sábado, 28 de fevereiro de 2009

IMITAÇÃO DE CRISTO







TROVA DO SUS


Eis a sina por que passa
um pobre remediado:
nasce em estado de graça,
morre, de graça, no Estado...

Renata Paccola



IMITAÇÃO DE CRISTO

Não faço apologia ao sofrimento,
nem ojeriza tenho ao mundo e ao gozo;
não sou vanguarda, nem tampouco idoso;
mas, sim, dou viva ao livre pensamento.

Da graça da fé cega estou isento,
mas da graça e fé cega sou cioso,
e almejo o Paraíso esplendoroso
prometido por todo sacramento.

Cuido, porém, que Cristo deu exemplo
ao sofrer o martírio no Calvário,
altar desta verdade que contemplo:

Será no mais extremo e perdulário
despojo, sem amparo, mãe, ou templo,
que hei de ver Deus em meu itinerário.

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

OPOSTOS
para Roberto Damatta

O mundo foi criado
para o bem ser espalhado
no drama da redenção.

Quem mais tiver pecado
mais será santificado
ao receber o perdão.

O mal, subordinado
ao bem e aniquilado,
cumpre assim sua função.

Opostos, lado a lado,
conceitos polarizados
seguem por auto-indução.

Quem mais tiver errado
mais será retificado,
e terá mais gratidão.


Nhandeara, 26 de fevereiro de 2009
Marcos Satoru Kawanami

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

IPÊ AMARELO
para Domingos Pellegrini

Desfaz solene a linha do horizonte,
na imprecisa memória de eu criança,
bolindo em sortilégios da lembrança,
silhueta colorida, um certo monte.

Já se adivinha, mesmo que eu não conte,
retrato com palavras não alcança
mescladas impressões tecendo trança
entre o que fui e sou, confusa ponte...

É como a subjetiva melodia
irracional que sai de um violoncelo
plangente e longe no raiar do dia.

É como o brincalhão polichinelo
sonhado, mas real, que então eu via,
sobre o monte, naquele ipê amarelo...

Marcos Satoru Kawanami

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

soneto de carnaval



RUBICUNDA

Eu sempre quis rimar com “rubicunda”
a farta bela boca da Mulata,
que até hoje meu peito desacata,
e meu crânio, de pranto, pois, inunda…

O Amor é fogo que arde pela bunda
que abunda e retumba e diz na lata
da bunda européia super-chata:
—Quem manda no terreiro é a Raimunda!

Mas…, por de injusto ser chamado o mundo,
não posso “rubicunda” aqui rimar
após num tal problema ir a fundo:

Insiste o Dicionário em afirmar
que é vermelho o que se diz rubicundo;
e a Mulata, esta cor, não tem pra dar…

Marcos Satoru Kawanami

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

O BEIJO QUE NINGUÉM DEU

Ser forte é...
Ter lágrimas no coração
E um sorriso no olhar
É sentir um grande amor
E não poder mostrar.
Ser forte é...
Olhar as estrelas
Sonhar com o céu
E sentir o beijo
Que ninguém nos deu.

Manuela Baptista
(Lisboa, Portugal)

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009






JUANA VÊ

"Meus olhos vêem tudo, mas nada compreendem."
Juana S. C.







Eu vejo tudo, e não compreendo nada
do que ao redor de mim se vai movendo;
meu pensamento tem sempre o adendo
socrático que assumo, conformada.

Num corpo de mulher fui adequada,
e desde que nasci estou morrendo;
mas alma livre sou, e vou querendo
os ledos sonhos dos contos de fada.

Está em toda parte o bom mistério
sagrado que compõe a Criação,
decifrá-lo não cabe ao meu olhar.

Pois sigo um firme e racional critério
decantado em humilde coração:
eu vejo tudo, para tudo amar.


Marcos Satoru Kawanami

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sábado, 14 de fevereiro de 2009

O CAMPONÊS

O camponês, de pé descalço, a terra
vai arando de sol a sol, sereno
a calejar as mãos no seu pequeno
puído arado que jamais emperra...

Às vezes na paz, às vezes na guerra,
longe, o mundo destila o seu veneno;
mas o campônio, de fadigas pleno,
labuta e, qual carneiro que não berra,

a sina aceita de dia após dia
ir murchando esgotado de suor,
suor que faz um rio que assim o guia

à tenda de seu Deus, seu bem maior.
E ele que o pão dá à gente vadia,
fome talvez passe, ou coisa pior...

Marcos Satoru Kawanami

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009







O POSTE







Pintado a fogo, outrora, lembra o Império
aquele poste preto de fundido
ferro; pela ferrugem corroído
guarda, dos tempos, líricos mistérios...

Decrépito, vergado, deletérios
insultos de bandidos tem ouvido;
ânsias de Amor jamais correspondido
moldaram-lhe este aspecto assim funéreo.

Vinhetas ornamentam sua base,
e, acima, sua luz, à noite, aventa
a memória que eu guardo e me atormenta:

Eu era adolescente, e um dia quase,
ao pé do poste, lívido a beijei,
amor sem nome, estado, crença e lei.

Marcos Satoru Kawanami

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

SONETO FEROZ

SONETO FEROZ

Eu não quero o lirismo comedido,
como já disse o velho e bom Bandeira;
eu não quero a bandeira brasileira
entre tantas de um mundo dividido.

Eu quero o amor geral, o Amor perdido,
difuso, tão confuso, assim sem eira
nem beira, só a vontade prazenteira
de viver sem jamais ser iludido.

Eu não quero este mundo decadente
que se ufana a dizer ser progressista
num suicídio lento, enquanto mente.

Eu quero é o ideal surrealista,
a doida sanidade do demente,
a lúcida loucura do autista!

Marcos Satoru Kawanami
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

UMA LENDA QUÍMICA
ácido clorídrico + hidróxido de sódio = sal de cozinha (NaCl) + H2O

Nos manuais químicos dum laboratório
um Cloreto de Hidrogênio apaixonou-se
um dia
exotermicamente
por uma base.
Vislumbrou-a com seu olhar abrasivo
de uma reação reversível:
uma figura iônica;
olhos 2 molar, boca dativa,
corpo isobárico, seios em suspensão aquosa.
Fez da sua uma vida
à dela eletropositiva,
até que se encontraram
numa solução.
“Quem és tu?” —indagou ele
em precipitado.
“Sou filha de um Alcalino, e neta do Oxigênio.
Mas pode me chamar Hidroxila, de Sódio”.
E de falarem descobriram que eram
altamente reagentes.
E assim se amaram
num ciclo de oxi-redução
oxidando
ao léu da temperatura
e da pressão
metais, não-metais, semi-metais
por entre as colunas da Tabela Periódica.
Escandalizaram os ortodoxos
e desbancaram Lavoisier;
desmoralizaram Clayperon
e a relação de PVT.
Enfim resolveram atingir um equilíbrio,
constituir uma família,
uma família de gases nobres!
De nobreza nada tinham;
nem um tio Xenônio,
nem um primo Hélio...
Mas o produto que tiveram
foi mais venturoso
e providencial:
no bojo dum erlenmeyer
com rendimento cem por cento
nasceram
Água e Sal.

Marcos Satoru Kawanami
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

DESOCUPADO LEITOR
(à moda de Miguel de Cervantes Saavedra)

Antes do mais nada, e para melhor compreenção do mais nada, faz-se mister esclarecer-vos, e, ainda que limitado dentro dos limites da limitação, uma coisa que, em verdade, não chega a ser uma coisa, estando, portanto, em um nível, num plano superior ao das coisas que, por reversão, encontram-se em um nível inferior e consequentemente abaixo de o que anseio esclarecer-vos, aproveitando o ensejo desta, antes do mais nada, para melhor compreenção deste, por ser essencial que tenhais conhecimento de algo que, como já vem referido e conhecido, estando vós dessa maneira a par do que seja, ou ainda, do que não o é, não vos escandalizareis com a ideia de que esta não passa de algo por demais simplório e que, de uma coisa podeis estar seguro: não é uma coisa, sendo, pois, qualquer outra coisa que não uma coisa; porque é um fato, e fato tão pertinente quanto o conteúdo informativo indispensável desta pela qual aproveito o ensejo para, antes do mais nada, esclarecer-vos, por meio desta e para melhor compreenção daquele, o fato de a tinta desta caneta não ser de cor alguma; pois escrevo a lápis.
E... mais nada.

Brasília, DF, 19 de dezembro de 1992, em carta à minha irmã
Marcos Satoru Kawanami
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

OS LÍRIOS

Olhai os lírios do campo,
disse o Mestre muito amado,
nunca labutam em trampo,
mas no auge do seu reinado

Salomão jamais tão belo
se mostrou assim trajado
tal qual um lírio singelo
sem cultivo cultivado.

Privilégio teve o Lírio
desde então na sacra história,
mas eu canto em meu delírio

a vária e morena Gérbera
que, singular por não ter rima, torna o verso
livre para amar sem protocolo,
livre para amar espontaneamente…


Marcos Satoru Kawanami
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

POESIA, PARTÍCULA EXPLETIVA

POESIA,
partícula expletiva


Mundos em sucessão;
muitos, muitos...,
cada um diverso do precedente;
outros conceitos, nova concepção;
todo instante uma verdade;
em número imensurável
arranjos,
simultaneamente
realidades
distintas semelhantes cambiantes particulares
por causa dos mundos
concupiscente
conjugação.
Assim o “lá me faz bem”,
assim o “lá não suporto”,
o “que felicidades!”,
e aquela situação exasperante...;
todo instante
um parecer;
mundos em sucessão,
o que é vai já deixando de ser:
umas pessoas –tudo bem,
outro arranjo –também,
o mesmo arranjo e cai mal;
bom-ruim-tanto faz
e Poesia onde cai?
Poesia e seus versos
luta, pro-
cura por
cura
a propor
em luta:
pareceres? reflexões?
Indiferença dos céticos
herméticos ven-
cidos porém!
Poesia de alguns...;
compunção, talvez,
con-
solação
não;
a troça de outrem,
troça do próprio poeta
janela
e cai
Poesia em todo mundo em ausência
onisciência
trivi-
al tanto faz;
pois toda vida
janela
e cada janela um mundo;
muitos, muitos...
e o Mundo tantos mundos
em conurbação de mentes
dementes
nos põe
em social conjugação;
e eu e meu vizinho e eu
e nosso vizinho ele
de um mundo terceiro
de sua janela terceiro mun-
dista assim como eu assim como tu
desde manhã percorre mundos a fio
(pela vida que vê de dentro
pela vida que vive fora)
no jesto mais efêmero,
aos furtivos olhares,
nas palavras soltas,
no discurso grave,
em tagarelices
tristes felizes
a cada mais volátil instante
ante
da vida as implicativas
combinações
de vida de mundos-instantes
cambiantes;
tudo sendo instantâneo,
tudo particular
—Poesia, partícula expletiva.


Marcos Satoru Kawanami
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