quinta-feira, 28 de janeiro de 2010



SONETO AO LUAR

para Ludwig van Beethoven

Eu lembro..., a tarde já desfalecia
quando a graça invadiu-me toda a mente,
e eu fiz-me mais dorido, mais carente
ao saber que pra sempre amá-la-ia.

Em chão sagrado tu me aparecias
deixando-me mais triste, mas contente,
numa estranha prantina sorridente
entre um Pai-Nosso e dez Ave-Marias.

Menina, parecias um menino?,
o que eu via era um anjo interior,
o qual timbrado está em teu destino.

E desse tão singelo modo foi-te
dado gratuitamente o meu amor
ao nascer da Lua, ao cair da noite.

Marcos Satoru Kawanami

.
ilustração do blog: http://infinitoparticulardalva.blogspot.com

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010



A COISA

à noiva morta de Alphonsus de Guimaraens

Coisa coisal, coisinha casual...
Coisona, que coisa mortal, que morte!
Enxoval de mortalha sepulcral
Ao léu, na Penumbra, da vida a Sorte...

Em brancas nuvens agora eternal,
Suspensa nos adocicados sons
Sem o peso das coisas do coisal...
Na harmonia veludosa dos bons.

Coisa angélica, gélida coisinha...
Absoluta coisona de um rapaz,
Meu choro cinza, triste Coisa minha...

Coisal esperança, aliança, paz!
Pertinentemente complementar,
Coisinha essencial ao pé do altar.

Marcos Satoru Kawanami

.
ilustração: The Somnambulist, óleo sobre tela de John Everett Millais (1871)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010



HAIKAIS CELESTES


Verão, sol a pino.
A nuvem repousa só
no torpor divino.

Mata escura, ao léu,
súbito um novo dilúvio.
Prantina do céu.

Em um céu só seu,
uma nuvem soberana
é rastro de Deus.

Marcos Satoru Kawanami


.

Ontem à tarde, você viu aquele baita nuvão roxo?

.
fonte da ilustração: http://eunaosoudaqui.wordpress.com

domingo, 17 de janeiro de 2010



LIRA I


Eu nasci banguelo e feio
Qual todo o mundo nasceu.
Logo logo a bossa veio,
Mas o resto se perdeu...

Deu-me ao tino escrevinhar
Para aliviar a dor
De faltar-me o verbo amar
Ou razão para o amor.

Deu-me ao tino escrevinhar
Sem cautela ou paciência
Para poder suportar
A minha insossa existência.

Deu-me ao tino escrevinhar
A fim de zombar do mundo;
Quanto mais eu fiz zombar,
Fui zombado: “vagabundo”!

Eu nasci banguelo e feio,
Já disse, é natural.
Mas muito canhestro, eu creio,
Foi meu vácuo cerebral.

Dessa carência neural
Veio talvez meu pendor
Que me faz escrever mal,
E fiz-me escrevinhador!

Marcos Satoru Kawanami

.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010



PURITANO DOIDO

(ficção total)

Eu sonho com o dia radiante
em que do amor teremos amizade
bastante por nos dar a liberdade
do feminil grilhão, vulgar bacante.

Porque nosso tormento lanscinante
é penar nas mãos da sexualidade,
coisa nojenta e suja, que em verdade
só embaralha do macho seu talante.

Confio no progresso da Ciência,
a qual in vitro já nos dá seleto
modo de procriar com abstinência.

Contudo, ainda do pênis ereto
sofremos a lascívia com freqüência
até que o bem broxemos por completo!

Marcos Satoru Kawanami

.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010


LENDA DO PERU

Contemplativo acerca da beleza
que lhe era própria, um dia, o Pavão
pensou: “Por que não alço os pés do chão,
e conquisto a cerúlea realeza?”.

Por ser ele incapaz de tal proeza,
lastimou do Destino a ingratidão
que ao Urubu, mais feio que um Dragão,
permitia voar por natureza.

Eis que então, num lampejo inteligente,
propôs ao Urubu, que voava à toa,
unir em matrimônio conveniente

seus filhos. Foi assim que da Pavoa
veio ao mundo o Peru, hibridamente;
que é feio pra dodói… e ainda não voa!

Marcos Satoru Kawanami
.