domingo, 17 de janeiro de 2010



LIRA I


Eu nasci banguelo e feio
Qual todo o mundo nasceu.
Logo logo a bossa veio,
Mas o resto se perdeu...

Deu-me ao tino escrevinhar
Para aliviar a dor
De faltar-me o verbo amar
Ou razão para o amor.

Deu-me ao tino escrevinhar
Sem cautela ou paciência
Para poder suportar
A minha insossa existência.

Deu-me ao tino escrevinhar
A fim de zombar do mundo;
Quanto mais eu fiz zombar,
Fui zombado: “vagabundo”!

Eu nasci banguelo e feio,
Já disse, é natural.
Mas muito canhestro, eu creio,
Foi meu vácuo cerebral.

Dessa carência neural
Veio talvez meu pendor
Que me faz escrever mal,
E fiz-me escrevinhador!

Marcos Satoru Kawanami

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