quinta-feira, 11 de março de 2010

j'ai fame


J'AI FAME!


Quando eu era estudante secundário (ensino médio, rapeize) na grande capital paulista, eu tinha a ingenuidade de não saber nada e pensar que sabia tudo, ou quase tudo.

Eu sabia que, sabendo ler e sabendo as quatro operações matemáticas, eu poderia aprender qualquer coisa por conta própria, sendo auto-didata: então o essencial eu já sabia. Ah, e sabia também que Isaac Newton criara o Céu e a Terra.

Eu cabulava aula no Sebo do Messias, uma enorme loja de livros usados do centro velho paulistano. Apesar de os livros serem muito baratos, só às vezes eu comprava algum; via de regra, eu ficava a manhã inteira lendo lá mesmo até dar a hora de volver a casa, onde minha avó esperava o estudante exemplar que acordava às 5:30h da alvorada, e ia a pé da Rua Frei Rolim, na Saúde, até a Estação Santa Cruz em Vila Mariana, todos os dias sem falta. Eu respeitava a velha. Quando meu pai foi aprovado na 4ªsérie, minha avó lhe fez um exame com toda a matéria do ano, no qual ele não passou; aí, ela matriculou o coitado de novo na 4ªsérie; foi escutando essa história que eu tive a primeira noção do conceito de: FODER-SE.

Não sei como é hoje, mas, naquela década de 90, os professores apenas regorgitavam o que estava nos livros didáticos; já disse que sabia ler, então, lia em casa, e ia ao sebo ler outras coisas: ora, eu só tinha 16 anos e queria saber como era o Mundo antes de ter a idade suficiente para tal propósito.

Um dos livros que manusiei intitulava-se "J'ai fame!" - "Eu tenho fome!" - não tive vontade de ler, comia bem em casa de vovó, mas isso nunca mais me saiu da cabeça.

Em 1994, ingressei no curso de Astronomia da UFRJ, e logo em seguida parti para Ouro Preto, a fim de estudar Engenharia de Minas, por sugestão de minha sábia irmã.

Passei 45 dias numa república federal da UFOP comendo somente pão-com-manteiga e café puro, até conseguir emprego nos refeitórios da universidade, onde o salário era a refeição.

Em geral, a fauna republicana gastava o dinheiro que seus responsáveis lhes mandavam com coisas fúteis e pouco estudo.

Freqüentava a república um escultor de nome Frank: mulato de olho azul e magérrimo, cheirava mal também. Logo descobri que seu nome verdadeiro era Ismael Marcelino, natural de Anápolis, uma cidade de Goiás, e que tinha olhos azuis porque sua mãe também os tinha, sendo alvíssima, enquanto seu pai era um afro-descendente do tipo creoullo tição. Chamavam-no de Frank porque o achavam deveras feio.

Desde que soube seu verdadeiro nome, eu só chamava-o por Ismael, e ele sempre queria conversar comigo porque eu tenho a pachorra de ouvir as pessoas - que nem puta de cabaré -, ao passo que os republicanos já tinham começado a menosprezar o Ismael depois que se cansaram de sua figura cadavérica.

Até que, numa noite, eu fiquei trancado para fora da república, e ninguém quis abrir a porta. Ismael estava comigo, e me ofereceu abrigo na sua casa. Chegando lá, não havia móveis na casa, só um sofá, um fogão e um guarda-comida, em que encontramos um pouco de farinha de mandioca e um único ovo. Como nós não tínhamos jantado, ele fez o ovo mexido com a farinha e colocou em dois pratos rasos, pouquíssima comida. Para minha surpresa, Ismael ainda me deu o prato com mais comida.

Passados alguns meses, eu voltava da aula quando encontrei o Ismael sentadinho todo encolhido na soleira duma farmácia. Nós conversamos amenidades, disse-me que estava tomando um pouco de sol...

Só hoje eu percebo. Careceram se passar 15 anos de ingenuidade para eu perceber: Ismael estava doente, na porta da farmácia em postura mendicante, mas sua hombredade lhe embargava a voz para dizer: "Amigo, me ajude com a conta do remédio?" ou talvez "J'ai fame!".

Marcos Satoru Kawanami

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17 comentários :

tonhOliveira disse...



E agora...

Ficção ou realidade?

Que importa, já chorei mesmo...

Tu és um homem BOMnito!

:)

Adriana Godoy disse...

Muito me emocionou esse texto. Até chorei.
Se é realidade ou ficção não me importa. Sei que é um ótimo texto.

Quantos Franks não exitem por aí?

beijo.

Marcos Satoru Kawanami disse...

Adriana e Tonho,

é tudo verdade.

BAR DO BARDO disse...

Um pândego que tem caráter.
Tragédia bem contada.

Fala de educação, né? Ei, mas o professor aqui é tu.

nina rizzi disse...

marcos, eu adoro reminiscências. no meu caso não tinha pão, nem cafè: era mate e cream cracker.

bijo.

Cáh Morandi disse...

"quando eu era..." isto é tão recente e tão longe.

Mirse Maria disse...

Nossa, Marcos!

Quanta coisa bonita há em você. Conheço a Ufop e o frio que faz por lá.

Uma estória de colocar no Paz e Bem!

Mas acho que ainda falya muita coisa!

O sofgrimento enobrece.

Beijos, amigo!

Mirse

Viiii disse...

Linda história, de fato traz dúzias de reflexões. Quantas vezes por diversos motivos deixamos de perceber coisas óbvias? E como certas coisas depois de um tempo passam a significar tanto para nós...
Parabéns

Mile Corrêa disse...

Poxa, que triste, Marcos! =/
O que aconteceu com Ismael
depois disso?
Muito bem contada a história!
Quando eu crescer quero
escrever que nem você! rs

:*

Sissym disse...

Olá! Através da Viiiiii que lhe presenteou com um selo, vim lhe conhecer. Adorei o que li. Parabens!

Sylvio de Alencar. disse...

Frequentava esse sebo.
Fui para Ouro Preto estudar Geologia (desisti).
Ismael poderia ter pedido...
Ingenuidade é foda...
Texto bom de se ler.
Abrçs.

Gabriela disse...

Emocionante sem frescura.

Marguerita disse...

Fiquei com a boca seca lendo a história... quase perguntei se era verdade, mas, vi tua resposta ali em cima.
Nunca mais soube notícias dele?


Enfim,
abraço.

Fátima disse...

Já nos deparamos com muitos "Ismael" em nossa vida e nem sempre o identificamos.
Gostei muito e me emocionei também, vamos nos atentar mais ao que nos cerca.

Tenha uma linda noite de sonhos.

CHRISTINA MONTENEGRO disse...

Que bom que (em plena obra, que me impede de usar computador normalmente) consegui vir aqui; cheguei na hora certa!...
O mais curioso, é que sempre que chego aqui acho que cheguei na hora certa... rsrsrsrs
PARABÉNS! Beijos! (Já já tudo volta ao normal).

Sylvio de Alencar. disse...

Ô Marcos
Essas duas poesias:
À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA
Por Que o Mundo Existe?
Muito legais!
Quanto à primeira, umas palavras: hoje, através do(s) livro(s) Conversando Com Deus, e, Fazendo Uma Amizade Com Deus, vi que, na real, Ele quer é se Amigo mesmo. E dá boas razões para preferir ter esse tipo de relacionamento conosco.

Abrçs.

Soneca disse...

Uh, isso foi profundo.

Engraçado e profundo, devo dizer.

Você tem esse dom de fazer rir e chorar num mesmo parágrafo.

Fazer o quê né?!

Inté

ps: Sorte aos Franks do mundo...