sábado, 3 de outubro de 2009

VEREDITO AO DISCURSO

Folha chata de papel,
De que me és de proveito?
Que sentir, sentido, efeito
Têm as palavras ao léu

De seus caprichos lançadas
Desde o limbo imaginário
Para o formato ordinário
Da celulose prensada?

E me ponho a escrever...
Voz burocrática entoa:
“A palavra escrita é boa!”
—Só para ofício há de ser.

Pois escrever é um ofício,
Já dizia o seu Machado
Para Bilac extasiado
Em falácias de artifício;

Mas comunicar efeitos,
Só mesmo os feitos, ação!
Abaixo inócuo confeito,
Volátil discurso vão!

Quero fazer redondilhas,
Versos-monte fervorosos!
Não dizer, mas fazer Ilhas-
Vida em mares estrondosos!

—Todo o de essencial perdido
Em seu arregrar trivial,
Talhe bidimencional.
Rudo cismo: que sentido

Têm as palavras ao léu?
Que sentir, sentido, efeito;
De que me és de proveito
Folha chata de papel?

Marcos Satoru Kawanami

.

14 comentários :

Caio Timbó disse...

Adorei esses versos!

BAR DO BARDO disse...

Palavras, enfim, de nada servem. Por isso, nos servem tanto...

Marcos, o moço da redondilha.

Jéssica Trabuco disse...

"De que me és de proveito
Folha chata de papel?"
Vc não imagina como isso me fez refletir!
Escreves mto bem!

ps: se era serenata? Talvez... uma serenata para corações que necessitavam de um toque (:

Lara Amaral disse...

Para mim, as palavras ao léu na folha chata de papel têm todo o direito de serem o que quiserem. Por isso, fazem todo sentido de qualquer efeito, hehe =)!
Gostei, Marcos. Abraços!

nina rizzi disse...

as palavras me redimem. ah, e me entregam. os inquisidores são cruéis, mas eu não ligo: tenho olhos furta-cor que quando jogados ao mar, absorvem toda sua cor e fúria.

um beijo.

p.s.: por que será que o blogger não atualiza as memórias da lira velha?

Fee disse...

A folha chata de papel me faz querer ser maior!

Adriana Godoy disse...

Tem tantos proveitos....folha chata de papel...como é bom brincar com os diversos significados de uma palavra. Vc faz isso bem. beijo.

Talita Prates disse...

A folha chata de papel
ajuda a organizar (parte do) caos
(que, organizado,
deixa de ser caos, não?).
(Blá blá blá...)

Muito bom, Marcos! Parabéns pelo texto.
Bjo, e paz.

Agatha disse...

Afinal é de palvras que vive o homem, e é no papel que elas ficam..

Um beijo.

Elga Arantes disse...

Não é Falcão, mas é bom, também! rs.

"Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra

Palavra dócil
Palavra d'agua pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra

Palavra minha
Matéria, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra

Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra"

Chico Buarque.

Soneca disse...

Eu amooo minha folha de papeel...
Só que ás vezes a escrita não acompanha o pensamento, ai eu empaco... è uma coisa tão estranha que eu me identifico, estranha como sou.
99% do discurso escrito nimguém presta verdadeiramente atenção, melhor é o improviso, é mais vivo é sincero.

Inté

Sunflower disse...

sou uma escritora com medo das palavras, sério. Nós brigamos o tempo todo e quando elas não ganham, fogem. Luta injusta essa.

beijas

Marcos Satoru Kawanami disse...

Sun,

e eu não tenho vocação pra escrever, sempre fui lacônico; exemplo: este Veredito ao Discurso, eu o escrevi em 1994, ao 18 anos de idade, propondo que escrever não valia nada, mas já tô com 33 e escrevo até hoje.
daí se conclui o quê? que eu escrevo é por teimosia.

paz e bem
marcos

Claudia disse...

Olá, passei aqui para solicitar autorização pra usar a imagem do martelo, em um texto no m eu blog. Grata, Claudia