quinta-feira, 12 de novembro de 2009


CÂNTICO EM DESCOMPASSO


Uma insone prantina, orvalhando o lençol,
a cintilar, reflete o que não há de sonho
no cântico ideal feito réquiem medonho
em pentagrama* impresso ao arribar do Sol.

Mas, a cada manhã, revigorar suponho
o cântico, alentando-o mais em cachecol
insano, e espiralado qual um caracol
a furtar-se do agreste, gris mundo enfadonho...

Mundo enfadonho!, duro, rijo em teus limites:
por que dás-me esperança?, se tanto é proibido
sob a tua foice atroz; por que sonhar permites?

Amo, sabes?, mas este bem vem preterido
pelo tempo de eu não-ser, e nada há que evite
se aflora-me anacrônica cruel libido.

Marcos Satoru Kawanami

*pentagrama: 5 linhas da partitura musical.