco. Após tê-los lido em sua totalidade não importando se tratavam de Estética Musical ou Mecânica Celeste, ele reparou que, quanto mais aprendia, mais percebia sua grande ignorância. Com esta inquietação, saiu um dia a vagar pela cidade à cata da palavra impressa. Sentindo falta do futebol, do qual andava meio afastado devido às leituras, dirigiu-se ao campo de várzea, onde encontrou o Sócrates Clarimundo em seu afã gorduroso, calorento e... filosófico. “Ô, mestre, boa tarde. O senhor sabe onde vendem livro velho?”. “No sebo, eu só compro lá. Não conhece? Sebo é loja de coisa velha, em geral livros. Tem um na rua do Teatro Municipal, bem na frente”. Zé Ninguém achou graça no nome sebo, parecendo-lhe mui afim de ser freqüentado por um filósofo ensebado como o Sócrates Clarimundo. Incontinenti, rumou para lá.
“Casa mal-assombrada” foi o primeiro parecer do rapaz acerca do Sebo. Antigas fitas de vídeo, discos musicais ainda do tempo do vinil (pré compact disc), e livros, montanhas de livros entulhados à revelia ou apinhados em rotas estantes de madeira ou metal, mas todas empoeiradas, com insetos ou ferrugem; tudo fazia pesar a atmosfera precariamente iluminada do prédio de sobrado que sediava o Sebo. Uma fascinação comparável a viajar-se no tempo acometeu Zé Ninguém perplexo com a certeza de encontrar-se envolto em séculos de informação.
Já queria o dia fenecer quando Zé Ninguém cambaleava de volta para casa equilibrando a pilha de livros que comprara. Pilha eclética: compêndios de História Natural, Inglês, e Astronomia; uma novela alemã; contos de Mark Twain; e poemas de Manuel Bandeira.
Nos dias subseqüentes, foi lendo tudo ao mesmo tempo, um pouco de cada por jornada. O que o impelia era uma ânsia viceral por adquirir conhecimento; qualquer conhecimento; viajar o mundo e relacionar-se com pessoas vivas e mortas jamais por ele imaginadas, das mais variadas qualidades, caráteres, culturas.
A leitura surtiu efeito. Logo frutificou em bagos opulentos de eloqüência em versos do grande Zé Ninguém, o herói da nulidade!
Numa experiência incipiente com o Inglês que estudava pelo método de Sócrates Clarimundo, ou seja, o auto-didatismo, elaborou um soneto à custa de não pouco esforço da parte de seus escassos miolos e débil vigor mental. Eis o dito cujo:

WE?

Loneliness is a so natural state
of any living matter you will find;
’cause when I was a child, now I remind
myself: I was alone, that was my hate!

I had a mother, a father, a faith,
and the true love of my sister, so kind...
come from the very equal flesh of mine,
and, yet, I was I behind the soul’s gate!

Now, where’s my faith, my sister, where am I?
in this spinning sphere which just says good bye
to teach us good bye, to teach us to pass...

As our life goes too fast, we’re lonely as
the fast space-ship that goes faster as far
it is from us, from the Origin we are!


O leitor atento estará se perguntando: Como ele aprendeu Inglês se estava sonhando?
Correto, mas já esclareci em ocasião anterior... Tudo que nosso jovem e pretensioso versejador sonha flui tão somente das deduções oníricas em curso e conhecimentos prévios. Exemplo: ele conhecia alguns poemas de Manuel Bandeira e noções de Astronomia; quanto a Mark Twain, só o nome lhe parecia familiar, e o que dele leu foi inventado com a vertiginosa liberdade propiciada pelo devaneio de alguém a dormir.
E o Inglês, a própria escola já o havia ensinado um pouco.
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segunda-feira, 24 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 4

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 4



Quase todas as tardes, à hora do lazer, Zé Ninguém jogava bola num campo de várzea perto de casa. Jogava invariavelmente o futebol, esporte originário da Inglaterra, e incorporado como uma das grandes instituições da cultura nacional brasileira. Empolgante, onze de cada lado, uma bola: está armado o espetáculo ao léu da arte.
Nos locais onde há aglomeração de indivíduos, e em especial de jovens, sempre aparece um ambulante vendendo guloseimas, porque comer, todo o mundo come; é mania que as pessoas têm. Eis que na mencionada várzea, o vendedor de frituras Sócrates Clarimundo fazia uns trocados com a molecada. O pedido era feito e fritado alí, na hora, em cima de uma carrocinha equipada com fogareiro e tacho cheio de gordura; era um trabalho senão seboso, um tanto ensebado.
Certa vez, um menino pediu: “Tio, me vê aí uns dois quibes”. “Espera aí;”, disse Clarimundo, “dois quibes, ou mais que dois?”. E o menino: “Ah, mais ou menos dois”. “Mais ou menos é medida de esfíncter do intestino reto”. Ein?! O que seria aquilo? “É medida de cu, amiguinho”.
Zé Ninguém, que ouviu a palestra acima, intrigou-se com a personalidade daquele humilde fritureiro, figura pitoresca. Barriga protuberante, calva gotejante de suor, sempre de avental branco encardido e um sapato preto todo amacetado dando a impressão de os pés estarem cravados no chão, Sócrates Clarimundo aparentemente em nada se destacava de qualquer trabalhador autônomo em luta pela subsistência. Jamais freqüentara qualquer estabelecimento de ensino, e aprendera a ler com recortes de jornal sob auxílio da Divina Providência da força de vontade. Era um batalhador rústico, mas que ousava umas filosofias se lhe ensejavam ocasião. Era o que restava por entreter esse pobre coitado, frustrado pela profissão, fadigas, e dissabores da existência.
Ainda que com o sexo oposto Zé Ninguém assumisse a postura do tímido, não se lhe impunha constrangimento algum conversar com homens; de modo que foi logo arrebanhando divertidos diálogos com Sócrates Clarimundo, nos quais escutava coisas do tipo: “Deus não dá asa a cobra”, “Mar não tem cabelo”, “Nem tudo é tão difícil quanto parece, nem tão fácil quanto se imagina”, “Homem não trai a mulher; cumpre uma necessidade, pois o nosso brinquedinho é de armar, o delas é só de encaixar”. Um dia o rapaz perguntou se Clarimundo gostava de vender frituras, ao que este respondeu: “Você está doido?! Eu hei-de um dia ser professor. Vou ensinar minhas filosofias para esses petimetres engomadinhos deixarem de frescura. Ah, se vou!”. E qual seria a sua linha de pensamento? “Pois sou anarco-monarquista. A Monarquia é necessária porque tudo que presta tem um dono, e o dono do Brasil era o imperador. Enquanto que a Anarquia serve para deixar o povo tirar um sarro da cara da nobreza e amenizar o despotismo imperial. Repare, é a harmonia perfeita”.
Sócrates Clarimundo motivou uma guinada na poética de Zé Ninguém, que passou a compor versos na linha dos transcritos a seguir:

Trancado neste quarto escuro
sou um prisioneiro de mim.
Não sofro qualquer privação, mas juro
que sofro por um mal que não tem fim.
E este mal é um bem
que só o conhece quem não o tem.

Eu mesmo não o conheço,
mas fizeram-me crer que ele existe;
abstrata é a causa por que padeço,
e perdida é a luta que persiste.

Minha vontade segue perdida:
não quero nada, mas quero a glória!
Minha vida é uma constante partida
rumo a uma cabal e intangível vitória...


E assim, o nosso interno do Hospital da Glória entrou na fase especulativa do seu sonho.
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domingo, 23 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 3

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 3



No primeiro ano dos estudos secundários, novas áreas do conhecimento entravam na vida acadêmica da rapaziada. Uma delas era a Física Clássica, pela qual Zé Ninguém se afeiçoou deveras, pois este estudo era o que mais compensava os aborrecimentos de perder toda uma manhã de juventude enfurnado numa sala de aula, uma vez que a Física desvelava as leis que regem o mundo, a realidade mesmo do quotidiano; e suas primeiras noções apraziam pela simplicidade ao elucidar que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo, e a cada ação corresponde uma reação igual e contrária. Mas os cálculos matemáticos inerentes aos problemas físicos logo vieram a estorvar, e Zé Ninguém constatou que seu negócio mesmo eram as aulas de Literatura do professor Zé Coisinha
Coisinha conseguia prodigiosamente objetivar temas tão subjetivos como amor, raiva, gratidão, inveja, altruísmo, egoísmo, etc., convergindo todos eles a convenções sociais do inconsciente coletivo engendrado por impulsos dos instintos às vezes dissimulados, às vezes reprimidos. Quanto à poesia, ele era não menos preciso: “Poemas são rimados e metrificados; o resto é prosa, a qual pode ser prosa-poética, ou prosa-prosa mesmo”. Com o professor Coisinha não havia frescura nem esses modismos estéticos excessivamente afetados; Coisinha era bruto, ou na gíria popular: Macho de três culhões! Mas as peculiaridades anatômicas do Coisinha não vêm ao caso. Era um bom professor. Sem querer, dando noções de Teoria Literária, ao analisar rimas e métricas ensinou os rudimentos técnicos do verso para Zé Ninguém. O poema analisado foi um vilancete medieval, no estudo do trovadorismo. Zé Ninguém ficou com aquilo na cabeça, matutando, matutando. Isto ele sonhava como novidade, a olvidar um obscuro dia chuvoso de sua infância em que folheou uma antologia de estudos sobre poesia na biblioteca do Dr. Cacareco.
Eis que Zé Ninguém empreende compor e efetivamente compõe um poema, um vilancete, havia de ser um vilancete. Então, qual o porquê do poema? Todo efeito tem uma causa. Para o efeito: poema, correspondia a causa: menina bonitinha.
A referida causa era uma donzela mui adequada a cativar qualquer idealizador romântico: moreninha, mirradinha, lânguida, de olhos grandes e sempre úmidos. Seria um anjo? Seria santa? Seria virtuosa qual mamãe Amélia, a mulher de verdade?
Lindaura Risoleta –é o nome da bela– caminhava toda pudica num intervalo de recreio ameno à sombra das jaqueiras apinhadas de jacas moles e podres do pátio escolar imundo quando acometeu a Zé Ninguém o fulminante estremecimento de encanto ao divisá-la. Apaixonou-se pela incógnita, atribuíndo-lhe os mais elevados valores intelectuais e sentimentais. Ainda mais porque ela usava, à guisa de pequena manta, uma blusinha verde-água. De mantinha!, e da tão singela cor verde-água. Estava convicto: “É santa”.
Sonhou com Lindaura Risoleta. Acordou de madrugada. Não dormiu mais. Escreveu seu primeiro poema, o incipiente vilancete:

Ai! Tão singela donzela,
Tu me deste muita mágoa
Com tua blusa verde-água.

Não falo a Deus, pois não me ouve;
Não Se dá com as paixões,
Por mais que primando O louve
Em pueris orações,
Ou em vibrantes canções.
Mas me deste tu mais mágoa
Com tua blusa verde-água.

Evocando a maior coragem da sua existência até alí, respirou fundo, cerrou o punho esquerdo atrás das costas, e com a mão direita entregou o poema a Lindaura Risoleta como se estivesse assinando sua própria sentença de morte. Foi quase uma morte. Ela, que o convencera ser tão mimosa e virtuosa, abriu um sorriso pervertido, a crua identidade do Diabo.
Aquele vilancete foi um pacto com o Diabo. Zé Ninguém atava-se inexoravelmente com os laços abrasivos da poesia. Lindaura escravizou-o com a pueril esperança de lograr a graça de um amor correspondido. Em realidade a esperança move a vida, mas faz sofrer; a esperança dá e tira ao mesmo tempo; é a dor intrínseca da vida. E dest’arte sucederam-se centenas de versos da pena de Zé Ninguém. Pendeu sua predileção pelos sonetos, e teve sua fase da métrica alexandrina. No auge do idílio escreveu:


Singela qual jamais com lira pôs em verso,
da mais alcandorada poética, a prática;
singela qual a franca e pura matemática,
poema em que se lê as leis do universo.

Graciosa qual jamais pincel em tela fina
esboçar-lhe as feições ousou por mão mortal;
graciosa qual somente em mundo surreal
pudesse tantas formas ter uma menina.

De que o amor existe é prova prazeirosa
para os olhos de quem a vê e logo ama,
para o peito do bardo que em delírios clama.

Diante de virtude assim tão primorosa,
não haverá quem não viva por lhe louvar,
não haverá quem não morra por lhe amar.


Singela..., graciosa..., oh!, ao que parece boiando na superfície capciosa do lago amoroso, sim. Mas quem despreza o barco da prudência e no dito lago se arroja, afunda de imediato. Teria sido dura, mas bondosa, se Lindaura Risoleta tivesse logo desiludido seu bardo aparvalhado, rechaçando-o de pronto. No entanto, aceitava as humildes ofertas poéticas sempre sorrindo, graciosa..., singela...
Mas “la dona è mobile”. Sempre um amável, formoso rosto, em riso ou pranto é enganoso. Tal a lástima; mulher de verdade, só mamãe Amélia que passava fome ao seu lado e achava bonito não ter o que comer. Passar fome, cá venhamos, é pedir um pouco demais. Porém, o mínimo de probidade seria dar sinceridade a quem dava amor. Por que nutrir a esperança do tolo rapaz? Vaidade. Ela nada queria com a pessoa dele, queria os poemas; colecionava-os e os exibia a todos qual fossem troféus; elegias à sua beleza e feminilidade. Ora, pois, quem há-de querer algo com o Zé Ninguém? Tudo acabou quando ela passou a namorar outro. Foi penoso, mas edificante. Talvez os penitentes tenham razão em sua busca de plenitude pelo sofrimento. Acaso é pouco prazeiroso o alívio de descalçar sapatos apertados após ter andado com eles um dia inteiro?
A partir de então, os versos de Zé Ninguém assumiram um tom mais crítico e investigativo. Tudo sonhado, tudo deduzido.
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sábado, 22 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 2

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 2



O corpo vegetativo de Zé Ninguém passou a receber alimentação parenteral por meio de soro injetado numa veia oposta ao cotovelo de um dos braços. O estranho é que, ainda que sonhando, ele nunca se mexia, nem seu ritmo cardíaco se alterava. Sim, seria um tipo de coma; e nenhum dos sentidos o ligava à realidade. Mistério? Não. Ignorância mesmo.
Zé Ninguém, conforme referido, contava, por essa época, quinze lindas primaveras sobre sua terra natal, o continente chamado Brasil. Quinze anos..., era homem feito. Ao menos acreditava que sim. Acreditava também, e neste caso com ponderado entendimento, que a suprema instrução já lhe fora dada, a qual consistia tão somente em, há alguns anos, ter sido alfabetizado e aprendido as quatro operações matemáticas; a partir daí conquistaria o Mundo!
Por influência do Dr. Cacareco, o menino Zé Ninguém crescera com a vontade de vir a ser um grande cientista. Constatou, porém, com amarga contrariedade que, conforme crescia em tamanho, parecia diminuir em inteligência a ponto de ombrear com a mediocridade. Então, seu brio um tanto megalômano inculcou-lhe a idéia de tornar-se um ilustre militar, só por vaidade infantil; de maneira que escolheu a arma cujo uniforme afeiçoou-lhe qual sendo o mais formoso: o branco imaculado da nossa gloriosa Marinha.
Um militar obedece ordens, nunca deve ser do contra. Zé Ninguém era do contra. Os rapazes interessados em ingressar nas armas preparavam-se para o exame de admissão freqüentando cursos pagos além da escola comum. Zé Ninguém achava isso um comércio ignóbil, e estudou por conta própria. Resultado: reprovação. Lástima!, inapto para a carreira militar, restou-lhe arriscar a sorte na sinuosa senda da Literatura. Não que ele levasse jeito, tivesse dom para a coisa, mas o que ele queria a todo custo era sentir-se superior, com uma “vontade de força” tão doentia que só poderia ser cotejada com a de Friedrich Wilhelm Nietzsche!
Talvez isso explique o sono profundo que se abateu sobre o nosso rapazola que, no que lhe conserne, segue sua vida qual de costume. Há poucos instantes sua carcaça inerte penetrava no Hospital da Glória, enquanto que ele em si voltava radiante da escola a fim de compartilhar com a irmã Cleópatra Rockefeller as literaturas do professor Zé Coisinha, e a divina sapiência metafísico-teológica do professor Zé dos Santos:
“Sabe, Cléo, a força vem de cima..., mas isso é mera conotação.” Foi dizendo enfunado de soberba. Ao que a pecuniária Cleópatra Rockefeller retrucou com não menos pretensão: “Na verdade, a força mesmo vem é da Bolsa de Valores de Nova Iorque...”
Ao contrário do irmão Ninguém, a Rockefeller tinha uma sabedoria pragmática característica às pessoas que sabem fazer dinheiro; não só dinheiro, mas muitas amizades, e um punhado de desafetos. Enfim, Cleópatra Rockefeller tinha bem à flor da pele o pertinente instinto de sobrevivência, além dos demais instintos. Mesmo que pensemos a toda hora e, assim, pensemos por instinto, Zé Ninguém pensava que o ato de pensar tolhia-lhe boa monta de instintos; essa intelectualização da sua intolerância às próprias debilidades o consolava na sua apatia perante a vida. Já Cleópatra Rockefeller pouco pensava, ela vivia. Com apenas dez anos de idade angariara seus primeiros dinheiros vendendo chocolates e barganhando lapiseiras usadas no recreio da escola, e aos doze ousara a façanha de empregar cinco meninos a seu serviço no ofício de engraxate de sapatos, fundando uma mini-empresa prestadora de serviço, e entrando no corredor dos capitalistas. Sempre tudo coisa honesta, “Cosa Nostra”.
A índole condolente de Zé Ninguém logo protestou: “Você não tem vergonha de fazer aqueles meninos trabalharem para você em troca de comissão, escovas e graxa? Eles estão iludidos, não dependem de você”. Com seu sorriso habitual de superioridade, Cleópatra Rockefeller esclareceu que o segredo é fazer os empregados acreditarem que os patrões são imprescindíveis. É, o mundo é dos espertos; até uma criança sabe isso. “E ainda,” continuou a irmã, “quanto pior se tratar seus inferiores, mais eles te respeitarão.” Zé Ninguém contemplou a irmã com toda a ingenuidade do seu olhar; esmurrou-a bem na boca, e berrou: “Respeita o teu superior! Eu!”
Mamãe Amélia quase arrancou-lhe o couro a chicotadas: Zé Ninguém não era nada superior a Cleópatra Rockefeller. E violência não dá respeito a ninguém; só dão mesmo as chicotadas respeito à mamãe.
Mas isso foi quando os dois irmãos ainda eram crianças. Agora, ele com quinze anos de idade, e ela com dezessete, a situação mudara; já haviam se estudado bastante e finalmente aderido à benfazeja e sacrossanta hipocrisia das relações familiares, cuja análoga diplomacia articula seus tentáculos permeando todas as sociedades humanas. Portanto, “Bom dia Dra. Rockefeller. Podre de rica, ou rica de podre? Brincadeirinha, mana.”, e ela: “Tudo bem, prole-otário querido”. E assim seguia a vida, ou melhor, o sonho de Zé Ninguém.
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sexta-feira, 21 de maio de 2010

ESPELHOS PARALELOS cap. 1

ESPELHOS PARALELOS
capítulo 1



É estranho dizer que alguém tenha acordado dormindo. Causa estranhamento por ser inexeqüivelmente contraditório, ou, em sentido contrário, ser óbvio. Ora, não se pode acordar e permanecer dormindo; mas também estado preliminar para se acordar é estar dormindo.
A verdade é que Zé Ninguém, então com quinze anos, acordou... dormindo. Abriu os olhos, espreguiçou-se e dirigiu-se à cozinha, onde encontrou sua irmã Cleópatra Rockefeller, sua mãe Amélia (a mulher de verdade), seu pai Petit Cacá (o filósofo metafísico, físico clássico e relativístico, químico explosivo e engenheiro-geral, Doutor Cacareco), e a empregada Raimunda, que era feia de cara...
Zé Ninguém cumprimentou a todos e, qual de ordinário, deglutiu seu pão-com-manteiga e café-com-leite, a tradicional refeição matinal brasileira. Foi então que mamãe Amélia o foi despertar a fim de tomar seu rumo na vida, Zé Ninguém: é hora de ir para a escola!
Ele não respondeu aos chamados, nem acordou; porém já havia tomado café e caminhava para a escola deliciando-se com a fresca brisa da alvorada. “Minha Nossa Senhora!”, exclamou Amélia. “Espera aí: a Senhora é tua ou nossa?”, perguntou o Dr. Cacareco. “Que importa, homem?! Nosso filho morreu!”. Fez-se um minuto de silêncio; Cleópatra Rockefeller, exibindo um sorriso matreiro, foi apalpando o pulso do irmão até que sentenciou: “Ele nunca me enganou; é fingido, é preguiçoso e burro; morto que morreu mesmo não pode ter estes batimentos cardíacos que sinto no pulso do safardana!”. Com violência, Cleópatra Rockefeller derrubou o irmão da cama. Devido à queda, o nariz de Zé Ninguém começou a sangrar, mesmo assim ele permanecia inerte. O remorso levou Cleópatra Rockefeller a chamar uma ambulância. Zé Ninguém foi internado no Hospital da Glória, onde os médicos, sem achar explicação melhor, declararam soberanamente que ele estava em coma.
Qual coma, qual nada! O ilustríssimo cidadão da república, de quem nos ocupamos, seguia vivendo normalmente. O corpo inerte, mas seu imaginário (quiçá a sua alma) continuava mais ativo que nunca. Não estava no Hospital da Glória, mas já no começo da sua própria glória: a primeira aula de Literatura da sua vida!
Foi logo simpatizando com o professor, seu xará Zé Coisinha, que, qual todos os demais professores, ensinou-lhe tudo o que ele sempre poderia aprender sozinho sem ter que engolir o que regorgitavam dos livros os mestres sofistas da modernidade. Isto porque tudo o que lhe ocorreu após a manhã em que acordou dormindo foi fruto da sua imaginação, unicamente adubada pelas vivências reais precedentes. Bem, simpatizou com Zé Coisinha porque nele sintetizou seu ideal de professor: o que ensina tudo aquilo e somente aquilo que os alunos querem aprender, ou seja, o que interessa.
Apesar de saber antecipadamente o que seria ensinado, tratando-se de sonho, Zé Ninguém simulava que tudo era novidade empolgante, incrível; e aprendia com gosto. Tinha razão, Zé Coisinha desenvolvera um método pedagógico muito razoável que consistia em classificar os livros conforme as suas espessuras: quanto menos grosso, melhor. Nem por isso desprezava a volumosa Bíblia, simplesmente não a considerava como objeto de estudo da Literatura, mas da Teologia. E se a questão fosse estudar um livro grosso, preferia Dom Quixote a Guerra e Paz, pois o primeiro fazia rir à beça, enquanto que o segundo era frio como a Sibéria.
Já que se mencionou Teologia, as aulas de Religião tiveram um começo confuso para o nosso jovem estudante onírico. Ele aprendera com seu pai, o Dr. Cacareco, que a “força maior” do universo vem do núcleo dos átomos, que são invisíveis mas existem; sim, existem; felizes daqueles que creem sem ter visto jamais! Em contra partida, Zé dos Santos, o professor de Religião, instava com veemência em dar fé que a “força maior” vinha de “cima”, e apontava o dedo indicador rumo ao teto da sala. Com efeito, se o teto um dia caísse durante a aula, muitos iriam se dar mal, por “força maior”.
Uma vez que Zé Ninguém alienara-se do mundo real, todo seu conhecimento passou a ser construído por dedução; de modo que, entre outras áreas do conhecimento, chegou a trabalhar com Geometria Esférica a partir dos teoremas aprendidos antes do sonho; e tudo ele simulava aprender com as aulas sonhadas. Isto é que pode se chamar: poder da mente. Isto, a imaginação, é a fração de Deus que existe no ser humano.
E os dias do tempo mental foram passando, ainda que ele mal tivesse chegado ao hospital.
Zé Ninguém dormindo, sonhando...

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quinta-feira, 13 de maio de 2010

HUMANA CRIATURA
















HUMANA CRIATURA



"que bom se sesse..."
(Alceu Valença)

Fêmea, eu sinto teu cio...; insandecida,
tu vertes pelo sexo o oloroso
fluido característico viscoso,
fingindo conversar mui divertida.

Tu dissimulas bem, és bem fingida;
pois sabes que é feroz e perigoso
o vulcão dormitante do teu gozo!,
e... faz-te de pudica margarida.

Porém, minhas narinas de mastim
farejam do Amor a essência pura,
e os olhos não me enganam tanto assim.

Então desfaz-se o anjo de candura
que dantes levitava frente a mim,
e beijo-te, oh humana criatura!

Marcos Satoru Kawanami

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Corria o ano de mil novecentos e não me lembro mais, quando, confesso, fresquei.
Fresquei e não me arrependo, até porque a mãe dela merecia muito mais. No entanto, despojado de qualquer sofisticação política, eu fresquei. E frescaria até sexta-feira da paixão. Paixão esta que quase me leva a frescar muito mais naquele fatídico ano de mil novecentos e não me lembro mais.
Data vaenia, "Confesso..." é peça inspirada literomusicalmente nalguma creação do companheiro Zé Rodrix.

CONFESSO QUE FRESQUEI

Baby, por favor me mande o seu retrato
Baby, mande 2x2 ou 3x4
Depressa, faça uma xerox da sua vida
Depois, mande com firma reconhecida
Retire o seu dinheiro do FGTS
Guarde aquele cobertor que lhe aquece

Fale com a sua mãe,
Faça um exame de feze
Passe na igreja - aproveite e reze
Pegue sua carteira de identidade
Entre numa farmácia e compre as novidades.

Depois venha correndo
Pro lado de cá
Depois venha correndo
sem medo de amar.

Falcão, compositor erudicto do Ceará

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MARIA FUMAÇA - cap. 12








CAPÍTULO XII - FIM
A guerra; a Captura;
a partida; o fim;
um amigo que fez o favor de escrever
para descanso da minha caligrafia ilegível de velha.


Ah, sim, claro! Houve uma segunda e última vez em que Maria Fumaça esteve em minha casa. Foi fugindo da tal da Captura.
Era o tempo da Segunda Guerra Mundial, estava feia a coisa. De primeiro até que não, o povo nem sentiu: o presidente Getúlio Vargas, que se agarrava e se rebolava no poder havia quase quinze anos, foi astutamente tirando vantagem da guerra, ora pendendo para o Eixo, ora pendendo para os Aliados. Mas quando a Alemanha (dizem) resolveu afundar uns navios brasileiros, aí o caso encrespou; declaramos guerra à Alemanha, à Itália e ao Japão; a colônia nipônica já era numerosa em indivíduos no estado de São Paulo, e, pela patente distinção étnica, estes imigrantes eram facilmente identificados por todo mundo, e comeram o pão que o diabo amassou..., crianças japonesas eram surradas nas ruas, adultos eram presos, e seus domicílios e estabelecimentos comerciais eram invadidos até mesmo a cavalo pelo exército; isto, ao mínimo pretexto. As guerras engendram tanto crime: exemplo é a injustiça que se cometeu contra este povo que tanto deu de seu esforço em benefício do Brasil.
A população civil urbana em geral sofreu privações, principalmente devido ao racionamento de alguns produtos alimentícios como açúcar e farinha de trigo. No clima de insatisfação que se verificava, o ditador Getúlio Vargas via-se na contingência de reprimir algumas manifestações contra o governo; esta repressão era feita pela “Captura”, a lendária polícia secreta que punha medo na gente.
Maria Fumaça que, quando não procurava confusão, a confusão a procurava, esteve também fugida da Captura. Foi se esconder lá em casa outra vez, e agora com a presença do meu marido e da minha primeira filha ainda pequena! E era da polícia que corria. Que fuzarca...
A besta estava em pleno exercício da vadiagem na Avenida Rio Branco, quando viu aquele bando de rapazes engalanados no seu garbo varonil a fazer uma passeata contra a ditadura. Que maluquisse! Getúlio gostava sim do poder, mas creio que sempre gostou de seu país, era um patriota certamente. Porém a rapaziada queria agitar o pedaço, e a Maria, vendo naquilo uma bela patuscada, estava com a faca e o queijo na mão. Engajou-se na marcha, e a cada grito de “fora Getúlio!”, gritava sua boca pervertida: “fôda o Getúlio!”.
Sem muito demorar, a cavalaria desbaratou os manifestantes, tudo se desintegrando quase ao nada. Mas minha amiga, bem visada pelos observadores secretos em conseqüência dos despautérios que gritava, provavelmente teve sua fotografia fichada nos arquivos da Captura. Tentaram prendê-la primeiramente no cais do porto, depois no botequim, depois no carnaval, depois no bonde, depois no morro, enfim, na minha casa; mas, e é que conseguiram? Nada! Maria sumia tal qual a fumaça.
Então meu marido disse: “Tudo bem que você seja amiga de infância da minha esposa, e eu também seja a favor da democracia (você sabe o que é isso?), mas nós temos criança pequena em casa; aqui não é esconderijo; então, você vem comigo para onde estou partindo numa viagem de negócios.”.
Eles foram. Pegaram um trem na Central.
Nunca mais soube dela.
Meu marido, ao regressar, disse-me apenas que Maria Fumaça ficara numa estação no meio do caminho para Ouro Preto, estado de Minas Gerais. Disse-me também que, no fundo, ela não era má pessoa. Acredito.
Aqui encerra-se meu relato das aventuras e desventuras de Maria Fumaça, que hora mergulha na posteridade, e, sem a comprovação de sua morte, como que ascende ao céu, e acomoda divinamente o seu traseiro no Olimpo Eterno da Desmesura, ao destro lado de Baco.
Por finalizar, agradeço estimadamente à prestimosa atenção deste meu amigo que fez o favor de escrever o que eu lhe ditava para descanso da minha mão já sem força. Ele, a meu pedido de manter-me incógnita, é que há de assinar estas memórias.

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quarta-feira, 12 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 11




CAPÍTULO XI
Maria Fumaça apronta
uma molecagem para cima dum marinheiro, e se refugia
na minha casa.


Memorável foi a vez que Maria Fumaça viu-se na contingência de permanecer por três dias escondida em minha casa sem o reboliço a que ela estava acostumada. Foram dias de inquietação pela necessidade de ficar quieta.
Ao longo de nossa vida conjugal, meu finado marido galgou uma posição social privilegiada, permitindo à nossa família até certas regalias de conforto. Porém, seu começo foi o de um humilde livreiro itinerante, uma espécie de caixeiro-viajante muito comum naqueles tempos. Sua rotina exaustiva era caminhar a cavalo de déu em déu, batendo de porta de fazenda em porta de fazenda pelas plagas interioranas fluminenses a vender livros, num tempo em que livro ainda era considerado e bem quisto como mídia. Sabe-se que a grande ignorância pode significar felicidade; meu marido, contudo, acreditava que o grande conhecimento era que dava felicidade; dizia que tinha que ilustrar a “caboclada ignorante”, e passava a semana toda fora espalhando livros pelas estradas. Numa dessas ausências dele é que Maria Fumaça aproveitou para se esconder em nossa casa e salvar a sua pele.
Havia chegado ao porto um navio estrangeiro do qual desembarcou um marinheiro meio “brucutu”: forte, mal-encarado, e ignorante no sentido de ignorar as normas civilizadas de convívio, enfim, um brutamontes perigoso. Muito afeita ao perigo, Maria Fumaça teve logo sua atenção voltada para o marinheiro que, segundo ela, impressionaria qualquer um mesmo que fosse apenas pela altura e corpulência. Imagine-se, Maria Fumaça impressionada por um homem..., mas não, claro que era somente curiosidade; além do mais ele mostrava total desconhecimento de nosso idioma, o que deu ensejo a nova maquinação pervertida na mente doida e cheia de besteira da Maria. Assim, subtraíu do infeliz considerável valor pecuniário com um inocente joguinho de cartas, durante o qual foi ensinando-lhe o baixo calão da língua portuguesa e curiosas noções de anatomia qual designar por bunda o que usualmente chamamos de cabeça (obviamente uma total e discrepante inversão de valores, mas que, tratando-se de quem trata este relato, torna-se uma coisa até previsível e quase nada extravagante).
Bem, depois de perder bastante dinheiro e aprender que bunda significa cabeça em português, o avantajado marinheiro, inconsolável com as apostas perdidas, desandou a encher a cara de cachaça, e reclamava em voz alta: “Oh, que dói no bunda! Dói muto meu bunda...”. Os brasileiros presentes à cena do gringo não agüentaram muito tempo e logo caíram na gargalhada. Ora, a gargalhada é linguagem universal, o marinheiro percebeu o ridículo e se enfezou com Maria, partindo para cima dela. Foi uma correria. O brutamontes sapecava quem lhe estivesse na frente, e Maria se embrenhava onde mais tinha gente; o resultado foi uma baita pancadaria que minha amiga não quis pagar para ver: foi parar lá em casa ainda de madrugada. Eu ainda não tinha filhos, e meu marido estava viajando, de modo que a solidariedade pôde falar mais alto em nome da velha amizade infantil.
Maria ficou em minha casa por apenas três dias a fim de o seu querido marinheiro não a encontrar na casa dela e sumir de novo no Atlântico. Na confusão da fuga, porém, ela deixara cair da boca o cachimbo, fato este que fez aqueles breves três dias render uma eternidade. Eu bem que quis comprar-lhe outro cachimbo, mas o pudor feminino me impedia: onde já se viu uma senhora de família sair à cata de cachimbo e fumo? E também seria melhor ninguém ficar sabendo do paradeiro de Maria Fumaça.
Foram dias de inquietação para nós duas. Ela me seguia aonde quer que eu fosse na casa a fazer-me perguntas indiscretas sobre a vida conjugal: “Como foi a primeira noite?...”. “Vai saber disso com teu Santos Dumont, vai.”. “Me disseram que ele morreu.”. Ela se sentia viúva, coitada; nesse ponto Maria Fumaça tinha um pouco de santa.
Quando deixava de lado as perguntas, punha-se a riscar fósforos um atrás do outro, e, quando não era isso, era rasgar meus panos-de-prato e assim por diante que nem lembro mais. Francamente, o vício escraviza até as pessoas de índole mais indomável.
Passado o sufoco, tudo voltou à serena rotina de afazeres domésticos em meu lar, e de excelsa vadiagem no cais do porto.
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terça-feira, 11 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 10




CAPÍTULO X
Adeus Lapa boêmia;
um delegado da moralização,
retirada para o cais do porto,
versos nostálgicos.


Depois que me casei, afrouxou-se definitivamente meu convívio com Maria Fumaça; restaram estas boas(?) lembranças que aqui vou dando fé em conformidade com a singela beatitude recomendada pela iconoclastia das pertinentes convenções da moral e dos bons costumes.
A falar de moral, por aquela época apareceu um doutorzinho delegado que resolveu “moralizar” a Lapa fazendo as coisas mais ridículas. Proibiu a música e o consumo de bebidas a partir da meia-noite, proibiu o jogo, e proibiu as mulheres; ou seja, proibiu a vida na Lapa, e o bairro morreu. Maria Fumaça viu-se assim obrigada a encontrar outro reduto para sobreviver sem suar a camisa, e transferiu a jogatina noturna para o cais do porto. Para lá foram também prostitutas que não encontraram mais um lugar adequado como o Mangue que estava sendo demolido. Não que Maria Fumaça fosse uma delas, mas sentia-se bem à vontade no meio da putada, conforme ela mesma gostava de chamar o conjunto de putas. No meio delas se sentia a mulher que jamais seria, e o homem que sonhava ser.
As coisas se ajeitaram, mas foi uma fase de nostalgia e decadência. Guardo até hoje um recorte de jornal que celebrou a extinção da boemia romântica nos arcos. Trata-se de uma suposta letra de samba cujo autor preferiu o anonimato ao desconforto com a polícia. Eis que aqui a reproduzo:


E o Largo da Lapa?

Descendo o Morro de Santa Teresa
No bonde que parece uma carroça
“Coisa nossa, muito nossa”...
Passando pelo aqueduto, desolado,
Relembro a Lapa do passado,
Passado que então vivi
Num sonho colorido
Que neste samba sentido
Vou lembrando para mim e para ti.

Na Lapa se criou Wilson Batista
Cumprindo a sina de ser artista
A fazer polêmica danada
Com o insuperável Noël.
E sem nunca ter hora marcada,
Do Estácio sempre chegava Ismael.
No meio de tantos bambas
Dava-se o apogeu do nosso Samba!

Mas de repente do Cabaré Apolo
Não sobrou nem alicerce no solo,
Saindo nas revistas bem na capa:
Acabaram com o Largo da Lapa.
(e a Lapa sumiu do mapa)


Essa estória de moralização eu nunca engoli; os policiais sempre freqüentaram até o Mangue; o delegado estava é querendo mostrar serviço e aparecer. Neste nosso mundo, muitas vezes vale não o que é, mas o que parece. A Lapa acabou, mas os boêmios continuaram espalhados por tantos outros rincões da Cidade Maravilhosa.
E agora, Maria Fumaça?
E agora nada! Ela nunca foi de se preocupar. Foi levando.
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sábado, 8 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 9




CAPÍTULO IX
Um calote na Tabacaria Africana;
Maria Fumaça e a guerra,
o meu casamento,
a gula e a guerra.


A indumentária é como que um cartão de visita para os braços da sociedade, mas pode ser o contrário. A sociedade propriamente dita nunca foi o habitat natural de Maria Fumaça, que circulava muito mais à vontade no assim chamado sub-mundo dos segregados do que nos meios pacatamente burgueses da classe média, ou mesmo dos pobres honestos de favela. Dito isto, os trajes de Maria Fumaça não irão escandalizar: vestia preto desde o sapato com fivela grande até o boné de aba curta; era um breu total; bem, toda breu na íntegra não tenho certeza, nunca vi sua roupa íntima, se é que usava..., e o paletó, de tão esfarrapado, foi adquirindo tons de cinza. O modo de vestir-se, aliado à sua magreza cadavérica, outorgavam-lhe um aspecto desgraçado de escória da civilização ocidental. Foi essa figura funesta que o vendedor da Tabacaria Africana viu entrar em seu estabelecimento naquela memorável tarde de maio de 1942, quando Maria Fumaça conseguiu, por bem ou por mal, adquirir fumo inglês.
Ela ouvira falar que o fumo inglês era o melhor que havia para cachimbo, e quis porque quis um punhado dele; mas custava muito dinheiro: “Qual o motivo desse tal fumo ingreis ser tão caro?”, perguntou ao vendedor, o qual respondeu: “A Inglaterra está na guerra. Agora tudo é a guerra, é a guerra...”. Então ela pediu um naco de fumo comum. Manuseou um pouco o fumo, jogando-o de uma mão para a outra. Depois, entregando de volta o naco, disse: “Me troca ele pelo fumo ingreis.”. O vendedor pegou de volta o fumo nacional, e entregou-lhe o fumo inglês: “Mais alguma coisa?”, perguntou, já aguardando o pagamento; entretanto, sua elegante freguesa simplesmente agradeceu e foi saindo sem pagar, ao que o vendedor advertiu: “A senhora não pagou a compra.”, e ela: “Não paguei porque não comprei, eu apenas troquei este fumo ingreis pelo fumo brasileiro que eu já tinha.”. O vendedor pensou um pouco, e disse triunfal: “Mas a senhora também não pagou pelo fumo nacional!”. “Não paguei, mas também não levei. É a guerra, é a guerra...”, fulminou Maria Fumaça, deixando o vendedor aparvalhado, que provavelmente assim demorou o bastante para que minha amiga sumisse tal qual a fumaça, pois ela, ao me contar o ocorrido, declarou ter dado um belo calote sem onerar-se de um tostão sequer pelo excelente fumo que adquiriu.
Este golpe repetiu-se muitas vezes em lugares sempre diferentes e desprevenidos. No final, tudo era por causa da guerra, da maldita guerra. Bendita guerra!
Naquele mesmo mês de maio, o mês das noivas, aconteceu a cerimônia do meu casamento. Tive receio de convidar Maria Fumaça, pois meu marido certamente estranharia e se desgostaria com sua extravagante pessoa; porém, com a mesma certeza, seria muito mais desastroso se minha amiga descobrisse depois que não fôra convidada. Convidei. Na cerimônia religiosa, tudo correu tranqüilamente, Maria Fumaça não foi, já não posso dizer o mesmo da festa.
Ao final de festas familiares qual aniversários infantis e casamentos, é normal que os convidados levem para seus lares o resto da comida que por ventura sobre. No entanto, depois de tomar todas as cervejas que lhe caíram na mão, muito antes do fim da festa Maria Fumaça deliberou despejar nos bolsos do paletó as bandejinhas tanto de doces como de salgados, tudo misturado. Meu finado sogro, pensando que aquilo fosse apenas um efeito da bebida, tentou dissuadi-la oferecendo-lhe outra cerveja. Ela nem deu moral: também era a guerra, era a guerra... “A comida está racionada. É a guerra...”
Assim sucedeu-se o meu casamento, com o duplo estorvo de uma despropositada Guerra Mundial e de uma ébria Maria Fumaça; ainda procuro saber qual das duas era pior.
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sexta-feira, 7 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 8





CAPÍTULO VIII
Uma revange escatológica;
parte de mim uma idéia que
nem tive jamais,
homem também chora.


“Pô, Antônia, sábado passado fiquei na pinimba depois que saí da tua casa, fome da brava...”, foi o que me disse Maria Fumaça num dia quando eu rumava para o trabalho, e a encontrei regressando do carteado. “Mas você disse que tinha perdido a fome.”, ponderei. “E eu sou lá de ter frescura pra perdê a fome?! Falei aquilo só pra não dar mole pro teu coroa. Deixa pra lá, agora eu tô querendo é finalmente me vingá do mês de cadeia que o Gomeleira me deu. O galho é que o veadinho é a própria polícia em pessoa.”. “Manda ele à merda, e esquece essa besteira.”, sugeri a fim de evitar futuras complicações.
Para quê abri a boca? Minha amiga partiu do “mandar à merda”, fez a cagada, deitou, e rolou por cima.
Godofredo Gomeleira, guardinha muito enjoado; mesmo depois de liberar a Maria, sempre que por acaso a encontrava, submetia sua inimiga figadal a uma vistoria completa atrás de algum pretexto para conduzi-la novamente à cadeia. Então, Maria Fumaça teve sua idéia com requintes da mais pura porcaria. Encheu um saco pela metade com serragem, defecou abundantemente em cima, e pôs mais uma fina camada de algodão a fim de ocultar as fezes. Saiu carregando o saco pela vizinhança à cata do Gomeleira.
Após quase duas horas de procura angustiante, ela já pensava, com preguiça, em desistir: ora, quando não desejava encontrá-lo, encontrava; agora que desejava, não encontrava. Regressando a casa, parou num botequim para um trago de pinga e para acender o cachimbo; estava lá, sorrindo-lhe com ironia, o guarda Godofredo Gomeleira. Maria o encontrara; todavia, acreditando que a graça estava consigo, Gomeleira foi se manifestando: “Vejam só! Eis que um anjo, ou melhor, uma anja desce à terra! Salve a nossa soberana pitadeira de cachimbo, a Rainha do Estácio!”, os bebuns todos levantaram os copos num brinde, “Mas, vem cá, o que é que a senhorita vai levando aí no saco? Jóias, diamantes, hein alteza?”, ao que Maria aproveitou: “Alteza é a puta sentada no trono da privada, e o que eu estou levando é merda! Valeu?” “Eu vou dizer se é merda.”, sentenciou Gomeleira enfiando com gosto a mão no saco da sua surpresa.
Perfeito. Só sei que Maria Fumaça veio muito satisfeita me contar que o nosso amado guarda chegou a tremer e chorar de tanta raiva que passou vendo sua mão rebocada de bosta humana (a pior das bostas), as fezes de Maria Fumaça (a pior das gentes).
Gomeleira não poderia reclamar, pois Maria o avisara acerca do que continha o saco. Restava apenas ficar chorando de raiva e de vergonha no meio dos bebuns de botequim.
Tal foi a gloriosa vingança da ralé sobre o poder, da Maria Fumaça sobre o guarda-civil Godofredo Gomeleira.

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 7














CAPÍTULO VII
Um sábado no Estácio;
eu descansava carregando pedra,
almoço de frango suspeito,
estupidez de papai.



Toda vez que chega sábado, ainda hoje tenho uma sensação desagradável de fadiga; era o dia da semana em que eu encontrava tempo para a obrigatória tarefa de lavar roupa. Naquela época não havia as facilidades que as donas de casa têm hoje, como máquinas de lavar; tudo era lavado à mão, e a gente achava um grande progresso ter água encanada.
Num sábado desses da vida, debruçada sobre o tanque a esfregar com sabão uma cueca do meu irmão, senti um cheiro de queimado; pensei que fosse o fogão-à-lenha, virei-me e, por surpresa, dei de cara com Maria Fumaça a fumar seu cachimbo com um sorriso pouco discreto de zombaria. Falei-lhe: “Menina, vai fazê tuas macumbas em outra freguesia.”, e ela: “É isso memo, vou pros arcos. Por que você nunca mais apareceu por lá?”. Eu expliquei que estava namorando um rapaz muito sério, queria arrumar um casamento, não poderia decepcioná-lo com orgias noturnas no Largo da Lapa. “Tá bom, Antônia, já vi que você nasceu pra ficá lavando cuecas...”, ridicularizou-me. Perguntei se ela dissera aquilo por ciúme ou por inveja. Minha amiga se enfezou: “Inveja é claro que não, caralho! Agora, ciúme? Tá me chamando de sapatão?”. A fim de voltar ao meu afazer, resolvi pôr um fim na discussão, dizendo: “Maria, as vidas são sempre diferentes umas das outras. Você sabe o que quer, e eu sei o que quero. Cada qual que cave o seu.”
Nesta visita, Maria trouxera um frango (cuja procedência não precisou esclarecer); o assamos e comemos no almoço.
Sou obrigada aqui a dar conta deste fato: Maria Fumaça comendo era um atestado de indigência. Logo que o frango foi posto à mesa, ela avançou nele arrancando-lhe as duas coxas de uma vez. Alternava mordidas entre uma coxa e outra, quando disse de boca cheia e derrubando saliva na toalha: “Melhor do que uma merda dessa, só pão com meleca... Mas cadê a cachaça?”. Meu pai não bebia, nem tolerava a entrada de bebidas alcoólicas em nossa casa; também não tolerava a Maria Fumaça, uma afronta ambulante às famílias direitas do Estácio de Sá. A um salto pondo-se de pé e exalando macheza por tudo quanto era buraco, berrou papai: “Olha aqui, sua fedorenta, pega esse teu frango e vai terminá de comê ele no botequim que é lugar de ter cachaça para desocupadas feito você!”
Na verdade, meu pai invejava Maria Fumaça; ele era daqueles que ocultam de si mesmos a própria opinião idiota de que, para ser macho, o homem tem que beber cachaça. E ele não agüentava beber. Por isso enfureceu-se tanto e espinafrou Maria, tocando-a de casa.
Tola demonstração de autoridade..., uma temeridade, posso dizer; até parece que papai não conhecia minha amiga de infância. Realmente, ela só não fez um estrago lá em casa porque o otário valente desta vez era meu pai, digo meu, entenda-se. Mesmo assim, Maria não deixou muito barato: “O senhor é que faça o favor de pegá esse frango e enfiá no rabo! Antônia, outro dia nos encontramos, perdi a fome, vou embora.”
Ela saiu de nariz empinado, porém levando as duas coxas que estava segurando.
Maria Fumaça era besta, mas não era burra.
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 6











CAPÍTULO VI
De volta à ativa;
erro ao interpretar preto-velho,
surge um mito do jogo
na Lapa.



Maria Fumaça pouco se importava com a maneira de ganhar a vida; na verdade, não constava entre suas preocupações o justo ganho da vida; creio que nem com a vida ela se preocupava. “Maria Fumaça só achava graça na própria desgraça”, diria Noël Rosa.
Minha querida e maldita colega saiu do distrito policial ainda mais raquítica do que quando entrou, se possível era isso. Tão jovem, já tão feia: cabelo curto mal cortado sempre em desalinho, dentes todos cariados a ensejar terrível mal hálito, magra seca de pele e osso; um trapo de gente, mas valente; valente ao ponto da ignorância; e ignorante ao ponto da santidade. Maria Fumaça era um milagre personificado, sua existência por si só contrariava as leis da Física; por exemplo, com ela não tinha apenas Ação e Reação; tinha Ação, Reação, Vingança e Tripudiação. O guardinha Godofredo Gomeleira que se cuidasse...
Livre, novamente na rua, nossa doida Maria Fumaça retorna ao Largo da Lapa.
Não que ela estivesse preocupada em ganhar dinheiro, este vinha como uma singela conseqüência de sua diversão: a trapaça, o roubo, a ilegalidade. Com a morte do Marcos Cavaquinho, ela não encontrou mais quem consentisse em dividir o palco com suas mímicas grotescas; na verdade, grotesca era tão somente sua aparência. Certa feita na macumba, escutou de preto-velho: “Ahn ahn, misinfia, teu futuro há de se encontrá nas carta”, dando a entender que ela deveria procurar alguém que lesse sua sorte nas cartas do tarô. Maria, porém, entendeu mui bonitamente que a jogatina é que ia lhe dar futuro como sua verdadeira vocação e arte neste pervertido mundo de Deus.
Entregou-se ao baralho.
A derrota não entrava na concepção de jogo dela. Maria jogava, é bem verdade, por mera diversão; mas aí é que está: jogava apostando dinheiro, e perdê-lo não lhe parecia uma diversão. Convenhamos, neste ponto Maria Fumaça tinha razão. Por isso trapaceava descaradamente, e ganhava ao risco da própria vida. Ora, jogava com malandros da Lapa, malandros que constituíam a parte perigosa da ralé.
Chegou a tirar da boêmia jogatina mais dinheiro do que eu na fábrica com trabalho honesto. Teria ela razão? Sei lá... Parecia satisfeita. Danada!
Pois é, Maria Fumaça lograva ser mais malandra do que os malandros homens. Fez fama sob os Arcos da Lapa, era a “imbatível”, um desafio para pouca esperteza e muito dinheiro, desafio para otários incautos. A malandragem a evitava, mas toda noite aparecia um mais alegre para desafiá-la no cartiado.
Anos a fio, tal foi a sorte de Maria Fumaça. Bendito preto-velho...
Eu, por meu turno, admirava minha amiga, mas reconhecia que nunca alcançaria sua esperteza de estado-de-graça. Então, passei a estudar à noite e namorar aos domingos. Morrer solteira e analfabeta? Jamais!

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terça-feira, 4 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 5





CAPÍTULO V
Lembrança de um funeral;
seu vigário pecador, defunto molhado;
enfim, cadeia.


Morto o nosso querido amigo, nada mais restou a ser feito: o que se pode fazer por um cadáver?, a carcaça do ser-em-si, um envólucro orgânico que retorna à condição de matéria bruta. É estranha essa lenga-lenga de compaixão pelos finados e medo da morte; se antes de nascermos houve uma eternidade na qual não éramos da mesma forma que não seremos depois de mortos, o medo de morrer só se explica pela ânsia de concretizar projetos, mas ocorre que sempre queremos mais; por quê?; nesse ponto o instinto supera pujantemente a razão.
Bem, ainda que ao defunto fosse tudo indiferente, a comunidade do Estácio solidarizou-se em proporcionar-lhe um enterro decente. Maria Fumaça é que, plena de boa intenção, pôs tudo a perder. Veio a calhar precisamente o dístico de que o Inferno está cheio de boas intenções.
Apesar de ser a urbe bandeirante a que leva o título de Cidade da Garoa, no dia do funeral de Marcos Cavaquinho era a carioca urbanidade que se deixava banhar por fina e perniciosa garoa. A Natureza chorava sua morte, como quereriam dizer os românticos. Ismael e mais três homens carregavam o caixão, seguidos por pequeno mas seleto cortejo (a fina flor da ralé carioca e duas velhas e desdentadas carpideiras, as quais se revezavam mui profissionalmente na arte de chorar pelo falecido). Logo no começo do trajeto rumo ao cemitério, Maria Fumaça teve sua idéia alcandorada. Estávamos nós passando em frente da igreja Nossa Senhora da Piedade quando ela, de queixo inchado, anunciou: “Turma, olha a igreja aí! Seu vigário tem que abençoar nosso defunto.”. A infeliz foi dizer isto para quê?... Fomos barrados na porta. O pároco não queria abençoar “sambista encrenqueiro morto em briga de pecadores”. “Pecador é Vossa Santidade o cu da mãe! e lá vai a primeira pedra!”, gritou Maria Fumaça, derrubando seu vigário com uma pedrada certeira na testa. A infeliz foi fazer isto para quê?... O impertinente guarda-civil Godofredo Gomeleira, que acompanhava-nos de longe louco por uma arruaça, precipitou a distribuir cacetadas a torto e direito debandando o cortejo; o caixão se espatifou no chão, e Maria foi levada presa ao distrito policial. É claro que o Marcos nem se incomodou; ficou ao léu, de boca escancarada e com os braços e pernas ligeiramente afastados tomando garoa na rua deserta.
Que baixo! Que decepção eu senti... se bem que não deveria; nada eu tinha de estranhar neste proceder de Maria Fumaça, considerando minha longa convivência com ela.
Depois, voltei com Ismael, e providenciamos um improviso de enterro rápido para o Marcos Cavaquinho.
Lembro, a pesar de tudo é bom lembrar..., parece que foi ontem aquela garoazinha chata a encharcar meu vestido preto.
Maria Fumaça passou um mês no distrito lavando assoalho para o seu querido guarda Gomeleira, o “Santo Homem”.
Bem feito!
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segunda-feira, 3 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 4



CAPÍTULO IV

A parceria com o músico;
roubo de samba e briga com
um malandro,
silencia-se o cavaquinho.



A fim de conduzir Maria Fumaça a uma vida normal, eu tentei arrumar-lhe um emprego na fábrica de tecidos. Seria bom, trabalharíamos juntas. Apresentei-a ao gerente que, apesar de ter feito reparo na má aparência dela, aceitou contratá-la. Numa atitude impetuosa e besta, bem ao seu conforme, Maria Fumaça comemorou mamando uma garrafa de cachaça e batucando a noite inteira pelos botequins da Avenida Central. De manhã, bati em sua porta a caminho do trabalho; não obtendo resposta, acreditei que ela já havia rumado para a fábrica; lá chegando, verifiquei o contrário: a desgraçada dera-se o luxo de faltar ao primeiro dia, entorpecida de pinga na idéia. Não careceu comparecer no dia seguinte, o gerente foi inflexível: “A nobreza não precisa trabalhar, e a fábrica, portanto, não precisa da nobreza. Diga à sua colega que ela é nobre demais para se rebaixar ao trabalho.”
Todavia, sem trabalho não se ganha dinheiro honestamente, e sem dinheiro ninguém vive nem vivia naquele Rio de Janeiro. Pois Maria Fumaça descobriu um jeito de sustentar-se sem realmente trabalhar, ao menos sem um serviço regular. Fome não passava, continuou roubando galinhas. Dinheiro para as despesas e para gastar na boemia veio da própria boemia. Se antes bebera para comemorar a contratação, bebeu também depois para amargar a demissão. E já totalmente embriagada à custa do meu dinheirinho, estando a gente num cabaré da Lapa, subiu no palco o Marcos Cavaquinho a tocar e cantar. Maria Fumaça se animou ao som estridente do cavaco lembrando, talvez, da noitada no Mangue; levantou-se e começou a fazer uma mímica caricatural da música. O público gostou, a cena se repetiu com as canções seguintes, ao final das quais minha amiga, que jamais vacilava por qualquer vintém, estendeu o boné para receber espontâneas e generosas gorjetas. Esta parceria com Marcos Cavaquinho passou a ser o ganha-pão de Maria Fumaça. Isto até chegar a vez da navalha.
Confusão e conflito, no sentido violento destas palavras, eram uma constante em Maria Fumaça; gratuitamente poderia desafiar e provocar qualquer infeliz com uma baforada de fumaça na cara pelo simples motivo de não simpatizar com a dita cara. Coisa que não se deve fazer. Por conta disso ganhou uma cicatriz no queixo e perdeu um amigo, ou melhor: perdemos um amigo. Naquele tempo, alguns malandros estavam começando a armarem-se com revolver, mas em primeira instância dispunham da navalha. De modo que, tirando satisfações numa discussão, Maria Fumaça quase teve o queixo arrancado a navalhada, e o pobre-diabo do Marcos Cavaquinho recebeu um golpe mortal no pescoço. Tudo por causa do roubo de um samba. Um malandro pediu que o Marcos cantasse um samba inédito de sua autoria; tendo aprovado, fez com que o compositor o repetisse várias vezes enquanto outro malandro, atrás do Marcos, anotava a letra e memorizava a melodia. Era um truque comum, mas nosso amigo tinha vocação para trouxa, e caiu feito um pato. Percebendo o esquema, Maria Fumaça deu a famosa baforada na cara do ladrão de samba, dizendo: “De nós quatro aqui, tem três otários: meu amigo, teu amigo e tu. Dá o fora, ou o pau vai quebrar!”
O pau quebrou. Maria conseguiu se safar a tempo, mas o Marcos dançou... Para sempre o cavaquinho silenciou.

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NOTE BEM: Depois que o ministro da saúde comentou que sexo faz bem, minha mulher se recusa a forunfar comigo. Será que ela está querendo que eu morra logo, ou arranjou um amante? Tomara que esteja querendo que eu morra logo...
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domingo, 2 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 3






CAPÍTULO III
Do hospital para o Mangue;
uma toada romântica,
Marcos Cavaquinho, o cabaré,
uma paródia.




Creio que depois de velha, com muitos anos de janela, eu possa conceder-me o direito de dizer algo sobre a vida. Se não me engano, existem dois tipos de boêmios: os que saem na noite singelamente para brincarem igual crianças, e os que saem, sabendo ou não, movidos por um instinto às vezes camuflado, que essencialmente é a busca de sexo. O álcool é quase uma fatalidade: se uns o bebem por prazer do vício, outros bebem pela busca de prazer frustrada. A esses boêmios é que se deve a ascenção e decadência do esplendoroso Largo da Lapa até finais da década de 1930. Amiúde freqüentavam a Lapa artistas populares do calibre de um Orlando Silva, que iam gastar e ganhar dinheiro em recintos como o Cabaré Apolo. Neste cenário, uma figura obrigatória foi o músico Marcos Cavaquinho, outro miserável sobrevivente do Estácio que agora ingressa no meu relato.
Maria Fumaça tardava em receber alta no hospital... três, quatro, cinco dias, e nada. Impacientei-me. No sexto dia, saindo eu da fábrica de tecidos onde trabalhava, sou surpreendida pelo Marcos Cavaquinho a me esperar junto ao portão com seu inseparável cavaquinho embaixo do braço, encolhido com toda a timidez de seus raquíticos dezoito anos de rapaz judiado: “Antônia, eu fiz uma canção para você. Pode ouvir?”, ao que respondi: “Tá bom, mas agora estou indo pro hospital. Venha comigo, você vai me ajudar, é hoje que eu tiro Maria Fumaça daquela porcaria!”. Eu tinha surrupiado um jaleco de pano branco da fábrica, o qual cairia bem demais na pessoa do Marcos para fantasiá-lo de médico, pois os peculiares sapatos e calça branca de sambista ele já estava usando. Meu plano, em primeira instância, era eu mesma me vestir de enfermeira a fim de conduzir minha amiga para fora do hospital, contudo, já que um homem me acompanhava, vestido de médico ele imporia mais autoridade para o plano dar certo. Lembrando depois de tantos anos, atino que o plano tinha tudo para falhar com um rapazola ridículo vestido de médico. Mesmo assim, deu certo. Eu fiquei na portaria segurando o cavaquinho, enquanto a nossa caricatura de médico se embrenhava pelos corredores do hospital à cata da Maria. Em dez minutos aparece um guarda e um enfermeiro arrastando para fora o tonto do Marcos que, em vez de se explicar, gaguejava. Percebendo que o iam levar para o distrito policial, eu me pronunciei em seu auxílio: “Pega leve, pessoal! Nós só viemos buscar uma amiga, porque vocês parecem ter esquecido ela perdida aí dentro.”. O enfermeiro perguntou de quem se tratava; eu disse que era a mulher da tentativa de suicídio lá no Estácio. Nisso, o enfermeiro se exaltou de certa forma aliviado: “Ah!, a Maria Fumaça, aquilo não é mulher... é mais macho que eu! Ateou fogo na cama gritando que estava perdida no mundo, e precisou de cinco homens para impedi-la de incendiar o prédio inteiro. Pensamos que era caso de manicômio, já íamos chamar o pessoal da Praia Vermelha, mas, se vocês se responsabilizam, podem levar por favor.”
Na rua, já livre das ataduras que a prendiam, Maria Fumaça em altos brados desembestou a metralhar contra o hospital sua coleção de palavrões, o que chegaria a levar o resto do século XX se não fosse a intervenção de Marcos Cavaquinho convidando-nos para ir ao Cabaré Apolo, onde ele deveria se apresentar em alguns números musicais naquele dia: “Você vai ouvir a sua canção em primeira audição!”, disse-me. De onde estávamos até a Lapa era um bocado de chão; na celeste abóbada, a Lua havia usurpado o trono do Sol; assim, tomamos um bonde rumo ao nosso destino; desta vez, sem calote, o Marcos pagou.
O cabaré estava lotado, Benedito Lacerda se apresentava, casais dançavam no salão, nós estávamos chegando atrasados mas o povo alegre nem reparou. Em breve, silenciada a flauta do outro, Marcos Cavaquinho subiu no tablado e me dedicou uma toada assim:

Antônia, linda menina
Da brasileira nação,
Reluz de tanta alegria
Que tem no seu coração.

Ai ai, ai ai...
É doce a minha paixão!

Eu tive a felicidade
De vir no Estácio morar,
Pois nessa grande cidade
De Antônia é o lugar.

Que o sentir que aflorou
Em minha alma persista,
Pois sei que se confirmou
Em nossa primeira vista.

Decreto agora uma lei
Que vale só para mim:
Eu esquecer nunca hei
Sua ternura sem fim.

Ai ai, ai ai...
É doce a minha paixão!

Foram os únicos versos que alguém me dedicou. Coitadinha de mim? De modo algum. Cada qual dá o que pode: Marcos deu-me versos pueris, meu marido deu-me austeridade; aos dois dou minha saudade.
Escutando a toada, Maria Fumaça deu muitas risadas só mesmo compreencíveis para quem compreendia a perversão ímpar de sua mente. Ao final das apresentações todas, ela propôs: “Agora vamos cair no Mangue, é minha vez de cantar!”. “Como assim?”, admirou-se o Marcos, “Na zona de prostituição, as únicas mulheres que entram são as putas.”. “Toda mulher é um pouco puta.”, concluiu Maria Fumaça, e eu emendei: “Toda mulher é, menos eu e você, ora essa...”. Todavia, fomos: “Eu quero ver o Marcos comer alguém.”, intimou Maria Fumaça.
Na minha companhia, Marcos não teve coragem de catar uma prostituta; porém, numa das casinhas do Mangue, acompanhou ao cavaquinho a paródia da sua própria toada cantada por Maria Fumaça, uma coisa meio besta e pervertida bem ao talhe dela. Tento, e o pior é que consigo reconstituir de memória a maldita paródia pertinente à minha própria pessoa:

Antônia era do norte
Do interior do sertão;
Vivia sempre alegre
No meio da amplidão.

Ai ai... ai ai,
Aquilo que era bão!

Um dia esta menina
Desatou a lamentar
Queria ver a cidade,
E foi pro Rio morar.

Faz hoje um mês que a Antônia
Conheceu o João Leitão
No morro lá do Alambique,
E viu o que era bão.

Antônia toda acanhada
Entrou no seu barracão;
No meio da madrugada...
Antônia deu pro Leitão!

Ai ai... ai ai,
Aquilo que era bão!

Foi assim a feliz saída de Maria Fumaça do hospital, sobrevivendo ao suicídio por ingestão de potassa, quase indo parar no hospício da Praia Vermelha, e varando a madrugada na zona do baixo meretrício.
Glamourosa Maria Fumaça!

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sábado, 1 de maio de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 2





MARIA FUMAÇA


CAPÍTULO II
Maria Fumaça vai à luta;
o jogo-do-bicho, o conflito,
o veneno.




Maria Fumaça começou a ganhar a vida honestamente, na contravenção. Cuidava de um ponto do jogo-do-bicho numa vizinhança próxima ao Estácio. Isto até o dono do ponto descobrir que ela era do sexo feminino, pois esse detalhe em sua anatomia extra-terrestre não era uma coisa muito óbvia. Ficava sentada ao rés do morro do Valongo com o cachimbo apagado sempre na boca, de boné, calça de homem e um paletó ensebado, exatamente onde ainda hoje fica o ponto do bicho do bairro da Saúde, exatamente alí: quem disse que só inglês gosta de tradição?
Este primeiro e último emprego decente da minha amiga durou pouco, duas ou três semanas talvez; eu já trabalhava numa fábrica de tecido, mal lembro como foi; só sei que não tem nada de mais uma mulher recolher as apostas dum jogo tão inocente, mas o bicheiro achava que pegava mal junto à concorrência, os outros bicheiros poderiam zombar dele, achar que estava afrouxando: “Não, não pode ser, nunca... jamais! Quem foi que disse que a fuleira da Maria Fumaça trabalha pra mim?”, teria dito. “Mas, chefe, ela ganhou a simpatia dos apostadores. Parece homem, mas é mulher, agrada a gregos e troianos.”
É, o chefe nem era grego nem troiano, Maria Fumaça nem era homem nem mulher, anulava-se na sociedade, teria que voltar à sua criminosa vida pregressa: o furto de galinhas. Enlouqueceu, achava ridículo o modo de ser das mulheres, eram todas “putas vaidosas” que se vestiam como um embrulho de presente e se pintavam feito palhaço; por outro lado, ela nascera fêmea e nunca seria um homem ou mais que um corpo estranho na sociedade. “Antônia, o que sou eu?!”, perguntava-me; e eu, sem encontrar resposta melhor, dizia-lhe: “Você é a Maria Fumaça.”
Creio que foi por essa época que sua mãe morreu cuspindo os bofes, a tuberculose matava a doidado. Minha pobre amiga ficou sozinha no mundo; se é que aquela figura mitológica tinha pai, nós nunca o vimos. Sem conseguir emprego em lugar algum, pediu-me dinheiro emprestado; depois fiquei sabendo que comprou potassa e bebeu. Bebeu um gole insignificante de uma solução muito diluída, e fez um escândalo; arrombou a porta da casa, rolou pela escada que dava acesso à rua, e saiu aos berros se contorcendo com os olhos esbugalhados. No meio do percurso, aproveitou para se vingar de alguns de seus numerosos desafetos quebrando vidraças, chutando cachorros, distribuindo cascudos na molecada, e finalmente passando uma rasteira no guarda-civil Godofredo Gomeleira, seu inimigo número um e, na verdade, um fariseu por demais sacana, embora seu vigário o tivesse em alta conta chamando-o de “Santo Homem”.
Encontrada moribunda, minha amiga foi internada no Hospital São Francisco Xavier. A desgraçada era uma praga até para morrer.
O bairro inteiro ficou sabendo. Muita gente quis ir visitá-la no hospital, menos por compaixão do que pela ansiosa e frustrada expectativa de ver o tão conveniente fim de Maria Fumaça.

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