domingo, 28 de fevereiro de 2010







JUANA VÊ

"Meus olhos vêem tudo, mas nada compreendem."
Juana Santos Carvalho







Eu vejo tudo, e não compreendo nada
do que ao redor de mim se vai movendo;
meu pensamento tem sempre o adendo
socrático que assumo, conformada.

Num corpo de mulher fui adequada,
e desde que nasci estou morrendo;
mas alma livre sou, e vou querendo
os ledos sonhos dos contos de fada.

Está em toda parte o bom mistério
sagrado que compõe a Criação,
decifrá-lo não cabe ao meu olhar.

Pois sigo um firme e racional critério
decantado em humilde coração:
eu vejo tudo, para tudo amar.

Marcos Satoru Kawanami

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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010











Jacó e Raquel


“Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela”
(Camões)





Sete anos pondo fé Jacó bebia
cachaça por Raquel, caipira bela;
mas não bebia só, e sim com ela,
porquanto embriagá-la pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava contentado na esparrela;
porém a moça, usando de cautela,
jamais se embriagava, só fingia.

Vendo o pinguço, assim, que com enganos
sempre escapava sóbria a sedutora,
pudicamente e nada doidivana,

despenca-se a beber outros sete anos,
dizendo: —Mais bebera se não fôra
para tão grande amor tão pouca cana!

Marcos Satoru Kawanami
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sábado, 20 de fevereiro de 2010



NONSENSE 5



ô mania feia essa! o mesmo grupo do colarinho branco e engravatado que hoje assalta os cofres públicos em que o cidadão deposita seus impostos foi, no passado, o grupo revolucionário armado que assaltava os bancos onde o cidadão poupava o que sobrava do pagamento de seus impostos.


(Clodovil) -- só de pensar na morte, eu me mijo.
(Clóvis Bornay) -- eu me cago.
C. -- eu não morro nem mooorrrta, santa!
B. -- é, morta é que tu não morre mesmo...
C. -- e se inventarem de me cremar?
B. -- pra ocupar menos espaço?
C. -- tá maluca?
B. -- ah, mas nunca te falaram que tu é espaçosa?
C. -- só me cremam por cima do meu cadáver!
B. -- eu hein? a tua fama era de inteligente; só porque eu sou farinheiro, resolveu falar merda?
C. -- hoje você tá só o pó.
B. -- redenta est, terra terrae.
aí, apareceu no cemitério o Ronaldo Esper procurando dois vasos pra decorar seu atelier, e eu tive que ajudar o cara porque somos da mesma paróquia e ele é amigo da minha avó. nisso, tomaram um puta susto, e se pirulitaram as almas penadas do Clóvis Bornay e do Clô, para os íntimos.
caraca, meu, confidenciei pro tio Esper, as pior alma são as que pensa que estão viva...
"e os piores vivos são os que não vivem." - arrazoou (ou seria arrasou? ou zoou?) tio Esper.


faça tudo que puder na vida. inclusive limpar a caixa-de-gordura, engraxar os sapatos, e deitar rosas brancas no túmulo do teu primeiro amor adolescente, e jamais correspondido.


Dra. Erika Hist Érica
(proctologista e relações públicas freelancer do Senado Federal)
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illustration from the site: http://www.impawards.com

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010



RÉPLICA A CAMÕES


Alma minha gentil, qual hei deixado,
quiçá mesmo em favor da Humanidade
que hora ganha a lusa celebridade
das armas e barões assinalados;

se cá pra onde subi contrariada
memória da outra vida se consente
nunca me esquecerei do ódio ardente
às rimas pelas quais fui eu trocada.

E se vires que pode merecer-te
qualquer migalha de ira —que sobrou—
cuida que obrando estou por socorrer-te

rogando ao que meus anos encurtou
que tão cedo Amor venha a abater-te
quão cedo em meu soçobro soçobrou.

Marcos Satoru Kawanami

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ilustração do blog: http://poemasaflordapele.ning.com

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Eh, Tosquera!

A unha é coisa tosca, casco humano
que as mulheres ocultam sob o esmalte;
mas ai de quem a unha se lhe falte
nos afazeres do quotidiano.

Joelho, tosco vinco soberano
até nas damas de subido malte
cujo donaire à vista sempre salte
nas fotos peladonas, ou... sem pano.

Pênis, pois é, aquela coisa ali;
há quem “caia de anel” por ele e tudo;
mas, ao pinto, eu prefiro o bem-te-vi...

Encerro no coisico mais toscudo:
prezado por quem tem cabeça oca,
franzido, fedorento, fim da boca?

Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010



SONETO DE NASALIDADE

a Vinicius de Moraes

De tudo ao meu nariz serei atento;
e tanto e pouco e no jamais e antes,
que mesmo em face de dois elefantes
mais cause minha tromba alumbramento.

Por ele hei de viver sempre asmático
de assoar minha alma, e escarrar sua escória;
enamorado e não menos pneumático...
da sublime função respiratória.

E assim, quando mais tarde me procure
quiçá o vexame, angústia de quem vive,
quiçá a rinite, conforme Deus mande;

possa eu me dizer do nariz (que tive):
que não seja imoral, inda que grande,
mas que seja aquilino, e não pendure.

Marcos Satoru Kawanami

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ilustração do site: http://portaldoprofessor.mec.gov.br

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

NONSENSE 4
Aconteceu comigo (3)

Eu nao tinha o que comer. Fui na venda da esquina e comprei uma lata de ervilhas. Resolvi fazer uma bela 'salada' com champignon, porém era muito caro, entao decidi que iria em algum pasto procurar alguns, pois ouvi uma conversa aí que cogumelos de pasto eram melhores que
champignon. Andei por cerca de meia hora, até encontrar um belo pasto. Pulei a cerca, escolhi alguns, fui pra floresta e lá preparei meu almoço, ervilhas com cogumelo. Nao foi uma refeiçao tao saborosa, eu admito, mas depois de um tempo comecei a me sentir muito bem. Reparei entao, que a luz do sol que passava pelas arvores era muito brilhante, o verde das folhas era muito verde, e uns tocos de arvore pareciam se mexer. Espere, eles se mexiam sim. Vinham na minha direçao e sabiam o meu nome. E tinham gorros, gorros muito coloridos. Ficavam falando em uma lingua estranha e gesticulando sem parar com suas pequenas maozinhas rechonchudas. Depois de um tempo notei que nao eram tocos de arvore, e sim esquilos. Fiquei parado por muito tempo, provavelmente de boca aberta, observando os esquilos de gorrinho discutirem. Um deles olhou pra mim e chamou pelo meu nome. Voltei do meu estado nirvanico e respondi.
Segui os esquilos por um tempo, até eles pararem diante de uma arvore enorme. Me deram uma semente , falando em uma lingua que eu nao entendia e gesticulando sem parar. Comi a tal semente e fiquei um pouco tonto. Entao, nao sei bem como, eles me enfiaram dentro da arvore e de repente eu estava em um novo mundo de cores vivas. Segui os esquilos , que pararam em frente a uma porta e chamaram alguem. Outro esquilo surgiu, e eles começaram a conversar. Notei entao que nao eram esquilos, e sim gnomos.
Comecei a compreender o que eles falavam, e logo estava conversando tambem. Fomos a um campo, onde muitos gnomos convers
avam e admiravam a natureza. Havia rios com agua fresca, e cogumelos brotavam do chao como flores. Sentamos, começamos a conversar.
Compreendi o sentido de tudo, senti que a natureza me amava, assim como um cão ama cheirar a bunda de outro cao. Jogamos futebol, eu fui no gol. Bebemos chás e chopp, comemos miliopã e frango empanado. Eu adoro frango empanado. Minha vida estava tao boa, que me acostumei à vida gnomatizada e fiquei lá por meses, anos, seila. Um dia, como bom cidadão gnomatiense, fui enviado
à minha dimensao antiga para pregar tudo que aprendi, vivi e senti nesse longo tempo de gnomo-aprendizagem. Eu trago uma semente, a semente do amor. Meu nome é Barack Obama, e eu sou o ganhador do Premio Nobel da Paz.



postado por VERO, no blog: http://naumdigo.blogspot.com
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