sábado, 26 de dezembro de 2009



OS PORTUGAS


CANTO I

(antes da ressurreição)

1
As armas e os barões atrapalhados,
Que da acidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes insultados,
Passaram muito além da mente insana
Em pegas-pra-capar desnorteados,
Mais do que os que estimula o rum-de-cana,
E entre gente mais torta edificaram
Novo Reino, que tanto avacalharam;

2
E também as piadas gloriosas
Dos Portugas que foram difamando
O bom-senso, e as terras viciosas
Do Brasil foram só bisbilhotando;
E aqueles que por obras desastrosas
Vivem da lei da morte se esquivando;
Sorrindo espalharei por toda parte
A desmesura em Vênus, Terra e Marte.

3
Cessem do nécio Gago e Paraíba
As confusões heróicas que aprontaram;
Cale-se de bombinha e de biriba
O furor da mamãe que provocaram,
Pois o portugo peito é sempre arriba,
De quem Neptuno e Marte assim zombaram:
Cesse tudo o que a Musa velha arrota,
Que furtivo é o peido que se nota.

4
E vós Sátiros lindos, pois criado
Tendes em mim um novo pervertido,
Se sempre em verso liso e bem safado
Celebrei vosso mato divertido,
Dai-me agora um som alto e perfumado,
Um estilo maldoso intrometido,
Por que, de vossas moitas, Febo diga
Que saiu assustada a Rapariga.

5
Dai-me uma pemba grande desejada,
E não um clarinete ou flauta ruda,
Mas a tuba canora avantajada,
Que ao peito ascende e a cor ao gesto muda;
Dai-me esse entusiasmo da gozada
Gente vossa, que ao Riso tanto ajuda;
Que se espalhe a pilhéria no universo,
Se tanto despautério cabe em verso.

6
Manuel Joaquim, herói da nossa gente,
Partiu de Portugal mui furibundo
Com o Destino, este indecente,
Que o confiou nas mãos do Velho Mundo;
E arribou no Brasil, todo contente,
A fim de mergulhar até o fundo
Num barril generoso de cachaça;
Vê-lo assim dava gosto, dava graça.

7
Depois de beber tal tonificante,
O portuga quedou-se a lamentar:
Queria ver Maria, sua amante;
Largado ao celibato do além-mar,
Encasquetou a idéia no talante
Que, no Brasil, preciso era casar;
Esteve por alguns dias inquieto,
Carecia escrever o analfabeto.

8
Então, para Maria enviou
Uma fosfórea caixa, em sinal
Do grande amor que sempre despertou
No seu portugo peito angelical
A boca desdentada que beijou
Numa moita dum bosque em Portugal;
Mas, dos fósforos não valeu nenhum,
Pois Manuel testara cada um.

9
Sequioso por ler a correspondência,
Manuel pedia a Pedro, mais letrado,
Que lesse em alta voz com diligência
As cartas que enviava o ente amado;
Em uma nobre mostra de demência,
Os ouvidos de Pedro eram tampados
Pelas mãos do portuga cauteloso
Em preservar o assunto sigiloso.

10
Maria de Oliveira Corrimão,
Desde sempre beata de carreira,
Levava sua bíblia na mão,
Levava sua vela na algibeira,
Deixava mui feliz o sacristão
Cuja cara luzia prazenteira;
Esta mulher, portuga exemplar,
Chorava o Manuel no além-mar.

11
Maria se aprazia em contemplar
Todos os santos feitos de madeira;
Gemia de fervor ao pé do altar,
Tamanha a sua fé tão verdadeira;
Deixava mesmo até de respirar
No momento da reza derradeira;
Pois é santa a portuga concubina,
Que agrada ao homem que não é sovina.

12
Com os pretos mostrava caridade;
Sem racismo, pintava-os de cal
Dando a todos a sua claridade;
Segurando a brocha pelo pau,
Conheceu uma sã maternidade,
E assim tão pura nunca se deu mal;
Entanto, Manuel ia sofrendo,
E na testa um ornato ia nascendo.

13
Manuel, sendo burro mas não besta,
Arranjou outro amor, e sem tardança
Fez o Pedro escrever uma funesta
Missiva, pondo cabo à esperança
Da Maria lograr pela fenestra
Penetrar no Brasil da maré-mansa;
A portuga, ficando em chão natal,
Lamentou ter nascido em Portugal.

14
Manuel se enfeitou e pôs gravata
Para ir ao encontro triunfal
Da musa que do samba é diplomata,
Que neste mundo não acha rival;
Ele se enrabichou pela Mulata,
Riu-se do sem-sabor de Portugal,
E três dias passou tirando e pondo;
O quê?, a bem dizer, é o que não sondo.

15
Por nossa estranha sina sobre a Terra,
Por tudo que acontece sem razão,
Aqui dá-se um milagre que aterra
Na vida do portuga bom varão:
De repente a Mulata um dia berra,
Notando que lhe cresce um barrigão;
Passados nove meses ansiosos,
Os papais se contentam de orgulhosos.

16
A fim de sustentar a farta prole
Que se seguiu depois do matrimônio
(Nota-se que a Mulata muito bole,
Esta obra divina e do demônio),
O Manuel deixou de corpo mole,
E teve que arrumar labor idôneo;
Fundou o brasileiro botequim:
Esta instituição nasceu assim.

17
Pra consolar Maria em Portugal,
Lamentando perder pra brasileira,
Manuel lhe enviava genial
Mistura de farinha bem caseira
Pra emprenhamento não convencional;
Maria prenhe, diz ele sem eira:
“Que coisa nova, que coisa epilética!
Caralhos, criei a Porra Sintética!”

18
Teve também um caso de exceção:
Afonsinho em Lisboa, viu seu pai
Jogando a um mendigo um só tostão;
Já chegando ao Brasil, deu muito mais,
E o menino, confuso da razão,
Pergunta: “Por que aqui tanto assim dais?”
Responde o pai, risonho e zombeteiro:
“Porque este, além de tudo, é brasileiro”.

19
Manuel nunca quis o casamento
Da filha com o velho Raoni;
Pois, exigiu do índio provimento
Além do que podia um guarani;
Havia de ter membro de jumento
Esta caricatura de Peri;
Sem vacilo, a resposta logo veio:
O índio ia mandar cortar no meio!

20
Da Mulata com nosso Manuel,
Ao mundo veio gente indefinida
Que eu não ouso pintar neste papel;
Do índio com a filha divertida
Dos, tenros qual jasmim, beiços de mel,
Nasceu robusta a raça prometida,
A raça malandrinha e fuxiqueira,
A raça da brava gente brasileira.

21
Depois veio a nascer Macunaíma,
O grande mal, a grande tempestade
Que se espreguiça e nunca sai de cima
De uma rede de luxo e de maldade;
E se seu pai louvado cabe em rima,
Deus salve a pena de Mário de Andrade
Que aos povos deu o povo em prosa e verso,
E aos novos deu um novo senso emerso.

22
Voltando ao Manuel, bom português,
Dou fé que um nobre amigo ele arranjou;
O amigo aqui chegou, fazia um mês,
Do distante Japão, e se casou
Feliz com uma doida o japonês;
Pouco custa antever o que passou:
História com portuga e nipolino
É um belo monumento ao desatino.

23
Tendo um filho, o japona quis um nome
Que cá servisse em plaga ocidental
Para o menino nunca passar fome
Ou carestia, ou mesmo passar mal
De diarréia, que tanto consome
O siso do malandro e do boçal;
Querendo batizar o rapazinho,
Foi atrás do portuga, seu vizinho.

24
No boteco, o portuga bonachão
Contemplava a poupança já capenga
Da tal Mulata amor de perdição,
Quando entrou o japona lenga-lenga
Atrás de um nome a dar ao seu varão,
E, sem saber, criou uma pendenga
Compreendendo torta a sua mente
O que disse o portuga simplesmente:

25
“Sugiro que o menino venha a ter
Um belo nome, qual Sebastião,
Vulgo: Tião, herói que há de volver
De Arábia com a glória da nação”;
E o nipolino, sem nada entender,
Deu, à palestra, sua conclusão:
“Sim, gostei do Sugiro, obrigado;
Assim vai se chamar este abestado”.

26
E quando o japonês ficou doente
Já morrendo na cama do hospital,
Dizia: “Soro... caba” falecente
Nos braços do portuga prantinal;
Até que em fim, sem mais e de repente,
Bate as botas o japona, de tão mal;
“Mas, o que foi?”, se assusta o enfermeiro
Chegando bem no instante derradeiro.

27
“Não sei; morreu assim este infeliz;
Apenas Sorocaba ele lembrava,
Urbe talvez de antiga cicatriz”;
Com cara mais atenta e muito brava,
Lamenta o enfermeiro todo gris:
“Pudera, Manuel, você pisava
Na borracha do soro glicosado:
O morto faleceu esfomeado!”

28
No enterro do japona, dá-se o cúmulo
Do orgulho, vaidade e despautério
Quando Manuel, junto ao val do túmulo,
Com voz grave discursa muito sério
E cai-lhe a dentadura de tão trêmulo
Naquela cova chã do cemitério,
Mas, altivo, inda diz num improviso:
“E... leva este meu último sorriso!”

29
Na saga valorosa do imigrante
Alemão, japonês e italiano,
A morte formidável é constante,
Como é constante o esforço sobre-humano
Por fazer que o portuga mais de adiante
Do ítalo, nipônico e germano;
E resta-lhe berrar feito uma anta:
“A minha lança é dura, e se alevanta!”


30
Mas, se todo cristão é português,
E Portugal é toda a cristandade,
E mesmo o bacalhau norueguês
Perde em fé pra portuga qualidade,
A escolha está a gosto do freguês:
Tem salame, toicinho e brevidade;
Tem gente, que fugindo do tridente,
Foi plantar cruz em cada continente.

31
Findo o Império, veio o preconceito
Para com o portuga bigodudo
Por parte dessa gente sem respeito
Que pensa ter brasão e poder tudo
Tão somente porque, digo sem jeito,
Parece que o portuga é orelhudo;
Abaixo ao preconceito, minha gente,
A quem se faz de cérebro carente.

32
Nem todo português se debilita
Diante do malandro tropical;
É o caso do portuga que arrebita
Arrebita arrebita o berimbal
Da Mulata que nunca facilita
Fazendo na avenida o Carnaval;
Salve o Moreira, o Souza, o Oliveira,
Coringas da folia brasileira!


33
Como é certo que um dia tudo finda
Neste planeta pleno de incerteza,
Vou dando cabo nesta história linda
Da raça enobrecida à fortaleza
De um caráter ereto, e mais ainda
Soberbo de façanha à portuguesa;
Pois eu vi quando tudo teve fim;
Foi numa noite, lá no botequim:

34
O turco Farid, grande cobrador,
Tinha brio por jamais se alienar
Do dinheiro, razão do seu amor
Todo feito de débito à cobrar,
E nesta noite quis ver o senhor
Davi, judeu ferrado a não pagar;
A dívida imensa do judeu
Foi razão que com tudo feneceu.

35
Armado de pistola, o turco disse
Ao judeu que de lá não sairia
Sem que a cor do dinheiro ele visse,
Sem saber que Davi se mataria
Para que assim a dívida sumisse
No pó que volta ao pó da sesmaria;
Porém, o turco tira o seu chapéu,
E vai cobrar a dívida no céu.

36
Mortos Farid e aquele fariseu,
Manuel, empolgado, os imita
Arrebentando à bala o crânio seu;
A Mulata lamenta e se agita
Com a frase que não compreendeu:
“Ora, pois, que não perco esta grita
Nem que esteja bem morto lá no céu!”
E o portuga morreu, assim, ao léu.

37
Morte gozada, morte um tanto besta
Esta morte portuga, lusitana;
Se eu pudesse, fazia uma reqüesta
Para ressuscitar a mente insana
Do Manuel, herói desta palestra,
Que é portuga, sambista e pé-de-cana;
Quero que Deus ao mundo ele nos mande
Para do mundo a Deus dar parte grande.



CANTO II

(a ressurreição)

1
Recolhendo os miolos espalhados
Pelo chão, a Mulata dedicada
Implorava o perdão dos seus pecados,
Alegando, bastante melindrada,
Sem querer terem sido praticados,
Pois a fé para ela era sagrada:
“Saravá, Santo Antônio de Lisboa!
Tem pena desta filha de Gamboa.”

2
“Pois que se sempre obrar foi minha sina
Pelo bem do Portuga, meu marido,
Por quem perdi as graças de menina,
Tendo meu lorto muito padecido,
Afasta-me, senhor, desta prantina,
Que hás de ficar contente e ressarcido;
E juro que se tal se assuceder,
Eu deixo o samba... eu deixo de beber.”

3
Santo Antônio bondoso, enternecido
Por tamanha, singela e pura fé
Da Mulata que sempre tem vivido
De dar tudo por um copo de mé,
Considerou ser justo e merecido
Seu interceder junto à Santa Sé;
Posto que uma figura assim lendária
Não merecia tal morte ordinária.

4
Manuel levantou, de um salto, são,
Exconjurando, fulo, Santo Antônio
Que não o deixou morto em paz no chão
Junto da companhia do Demônio
E suas diabinhas de plantão
Que se davam a ele em matrimônio;
O Manuel até no Purgatório
Tinha que ser portugo e ser notório.

5
Dona Mulata quis comemorar
A feliz, conjugal ressurreição;
Saiu com seu portuga pra jantar
Cheia de si, conforme a tradição
Muito afeita ao estilo popular
De fingir que jamais meteu a mão
Num prato de comida transbordante,
Fazendo-se de chique, de importante.

6
O portuga, que nunca em restaurante
Havia acomodado o seu traseiro,
Rebolou-se por dois ou três instantes
Qual se fosse em batalha um guerreiro
A perder a saúde e o talante
Entre a faca, o garfo e o saleiro;
Queria uma azeitona alfinetar,
Porém ela insistia em escapar.

7
Até que, com respeito, o garção
Disse: “Não é assim, caro senhor”,
E com habilidade e destra mão,
Fazendo o Manuel mudar de cor,
O fruto alfinetou no bandejão,
E em frente do portuga veio a por
Garfo com azeitona qual troféu
Dando afronta ao sisudo Manuel.

8
Mas o nosso herói não se amofinou;
De ar encheu o peito, juntou tino,
A Deus e ao mundo a alma encomendou,
E com tanto conluio assim divino
Que a lusitana gente auxiliou,
Safou-se do garção num desatino:
“Pegaste a azeitona, sim, bem vi,
Mas primeiro eu cansei-a para ti!”

9
Quanto espírito!, quanta inteligência
Vemos aqui na vida lusitana;
Que tato!, que sensata interjumência
Além do terrenal, além de humana
Concedeu-se por Deus com diligência
À raça que dobrou a Taprobana,
E entre gente remota construiu
O Império, a quem tanto divertiu.

10
Gigante, Adamastor é uma imagem
Símbolo da grandeza sem igual
Nascente da vontade e da coragem
Para vencer a mofa, porco mal
Oriundo da ignóbil vassalagem
Sofrida por quem vem de Portugal:
Adamastor, com garbo varonil,
Fez-se peão de obra no Brasil.

11
Eu, outro dia, lendo um bom jornal,
Me informei da atual situação
Em que vive a família em Portugal;
As mulheres evitam concepção
Com um costume casto e virginal:
Lá, varão só se deita com varão,
E o boiolismo agora é permitido
Com aval da moral e do marido.

12
Assim é o bravo povo belicoso
Que em Porto Cale fez-se florescer,
Que desde Lusitânia, chão formoso,
Se arrojou para o mundo submeter,
Cujo Império tão vasto e glorioso
Avistava primeiro o Sol nascer;
E, portanto, também para se amar
Eles põem as espadas pra brigar.

13
O valor português será lembrado
Mesmo que, para isto, em castidade,
Cujo voto é tanto celebrado,
Tenha eu que viver feito um abade
Rezador, penitente e respeitado
Pelas mulheres da boa-vontade;
Pois à vida voltou para ser grande
Nosso herói que faz rir por onde ande.



CANTO III

(haja paciência)

1
Estando, certa vez, no elevador,
Manuel observou gentil inglês
Que ao flato de uma jovem, com pudor,
Disse ter sido seu, sendo cortês;
Pois então adentrou lá no ascensor
Velha gorda a peidar sem timidez
E o Manuel: “Os peidos da velhinha
Que agora entrou, são todos culpa minha!”

2
Mas, pior foi no bonde certo dia
No tempo desta elétrica carroça;
Chovia muito, sim, como chovia!
E o bonde era aberto, que palhoça...
E o portuga sozinho lá seguia;
“Pois, troque de lugar, ora que troça!”
Mas vendo que não tinha mais ninguém:
“Trocar até queria..., mas com quem?”

3
Também logo chegando ao Brasil,
O primo do portuga padeceu
A gozação, galhofa, troças mil
Devido ao nome que seu pai lhe deu:
José Veado, que nome mais vil...
Pois, em cartório, outro recebeu
E por escolha própria foi chamado
Não mais José, porém Vasco Veado.

4
Bem, este primo teve um triste fim,
Mas digno de honrado lusitano;
Foi quando encendiou-se o botequim
E Vasco cometeu um ledo engano
Com o extintor que dizia assim:
“Cabeça para baixo contra o plano”;
Pobre Vasco acabou carbonizado
De pernas para o ar, muito esforçado.

5
Sem graça com a fama que lhe dava
Todo o povo de ser tonto e tapado,
Manuel, furibundo, matutava
Num jeito de ser bem considerado;
E, para tanto, pouco lhe faltava:
Era só estudar, ser mais letrado;
Um professor de lógica arrumou
Que ao Manuel assim o ilustrou:

6
“De lógica o mundo está formado,
De bom-senso é que a lógica se embasa;
Por exemplo, discípulo estimado,
Acaso você tem cachorro em casa?
Se tem, tem filhos; não é, pois, veado.”
Com este exemplo doido, esta vaza,
Claro que era portuga o professor;
Perdoa-me Jesus Nosso Senhor!

7
Mais doido ainda foi o que se deu
Quando o amigo Pedro perguntou
Sobre a lógica, “coisa de sandeu”,
Ao que o portuga logo secundou:
“Tem cachorro no doce lar de seu?”
E Pedro: “Não, com bicho não me dou”;
“Logo”, fez o portuga entusiasmado,
“És bicha, um boiola, um veado!”

8
Eis sutileza!, eis vigor mental
Peculiar à raça lusitana
Que há de ser interna de hospital
Dando a luz à Ciência Americana
Cujo amor se sublima a Portugal
Nas piadas gozadas tão sacanas
Deste bardo que em seu delírio canta
O portugo valor que se alevanta.

9
Este valor já vem de antiga data
Quando do Manuel um ancestral
Em uma expedição brava e sensata
Acabou bem, mas quase se deu mal
Procurando uma nova rota exata
Rumo à Índia submissa a Portugal;
E por causa de um vento mui cortês
O Brasil é um erro português.

10
Em vez de achar a Índia, o lusitano
Encontrou com as índias tropicais,
E no seu apetite tão profano
Aderiu aos costumes canibais
Abocanhando dez índias por ano
A se fartar até não poder mais;
E desta comilança doida acaba
Que o brasileiro tem um pé na Taba.

11
Dirigindo seu carro, embriagado,
Duma feita o Mané fez uma cena;
Tendo a polícia tanto atormentado,
Inda disse com voz a mais serena:
“Cachaça não me deixa embriagado.”
Pois, deu-se alteração na sua pena
Não mais de trinta dias no xadrez,
Porém, conforme é justo, só de um mês.

12
É posto Manuel com um leproso,
O qual na cela quer meter-lhe medo;
Eis que o pérfido, podre criminoso
Arranca e joga fora o próprio dedo;
Não dando o outro mostras de ansioso,
O vilão joga um braço já azedo,
Ao que o nosso herói solta gritos loucos:
“Ó pá, o gajo está fugindo aos poucos!”

13
Depois de conseguir a liberdade,
Muito mais aprontou o Manuel
Com o seu nobre estilo e dignidade
Tanto na Terra, bem como no Céu;
De modo que, por tal enormidade
De esculhambação, falta-me o papel,
E a vocês faltaria a paciência
Para saber de tanta interjumência.


CANTO IV
(ascenção e vida eterna)

1
Já velho assaz cansado da existência,
Desgostoso a beber ardida cana,
O Manuel em trôpega cadência
Saiu com um charuto dos de Havana
A devanear sem qualquer prudência,
Pisando numa casca de banana;
Mas, antes que ele caia, o tempo pausa;
O Olimpo delibera sobre a causa.

2
Do alto do seu trono soberano,
Zeus preside o concílio divinal
Inquirindo em tom grave, puritano,
Qual será desta história o final:
“Conheço o peito ilustre lusitano,
E conheço o valor de Portugal;
Como pode um herói morrer assim
Só de queda, qual um Mané Joaquim?”

3
Vênus, cheia de amor, pudica e casta,
Contemplando o portuga, amorosa,
Despe-se, fica nua, e se arrasta
Para Zeus a rogar-lhe mui chorosa:
“Meu senhor, elogio só não me basta;
Bem sei que vós me tendes por gostosa,
Mas eu quero de vós prova cabal
De amor por vossa gaja e Portugal.”

4
Mas Baco intrometido, cão danado,
Desvelando as orgias da menina
Deixa Zeus muito fulo e corneado;
Sendo, porém, safada e feminina,
Vênus ataca por um outro lado
Fazendo-se de frágil, com prantina,
Fazendo-se de santa, piedosa,
Constipa a voz e diz toda manhosa:

5
“Se Deus é brasileiro (por que não?),
Zeus haverá de ser de Portugal,
E neste honrado posto e condição
Tem por mister trazer à imortal
Acrópole de nosso Olimpo, então,
O bravo português de estirpe tal
Digno de receber também seu culto
Mítico de piadas de alto vulto.”

6
Um amante dos gestos grandiosos,
Zeus manda Baco ir catar coquinho;
Depois, sacolejando os generosos
Músculos colossais quais de moinho,
Solta estrondos de voz mais poderosos
Que um guri pirraçando seu vizinho:
“Eu ordeno que suba o Manuel
Para entrar nas comidas cá no Céu!”

7
E assim como ele está, com vista incerta,
Língua pra fora, mãos à rivelia,
Perna no ar, braguilha meio aberta,
Dá-se com Manuel dita magia
Deixando-o cabreiro, um tanto alerta,
Sem saber para onde é que ia;
Foi subindo, subindo sempre ao léu
Com charuto e cachaça rumo ao céu...

8
Assim é que ascendeu o nosso herói
Numa ascenção de glória triunfal
Ao Olimpo que o tempo não corrói;
Livrou-se do sepulcro e pá de cal,
Ninguém lhe ofende mais, nada mais dói,
Nem mais saudade tem de Portugal;
Pois agora está livre, está contente:
Manuel Joaquim, herói da nossa gente!


Nhandeara, 17 de março de 2001
Marcos Satoru Kawanami
.

16 comentários :

Lara Amaral disse...

hahaha...
Que genial poesia!

Quem disse que o Brasil não pode ter sua história contada assim? Para mim, tem tudo a ver com a gente.
Até às piadas já conhecidas vc deu um embasamento novo, uma contextualização muito criativa.

Parabéns, rapaz. Adorei mesmo! Pude rir, refletir, viajar nessa saga perfeita.

Grande abraço e bom ano novo para vc e sua família. =)

tonhOliveira disse...



Manu El Joaquim o grande !

Muito bom Marcos!

Abraços!

Caneta disse...

Como portuguesa e professora da mesma língua achei divertido e engenhoso o seu texto. Fez-me de imediato lembrar o Hyssope, poema heroi-cómico em 8 cantos do poeta arcádico António Diniz da Cruz e Silva (Elpino Nanacriense era o seu nome arcádico) e que se inicia assim:
"Eu canto o Bispo, e a espantosa guerra,/Que o Hyssope excitou na Igreja d'Elvas. /Musa, Tu, que nas margens aprazíveis,/Que o Sena borda de árvores viçosas,/ Do famoso Boileau a fértil mente/Inflamaste benigna, Tu me inflama; /Tu me lembra o motivo; Tu, as causas,/Por que a tanto furor, a tanta raiva/Chegaram o Prelado, e o seu Cabido."

Não é para todas as liras poéticas a glosa do estilo grandiloquente, por isso, parabéns mesmo.

Tânia disse...

Olha..Lusitana.. parece com meu nome / Luzitânia .. mas prefiro Tania... hehe

Feliz 2010, Marcos.. tuudo de bom.
beijos.

Gabriela disse...

Confesso que me supreendo tanto cada vez que venho aqui,que até me assusto!ahahahah
Ótimo.
Feliz Ano Novo!

Tânia disse...

Sumioo !?
Feliz ano novo (de novo *-*)
abraço. Tuudo de bom.

Barbara disse...

É...

Úrsula Avner disse...

Olá meu caro Marcos,

estou passando para uma breve visita pois já são 2 horas da manhã e o sono pesa sobre meus olhos e corpo. Você tem andado sumido... Saudade de sua presença em meus cantinhos. Um abraço e feliz 2010 !

IsabelleC. disse...

Marcos
Sinto-me às vezes que vou ser presa por não dizer nenhuma palavra quando venho aqui
Demoro a vir, assumo.
Mas quando ponho os pés nessas liras, uso todos os pedaços de tempo que me sobram nesse meu trabalho de papéis.

Bem, digo, passei a poesia pensando em dom quixote:

"Já velho assaz cansado da existência,
Desgostoso a beber ardida cana,
O Manuel em trôpega cadência
Saiu com um charuto dos de Havana
A devanear sem qualquer prudência,
Pisando numa casca de banana;
Mas, antes que ele caia, o tempo pausa;
O Olimpo delibera sobre a causa."

Dito isso, agora digo, que não sei o que dizer de tão completa composição.


beijo torto!

Mateus Henrique Zanelatti disse...

“Que coisa nova, que coisa epilética!
Caralhos, criei a Porra Sintética!”

“E... leva este meu último sorriso!”

Ao que o nosso herói solta gritos loucos:
“Ó pá, o gajo está fugindo aos poucos!”

CARA, genial, genial. Juntar um monte de piadas e transformar em versos... Gostei mesmo, fora as risadas e as lembranças. Deve ter sido bom fazer esse trabalho.
O Brasil é assim mesmo!!

Abraço!

Marguerita disse...

Não li nem assisti esta novela, mas creio que lei do cão é uma boa denominação para a morte dos mártires.
;)

*obrigada pela visita!

Bj

Adriana Karnal disse...

Marcus,
vc escreveu tudo isso sozinho? genial!!!rs Feliz 2010 pra vc.A propósito, desculpe a ignoorÂncia, mas onde fica Nhandeara?

Gabriela disse...

Só pra responder, não sou eu, é ela.
Um abraço!

Cáh Morandi disse...

Nossasenhora, irmão!

Tu se empolgou! Foi ótimo!

CHRISTINA MONTENEGRO disse...

Meu beijoqueiro cinestésico predileto (graças aos bons deuses!):
É fabuloso o quanto amadurecer está lhe fazendo bem! E fazendo bem aos seus leitores!
BJS!

Mirse Maria disse...

Marcos!

BRAVÍSSIMO!!!!!!!!

Precisamos de humor e humor com esta classe e categoria!

Assemelha´se um pouco aos Lusíadas de Camões!

Que cabeça, meu amigo!

Parabéns!

Abraços

Mirse