terça-feira, 31 de março de 2009









LENDA DO PERU

ao Milton Coelho da Graça








Contemplativo acerca da beleza
que lhe era própria, um dia, o Pavão
pensou: “Por que não alço os pés do chão,
e conquisto a cerúlea realeza?”.

Por ser ele incapaz de tal proeza,
lastimou do Destino a ingratidão
que ao Urubu, mais feio que um Dragão,
permitia voar por natureza.

Eis que então, num lampejo inteligente,
propôs ao Urubu, que voava à toa,
unir em matrimônio conveniente

seus filhos. Foi assim que da Pavoa
veio ao mundo o Peru, hibridamente;
que é feio pra dedéu… e ainda não voa!

Marcos Satoru Kawanami

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segunda-feira, 30 de março de 2009

memória do futuro






MEMÓRIA
DO
FUTURO



Era um retrato cinza, preto e branco...
do tempo dos antigos, de primeiro,
quando a morte assombrava o mundo inteiro
e o fuzil vitimava a cada tranco.

Em uma vila, à beira de um barranco
de escombros e despojos de guerreiro,
tendo ao fundo o adejar de um bombardeiro,
chorava uma criança sobre um banco.

Fechada a boca, lágrimas desciam
silentes sobre o espelho da lembrança,
e no sangue do chão se diluíam...

É toda a espécie humana esta criança,
e as lágrimas que dela se esvaíam
sustentam nova edênica esperança.

Marcos Satoru Kawanami


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GREGÓRIO DE MATOS


“O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.”
(Gregório de Matos Guerra)



A bosta sem a merda não é bosta;
A merda sem a bosta não é merda;
Mas se a merda é uma bosta, sendo merda,
Não se diga que é merda, sendo bosta.

Em qualquer excremento está a bosta,
E bosta assiste inteira em qualquer merda,
E feita em merda a bosta, ou bosta a merda,
Em qualquer merda sempre existe bosta.

O rio Tietê não seja merda,
Pois feito o Tietê de merda e bosta,
Não é apenas merda a sua merda.

Não se sabendo merda desta bosta,
Um trôço que lhe acharam, sendo merda,
Nos diz que é merda mesmo toda bosta.

Marcos Satoru Kawanami

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sexta-feira, 27 de março de 2009



Soneto pós-moderno do adeus definitivo





A névoa do silêncio é tão densa
que sinto o triz do adeus definitivo.
Minhas palavras morrem na sentença:
-Morri, adeus, não salve meu arquivo!

Deletar a saudade, tua presença,
é pôr no coração vácuo afetivo.
A razão corrobora e inda me imprensa:
-Morreu, adeus, o morto cinge o vivo!

Se não há par, irei salvar-me como?
Vivente, eu me formato como morta
e ponho uma redoma em torno à dor.

Emprestado do breu o luto eu tomo
e faço uma incisão em minha aorta.
Teclas líricas morrem. Adeus, amor!

Rita Moutinho

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quinta-feira, 26 de março de 2009

SONETO ERÓTICO

Ao ferir meu sensível nervo óptico,
a forma feminina desejada
da carne exuberante e cobiçada
inspira o meu primeiro texto erótico.

Beleza de um pujante apelo exótico,
desvelo minha Vênus despojada,
desnuda por completo, abraseada
pelo pudor desfeito em cio caótico!

O quadril abundante e tão carnudo
se oferece ao olhar inebriado
do bardo sempre casto, assim sisudo.

Desprezando o pudor civilizado,
eu lhe osculo o clitóris já tesudo,
e enfim penetro o ventre bem amado.

Marcos Satoru Kawanami


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IMAGEM: pintura de Artêmio Fonseca de Carvalho Filho (Temito)
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quinta-feira, 19 de março de 2009

POETA MENOR

POETA MENOR
ao velho bardo Manuel Bandeira

Com dois livrões: o Código Penal
mais o Civil, de capa a capa lidos,
teúdos, manteúdos e engolidos,
se faz um Bacharel Judicial.

Com porcas, parafusos de metal,
concreto, vergalhões, homens polidos
no Cálculo de Newton, entendidos,
a carta de Engenheiro é bem legal.

Jurando pelo Hipócrates antigo,
depois de nove anos de esqueleto,
germina um médico doutor amigo.

Sem vulto para o último terceto,
o poeta contempla o próprio umbigo,
e dá cabo de mais um seu soneto.

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 12 de março de 2009




Por Que o Mundo Existe?












Se Deus permite o mal, há um motivo,
que é transformá-lo em bem —só pode ser—;
eis a razão do nosso padecer
nas garras do pecado assim cativos.

Vivia o pai Adão como um nativo
silvícola tupi, a bem dizer;
e o pranto lhe foi dado conhecer,
a fim de o júbilo sentir mais vivo.

Pois “tudo se encaminha para o bem”,
comenta o Catecismo com justeza
aos crentes pela fé e na razão.

Deus fez o mundo —a isto digo amém—
para que se expandisse a singeleza
do Seu amor em cada redenção.

Marcos Satoru Kawanami


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terça-feira, 10 de março de 2009






SONETO MARGINAL


Silvam velozes ventos; reverberam
luzentes melodias de engrenagens;
os carros saem todos das garagens;
quatrilhões de neurônios deliberam...

Gigantes colossais gusa encarceram,
e vertem a matéria das ferragens;
nas árvores germinam as serragens,
enquanto todos sonham que prosperam...

Avante!, urbe, metrópole paulista:
non ducor, duco”, diz teu bravo lema;
teu lema insubmisso, idealista!

Enquanto, fora, voga tal esquema
de progresso, barganhas e conquista:
eu, marginal, cinzelo este poema.

Marcos Satoru Kawanami

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domingo, 8 de março de 2009

SOL & LUA

O fim da tarde se esboça
Como a angústia da procura;
Vivo meu triste presente
Quando o sol se vai poente

Maior desgosto não há
Para o sol que sempre busca
Diurno, sem ter como achar
A altiva e singela lua.

No fim da tarde se esboça
A certeza da amargura,
A tristeza da procura.

Vivo meu triste presente,
Meu presente de procura,
Como o sol que busca a lua...


Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 3 de março de 2009


PERFEITA GLÓRIA

Querida senhorita Mariano,
dedico-te estas mal traçadas linhas
por tudo que em meus olhos adivinhas
nunca findar com o passar dos anos.

Nos teus olhos, transporto-me a outro plano
avesso ao mundo das noções mesquinhas,
e as rimas que me vêm já não são minhas,
mas cópia do teu canto soberano.

Enfim o trovador tem por quem cante,
após o exílio amargo, mudo e triste,
que foi como não ser a cada instante.

Guerreiro pela paz, lápis em riste,
vou traduzir o Amor do teu semblante,
que és tu perfeita glória do que existe!

Marcos Satoru Kawanami

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AS CRIANÇAS E JESUS






JESUS DISSE UM DIA ASSIM
A SORRIR NOS OLHOS SEUS:
— VINDE, CRIANÇAS, A MIM;
QUE É VOSSO O REINO DOS CÉUS!

UM SORRISO DE CRIANÇA
E UMA TERNURA DE MÃE,
SÃO A MAIS TERNA ESPERANÇA
QUE O MUNDO INTEIRO CONTÉM.

VI A MAIS DOCE AFEIÇÃO
NUM QUADRO DE MÃE, TÃO LINDO!
QUANDO AO FILHO DAVA PÃO
E ESTE A BEIJAVA SORRINDO!

QUANDO NASCE UMA CRIANÇA
NASCE ÀS VEZES UM VELHINHO,
RICO E CHEIO DE ESPERANÇA
QUE HÁ-DE MORRER SEM CARINHO!


Clarisse Barata Sanches (Góis - Portugal)

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domingo, 1 de março de 2009







AMOR DE CORNO


Eu devo ser tratado como um verme:
qualquer castigo é pouco para corno,
conforme diz o povo; e pese o adorno
sobre a minha cabeça a entreter-me...

Quando ainda eu gozava na epiderme
o tátil gozo do teu corpo morno,
delegava ao sabão, vassoura e forno
o afeto que não pôde comover-me.

Mas neste pranto em forma de bolero,
eu me humilho até o cúmulo do brega
se ter-te novamente é o que mais quero!

Na fossa a gente vê que o bicho pega,
na lata implorarei sem lero-lero
até que desta voz não reste prega!

Nhandeara, 6 de maiô em 2008, ai que frio!
Marcos Satoru Kawanami

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