sexta-feira, 30 de abril de 2010

MARIA FUMAÇA - cap. 1





MARIA FUMAÇA



Dez vezes por dia
A delegacia
Mandava um soldado
Prender a Maria.
Mas, quando se via
Na frente do praça,
Maria sumia
Tal qual a fumaça.

Noël Rosa




CAPÍTULO I
Os primórdios de Maria Fumaça;
sua formação religiosa, moral
e acadêmica.


Eu devo inicialmente advertir que o testemunho que vou dar não serve de exemplo para ninguém, sobre tudo para as moças de família casadoiras e bem comportadas que estão no bom caminho da vida, pois assim é que deve ser: meninas!, este livro não é para vocês. Todavia, se quiserem ler, bem, o aviso está dado...
Foi entre os anos de 1922 e 1944 a história meio maluca, saudosa... e besta que venho aqui dar fé.
Parece estranho que uma mulher feliz no casamento como eu, já viúva com netos e bisnetos, tenha para contar um relato tão contrastante com a minha atual situação social. Mas a verdade é que eu fui amiga da lendária e extravagante Maria Fumaça, a primeira e única soberana da ralé carioca desde que apareceu no mapa a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Apesar de confidente e amiga de infância da desgraçada, eu nunca soube o seu verdadeiro sobrenome; creio que nem ela sabia; mas, também, o que isso importava?, na abundante miséria em que crescemos, sobrenome é que não enchia a barriga de ninguém mesmo. Tudo bem, ficou sendo a Maria Fumaça; não por hereditariedade, mas por aclamação popular! Um dia, ainda menina novinha, foi à Macumba; achou elegante a mania de preto-velho pitar no cachimbo, e na manhã seguinte já estava fumando no meio da molecada, que legitimou e outorgou-lhe o apelido. Nisto limitou-se a religiosidade de minha amiga: ter o nome da mãe de Cristo, e fumar cachimbo, religiosamente.
Maria Fumaça, qual diz o poeta, nasceu no Estácio, foi educada na roda de bamba, e foi diplomada na escola de samba; ou melhor, era analfabeta de pai e mãe, porém mui versada e erudita nas artes da gíria, da batucada, e do palavrão. É certo que ela nunca se casaria nem teria homem algum, mas gostava dos meninos, inclusive gostava de se parecer com eles. Eu, dois anos mais nova, ia atrás das suas molecagens e às vezes me dava mal. No futebol, por exemplo. Não que a gente jogasse, mas lá vinha ela me chamando: “Antônia!, tá tendo jogo! Vem comigo ver a rapaziada, e olha que eu tô levando um xerez de primeira classe.” E balançava o garrafão de vinho barato ao pé da minha janela. Eu não resistia. No campo, entre um lance e outro, Maria Fumaça conseguia acompanhar a bola com os olhos enquanto entretinha seu refinadíssimo paladar alternando bicadas no cachimbo de macumba e longos tragos no garrafão; olhava para mim com ar superior, e se deleitava: “Ah... esta merda de goró tá bão pra caralho!” E eu, achando o “caralho” na boca da companheira a palavra de maior sonoridade e mais elevada erudição de nosso idioma, concordava bebendo também; depois, vomitava tudo em apenas quatro ou cinco goles. A danada da Maria, contudo, nem se abalava; bebia o garrafão todo praticamente sozinha, e ainda voltava para casa me gozando: “Ânimo, ânimo! Sai, capeta! Ressuscita, defunta! Futebol é pra homem!” Até hoje não entendo por que ela gostava de dizer que futebol era para homem... nós nem jogávamos, nem muito menos éramos homens... vai ver que gostou do jeito de alguém dizer a frase, só pode ser. Maria Fumaça reverenciava a irreverência e o modo rude dos machões das cercanias; não é por falar mal, mas sempre foi meio maluca e besta desde a infância, foi a melhor amiga que eu poderia ter.
Com episódios semelhantes ao citado, fomos crescendo. Bom era roubar galinha, costume que Maria Fumaça manteria para o resto da vida a fim de subsistir. Eu, que modéstia à parte era bonitinha, ia ao açougue fazendo beicinho e pedia um osso, dizendo que era para minha mãe fazer sopa, porque não tinha dinheiro para comprar carne. O açougueiro, um piedoso otário, dava o osso; aí era só jogá-lo num quintal que tivesse galinheiro, e enquanto o cão (galinhas implicavam em cão-de-guarda), enquanto o cachorro se distraía com o osso, Maria Fumaça catava uma galinha e “se pirava”! O jantar estava garantido. A mãe dela não questionava a procedência da galinha: era comida?, valia.
Uma noite, depois de jantar a galinha, minha colega teve uma maquinação de ousada pirraça. Juntou meticulosamente todos os ossinhos da ave, e os embrulhou em papel para, no dia seguinte, fazermos a entrega da “encomenda”. Logo com os primeiros clarões da matina voltamos à casa do furto, e chamamos por alguém; veio nos atender uma velha de fisionomia plácida e risonha: “Que foi tão cedo?, meus anjinhos.” E a Maria: “Encontramos uma galinha que pertence à senhora. Desculpe se não soubemos cuidar muito bem dela. Sabe?, emagreceu um pouco.” A velha foi abrindo o pacote, enquanto nós fizemos carreira rumo à esquina; lá chegando, ouvimos a bondosa anciã mostrar todo o seu entusiasmo: “Pega! É a Maria Fumaça, filha da puta!” Para nosso desespero, avistamos um soldado de polícia que vivia encrencando conosco, mas, por alívio, conseguimos bongar um bonde que passava somente mesmo pelas mãos da Divina Providência; nele encontramos o simpático sambista Ismael. “Pra onde vamos, compadre?”, perguntou-lhe Maria. “Moçoilas do meu coração, então vocês me sobem aqui sem saber aonde vão? Cuidado, olho no condutor! Estou sem tostão furado, nem pra mim posso pagar, vamos dar o calote. Na encolha, meninas, na encolha...”.
Ismael ia para o Ponto de 100 Réis, no boulevard de Vila Izabel; fomos também. A caminho, driblando o cobrador, eu confidenciei a Maria que meu sonho era casar-me com um sujeito legal como o Ismael; ela chacoalhou a cabeça decepcionada, e, tirando o cachimbo da boca, apunhalou: “Amor sem tostão não vira. Esse cara nem tem pra limpar o fiofó.” Ela estava correta, eu é que jamais iria refutar sua suprema sabedoria, mas: “Quem inventou o bonde elétrico deve ser bacana.” “Vai tomá banho!, isto aqui parece uma carroça. Bacana é quem inventou o avião, que passa por cima de todo o mundo...” A maluca estava com idéia fixa por aeroplanos; disse que só se casaria se fosse com o Santos Dumont.
“Cacete, olha, o veado do condutor tá vindo!” Resolvemos descer num botequim, Ismael desceu junto, era o Ponto de 100 Réis. O jovem Noël Rosa estava lá, degustando uma cerveja Cascatinha, e, vendo chegar o amigo com a dupla de cabrochas do Estácio de Sá, empolgou-se: “Como é, pessoal? Vamos fazer uma batucada?”. “Vamos, mas cadê pandeiro?”, eu perguntei. “Pandeiro nada, lata véia tá aí de sobra.”, disse Maria Fumaça apontando com o cachimbo para um lixo amontoado na rua. Ismael concordou: “Isso mesmo!, vamos fazer uma batucada de lata velha.” E alguém entoou: “Já que não temos pandeiro”... era o nascimento de um samba. Noël improvisou uma quadra sem tirar seus olhos da Maria:

“Ando bem desinfetado
Só porque, minha menina,
O meu tamborim foi feito
De lata de creolina.”

Ao fim da batucada, Maria Fumaça elogiou estes versos, por assim dizer, a ela dedicados; porém, advertiu que bamba de verdade era o Alberto Santos Dumont, inventor do avião. Noël retrucou que seu pai também era inventor, “fez uma bicicleta que anda na água”. Maria foi curta e grossa: “Quero ver é fazer uma bicicleta que ande no céu.”. “Você é uma personagem de samba!”, sentenciou sorrindo o Poeta da Vila.
Já não éramos mais crianças.

.