terça-feira, 20 de janeiro de 2009

FUNERAL DA FILOSOFIA


FUNERAL DA FILOSOFIA
(polêmica aberta, sem pretensão acadêmica, apenas prosa-poética)


A Filosofia é pretensiosa e inútil.

É pretensiosa porque tenta explicar o Universo do qual o filósofo é reles criatura; e mais: tem a intensão de aperfeiçoar o mesmo Universo, o que implica em um absurdo: a criatura aperfeiçoar o criador.

Afirmo que a Filosofia é inútil: em que o ser humano hodierno é mais feliz que "Adão e Eva", alegoria da Humanidade pré-histórica? Vivíamos no Paraíso. Violou-se a "árvore da sabedoria", ou seja, passamos do raciocínio prático para a especulação científica. Vivemos a Civilização. E basta observar a troca de palavras para lamentarmos quão descomunal foi nosso prejuízo: antes Paraíso, agora Civilização. Antes tínhamos um Deus (ou divindades), agora queremos ser Deus e, sendo que nunca o seremos, perdemos o caminho e o guia.

Paradoxalmente, a Filosofia prova sua perversidade: deu-nos a Civilização para depois apontar toda a miséria das relações civilizadas.

Todo o conforto da Ciência não vale o Paraíso perdido. Tínhamos a suprema sabedoria de não pensar para além da nossa fome; hoje nossa estultícia criou uma fome insaciável: a vaidade da Transcendência.

Ao mesmo tempo que a Transcendência parece libertadora ao rejeitar qualquer dogmatismo e ao considerar o ser humano como um "projeto infinito", este ideal de seguir sempre o "além-do-homem" não tem fundamento. Teria fundamento se o mundo fosse eterno, mas nem nosso planeta nem o Universo são eternos; a Ciência mesma o diz: por mais que a tecnologia consiga aproveitar a energia do Universo a favor da vida, esta energia se esgotará em um equilíbrio estagnado e estéril. De modo que considerar o raciocínio como instrumento de "perpetuação da espécie" não faz sentido, pois não há o que se perpetuar, não há eternidade para a matéria viva. O raciocínio só é proveitoso quando promove a felicidade, ou seja, quando é usado para resolver problemas imediatos ao bem-estar fisiológico e afetivo. Assim, a Filosofia poderia satisfatoriamente limitar-se a pregar: achemos o que comer, e brinquemos igual crianças. Pensar além disso é buscar complicações artificiais e construir torres de Babel a embargar o caminho singelo da alegria. O ser humano tem o dom da consciência que o permite saber se é feliz; contemplar a felicidade é o melhor uso da consciência. Mas o fato é que a Civilização aí está com a dinâmica social de produção. E produz o quê? Produz inúmeras coisas, mas jamais produziu felicidade natural. Com certeza produz o vazio existencial, cada pessoa sendo transformada em peça da máquina econômica. Restou à consciêcia corromper-se: deixou de contemplar a felicidade que a Natureza lhe dava de graça, para lamentar a angústia que a Civilização lhe vende cobrando caro.

Contudo, só resta remediar o mal imperante; tentar reverter o processo civilizatório seria utopia: quem, por exemplo, se dispusesse a viver numa comunidade indígena autêntica, estaria à mercê da civilização predatória. No mais, onde quer que ele vá, o civilizado já vai contaminado por sua cultura. Como disse, resta remediar o mal; escarnecedoramente, um remédio é a própria Filosofia: do veneno se faz o antídoto. O outro remédio, mais forte e eficaz, ainda que compatível apenas com os privilegiados da Fé, são as religiões.

Mas, fora de qualquer religião, tenho fé na benfazeja indiferença à Civilização e seus problemas. Serei um pré-histórico. Convivendo com a Civilização por necessidade, usarei do raciocínio apenas para as necessidades que o meio exige. Aqui eu preparo um funeral, e os pensamentos abstratos acerca da condição humana são as flores murchas do passado que ofereço neste funeral: o Funeral da Filosofia.


Monções, SP, (sítio de minha tia Olézia), 6-dezembro-2001

Marcos Satoru Kawanami


PS: Ainda duvido da minha própria opinião no texto acima. Conforme a celebrada página do cancioneiro popular: "eu prefiro ser uma metamorfose ambulante". E discordem à vontade, pois cantarolo também outra página mais antiga do cancioneiro: "Falem mal, mas falem de mim; não faz mal, quero mesmo assim".

---Crédito da figura: Artêmio Fonseca de Carvalho Filho (Temito), 2 SITES:

http://www.arte4fun.hpg.com.br e http://www.artemiodesign.hpg.ig.com.br/index.html


9 comentários :

Eloisa Faccio disse...

Pode mesmo me enviar? nossa eu iria adorar; e ainda ganhar um livro de sonetos seus.
Pura felicidade! *---*
Me envie o da gráfica, o da editora eu compro! pode ser?!
não imagina o sorriso esboçado em meu rosto ao ler o comentário!
abraços, e que seu talento seja aplaudido!

Karine disse...

Ainda estou em dúvida.Não sei se vou,de fato,decidir pela diplomacia.O Instituto Rio Branco é respeitadíssimo,maravilhoso concerteza.

^^

Obrigada pelo seu comentário!

:*

Poeta Eterno disse...

Desculpe, posso ser um ninguem falando de um vazio que se constrói, ou que apenas dissolve o que houve a minha volta, porém, ouso invadir seu espaço, para analisar um pouco do escrito.

A filosofia é um ramo do pensamento humano! Quem cria e destrói a si é o proprio ser. Pensar tambem enlouquece, prefiro, portanto acreditar que há coisas que não fomos feitos pra saber.

Fee disse...

Em minha humilde e nada técnica opinião, a Filosofia existe para tapar o buraco que a Fé deveria ocupar nos seres humanos.

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Raiane e eu, apesar de sermos muito brancas e termos o mesmo sobrenome, Azevedo, não temos nenhum laço de sangue. O que nos une é só o amor. rs

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Dúvida: você mora no campo, roça, sítio ou coisa parecida?

Fee disse...

Tava ligadão nada. Ele era excessivamente utopista. Eu só percebi depois. Mas é uma pessoa increvelmente boa, tem um coração que vale por três.

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Ah, que coisa boa ser homem do campo. Eu perguntei porque dá para sentir um quê bucólico no que você escreve.
O mais perto da natureza que eu consigo ir, é numa chácara perto de casa, mas não tem rio, lá só tem jaca, manga e caju.
Você deve comer muita pamonha, né?! rsrs

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Eu fui batizada na igreja católica, aos seis meses de idade,
aos 10 fiz a primeira comunhão,
aos 12 fui consagrada coroinha e
aos 15 fui crismada.

Agora sou evangélica numa igreja batista, onde descobri que sou contralto e canto.

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Um dia, eu vou ter um sítio.

Fee disse...

É mais ou menos isso. A denominação da minha igreja é Igreja Batista Vida Nova. Exite a Convenção Evangélica Interdenominacional no Brasil - CEIB, da qual a minha igreja atua como membro, porém, tal instituição não está para as igrejas evangélicas, como o Vaticano está para as igrejas católicas.

É por aí, mais ou menos isso, tipo assim. rs

dreamlove disse...

Opaa !! Com certeza essas estão sendo as férias mais "loucas" que já tive.. E eu estou adorandoo !!rsrs
Pois é..vc acertou em cheio..eu amo rosa rsrs, fico feliz em saber que meu bloguinho anima os leitores !!
Um grande abraço !! (Obrigada por tudo..)

banana disse...

Em qual 'porção' exatamente da Paulista encontra-se sua amiga dos livros?

Prometo que, assim que terminarem minhas férias, comento adequadamente em seu blog. Até lá, me proibi de prestar atenção em qualquer coisa que tenha as palavras "História", "Filosofia" e congêneres!

Robson disse...

Bem... Acho que tudo que se leva a sério demais cai no terreno perigoso da intolerancia... Que Deus nos livre! hmmm comentando seu comentário... o problema é o zigue zigue zá...
hahahaha abraço