sábado, 3 de outubro de 2009

VEREDITO AO DISCURSO

Folha chata de papel,
De que me és de proveito?
Que sentir, sentido, efeito
Têm as palavras ao léu

De seus caprichos lançadas
Desde o limbo imaginário
Para o formato ordinário
Da celulose prensada?

E me ponho a escrever...
Voz burocrática entoa:
“A palavra escrita é boa!”
—Só para ofício há de ser.

Pois escrever é um ofício,
Já dizia o seu Machado
Para Bilac extasiado
Em falácias de artifício;

Mas comunicar efeitos,
Só mesmo os feitos, ação!
Abaixo inócuo confeito,
Volátil discurso vão!

Quero fazer redondilhas,
Versos-monte fervorosos!
Não dizer, mas fazer Ilhas-
Vida em mares estrondosos!

—Todo o de essencial perdido
Em seu arregrar trivial,
Talhe bidimencional.
Rudo cismo: que sentido

Têm as palavras ao léu?
Que sentir, sentido, efeito;
De que me és de proveito
Folha chata de papel?

Marcos Satoru Kawanami

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