sábado, 26 de dezembro de 2009



OS PORTUGAS


CANTO I

(antes da ressurreição)

1
As armas e os barões atrapalhados,
Que da acidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes insultados,
Passaram muito além da mente insana
Em pegas-pra-capar desnorteados,
Mais do que os que estimula o rum-de-cana,
E entre gente mais torta edificaram
Novo Reino, que tanto avacalharam;

2
E também as piadas gloriosas
Dos Portugas que foram difamando
O bom-senso, e as terras viciosas
Do Brasil foram só bisbilhotando;
E aqueles que por obras desastrosas
Vivem da lei da morte se esquivando;
Sorrindo espalharei por toda parte
A desmesura em Vênus, Terra e Marte.

3
Cessem do nécio Gago e Paraíba
As confusões heróicas que aprontaram;
Cale-se de bombinha e de biriba
O furor da mamãe que provocaram,
Pois o portugo peito é sempre arriba,
De quem Neptuno e Marte assim zombaram:
Cesse tudo o que a Musa velha arrota,
Que furtivo é o peido que se nota.

4
E vós Sátiros lindos, pois criado
Tendes em mim um novo pervertido,
Se sempre em verso liso e bem safado
Celebrei vosso mato divertido,
Dai-me agora um som alto e perfumado,
Um estilo maldoso intrometido,
Por que, de vossas moitas, Febo diga
Que saiu assustada a Rapariga.

5
Dai-me uma pemba grande desejada,
E não um clarinete ou flauta ruda,
Mas a tuba canora avantajada,
Que ao peito ascende e a cor ao gesto muda;
Dai-me esse entusiasmo da gozada
Gente vossa, que ao Riso tanto ajuda;
Que se espalhe a pilhéria no universo,
Se tanto despautério cabe em verso.

6
Manuel Joaquim, herói da nossa gente,
Partiu de Portugal mui furibundo
Com o Destino, este indecente,
Que o confiou nas mãos do Velho Mundo;
E arribou no Brasil, todo contente,
A fim de mergulhar até o fundo
Num barril generoso de cachaça;
Vê-lo assim dava gosto, dava graça.

7
Depois de beber tal tonificante,
O portuga quedou-se a lamentar:
Queria ver Maria, sua amante;
Largado ao celibato do além-mar,
Encasquetou a idéia no talante
Que, no Brasil, preciso era casar;
Esteve por alguns dias inquieto,
Carecia escrever o analfabeto.

8
Então, para Maria enviou
Uma fosfórea caixa, em sinal
Do grande amor que sempre despertou
No seu portugo peito angelical
A boca desdentada que beijou
Numa moita dum bosque em Portugal;
Mas, dos fósforos não valeu nenhum,
Pois Manuel testara cada um.

9
Sequioso por ler a correspondência,
Manuel pedia a Pedro, mais letrado,
Que lesse em alta voz com diligência
As cartas que enviava o ente amado;
Em uma nobre mostra de demência,
Os ouvidos de Pedro eram tampados
Pelas mãos do portuga cauteloso
Em preservar o assunto sigiloso.

10
Maria de Oliveira Corrimão,
Desde sempre beata de carreira,
Levava sua bíblia na mão,
Levava sua vela na algibeira,
Deixava mui feliz o sacristão
Cuja cara luzia prazenteira;
Esta mulher, portuga exemplar,
Chorava o Manuel no além-mar.

11
Maria se aprazia em contemplar
Todos os santos feitos de madeira;
Gemia de fervor ao pé do altar,
Tamanha a sua fé tão verdadeira;
Deixava mesmo até de respirar
No momento da reza derradeira;
Pois é santa a portuga concubina,
Que agrada ao homem que não é sovina.

12
Com os pretos mostrava caridade;
Sem racismo, pintava-os de cal
Dando a todos a sua claridade;
Segurando a brocha pelo pau,
Conheceu uma sã maternidade,
E assim tão pura nunca se deu mal;
Entanto, Manuel ia sofrendo,
E na testa um ornato ia nascendo.

13
Manuel, sendo burro mas não besta,
Arranjou outro amor, e sem tardança
Fez o Pedro escrever uma funesta
Missiva, pondo cabo à esperança
Da Maria lograr pela fenestra
Penetrar no Brasil da maré-mansa;
A portuga, ficando em chão natal,
Lamentou ter nascido em Portugal.

14
Manuel se enfeitou e pôs gravata
Para ir ao encontro triunfal
Da musa que do samba é diplomata,
Que neste mundo não acha rival;
Ele se enrabichou pela Mulata,
Riu-se do sem-sabor de Portugal,
E três dias passou tirando e pondo;
O quê?, a bem dizer, é o que não sondo.

15
Por nossa estranha sina sobre a Terra,
Por tudo que acontece sem razão,
Aqui dá-se um milagre que aterra
Na vida do portuga bom varão:
De repente a Mulata um dia berra,
Notando que lhe cresce um barrigão;
Passados nove meses ansiosos,
Os papais se contentam de orgulhosos.

16
A fim de sustentar a farta prole
Que se seguiu depois do matrimônio
(Nota-se que a Mulata muito bole,
Esta obra divina e do demônio),
O Manuel deixou de corpo mole,
E teve que arrumar labor idôneo;
Fundou o brasileiro botequim:
Esta instituição nasceu assim.

17
Pra consolar Maria em Portugal,
Lamentando perder pra brasileira,
Manuel lhe enviava genial
Mistura de farinha bem caseira
Pra emprenhamento não convencional;
Maria prenhe, diz ele sem eira:
“Que coisa nova, que coisa epilética!
Caralhos, criei a Porra Sintética!”

18
Teve também um caso de exceção:
Afonsinho em Lisboa, viu seu pai
Jogando a um mendigo um só tostão;
Já chegando ao Brasil, deu muito mais,
E o menino, confuso da razão,
Pergunta: “Por que aqui tanto assim dais?”
Responde o pai, risonho e zombeteiro:
“Porque este, além de tudo, é brasileiro”.

19
Manuel nunca quis o casamento
Da filha com o velho Raoni;
Pois, exigiu do índio provimento
Além do que podia um guarani;
Havia de ter membro de jumento
Esta caricatura de Peri;
Sem vacilo, a resposta logo veio:
O índio ia mandar cortar no meio!

20
Da Mulata com nosso Manuel,
Ao mundo veio gente indefinida
Que eu não ouso pintar neste papel;
Do índio com a filha divertida
Dos, tenros qual jasmim, beiços de mel,
Nasceu robusta a raça prometida,
A raça malandrinha e fuxiqueira,
A raça da brava gente brasileira.

21
Depois veio a nascer Macunaíma,
O grande mal, a grande tempestade
Que se espreguiça e nunca sai de cima
De uma rede de luxo e de maldade;
E se seu pai louvado cabe em rima,
Deus salve a pena de Mário de Andrade
Que aos povos deu o povo em prosa e verso,
E aos novos deu um novo senso emerso.

22
Voltando ao Manuel, bom português,
Dou fé que um nobre amigo ele arranjou;
O amigo aqui chegou, fazia um mês,
Do distante Japão, e se casou
Feliz com uma doida o japonês;
Pouco custa antever o que passou:
História com portuga e nipolino
É um belo monumento ao desatino.

23
Tendo um filho, o japona quis um nome
Que cá servisse em plaga ocidental
Para o menino nunca passar fome
Ou carestia, ou mesmo passar mal
De diarréia, que tanto consome
O siso do malandro e do boçal;
Querendo batizar o rapazinho,
Foi atrás do portuga, seu vizinho.

24
No boteco, o portuga bonachão
Contemplava a poupança já capenga
Da tal Mulata amor de perdição,
Quando entrou o japona lenga-lenga
Atrás de um nome a dar ao seu varão,
E, sem saber, criou uma pendenga
Compreendendo torta a sua mente
O que disse o portuga simplesmente:

25
“Sugiro que o menino venha a ter
Um belo nome, qual Sebastião,
Vulgo: Tião, herói que há de volver
De Arábia com a glória da nação”;
E o nipolino, sem nada entender,
Deu, à palestra, sua conclusão:
“Sim, gostei do Sugiro, obrigado;
Assim vai se chamar este abestado”.

26
E quando o japonês ficou doente
Já morrendo na cama do hospital,
Dizia: “Soro... caba” falecente
Nos braços do portuga prantinal;
Até que em fim, sem mais e de repente,
Bate as botas o japona, de tão mal;
“Mas, o que foi?”, se assusta o enfermeiro
Chegando bem no instante derradeiro.

27
“Não sei; morreu assim este infeliz;
Apenas Sorocaba ele lembrava,
Urbe talvez de antiga cicatriz”;
Com cara mais atenta e muito brava,
Lamenta o enfermeiro todo gris:
“Pudera, Manuel, você pisava
Na borracha do soro glicosado:
O morto faleceu esfomeado!”

28
No enterro do japona, dá-se o cúmulo
Do orgulho, vaidade e despautério
Quando Manuel, junto ao val do túmulo,
Com voz grave discursa muito sério
E cai-lhe a dentadura de tão trêmulo
Naquela cova chã do cemitério,
Mas, altivo, inda diz num improviso:
“E... leva este meu último sorriso!”

29
Na saga valorosa do imigrante
Alemão, japonês e italiano,
A morte formidável é constante,
Como é constante o esforço sobre-humano
Por fazer que o portuga mais de adiante
Do ítalo, nipônico e germano;
E resta-lhe berrar feito uma anta:
“A minha lança é dura, e se alevanta!”


30
Mas, se todo cristão é português,
E Portugal é toda a cristandade,
E mesmo o bacalhau norueguês
Perde em fé pra portuga qualidade,
A escolha está a gosto do freguês:
Tem salame, toicinho e brevidade;
Tem gente, que fugindo do tridente,
Foi plantar cruz em cada continente.

31
Findo o Império, veio o preconceito
Para com o portuga bigodudo
Por parte dessa gente sem respeito
Que pensa ter brasão e poder tudo
Tão somente porque, digo sem jeito,
Parece que o portuga é orelhudo;
Abaixo ao preconceito, minha gente,
A quem se faz de cérebro carente.

32
Nem todo português se debilita
Diante do malandro tropical;
É o caso do portuga que arrebita
Arrebita arrebita o berimbal
Da Mulata que nunca facilita
Fazendo na avenida o Carnaval;
Salve o Moreira, o Souza, o Oliveira,
Coringas da folia brasileira!


33
Como é certo que um dia tudo finda
Neste planeta pleno de incerteza,
Vou dando cabo nesta história linda
Da raça enobrecida à fortaleza
De um caráter ereto, e mais ainda
Soberbo de façanha à portuguesa;
Pois eu vi quando tudo teve fim;
Foi numa noite, lá no botequim:

34
O turco Farid, grande cobrador,
Tinha brio por jamais se alienar
Do dinheiro, razão do seu amor
Todo feito de débito à cobrar,
E nesta noite quis ver o senhor
Davi, judeu ferrado a não pagar;
A dívida imensa do judeu
Foi razão que com tudo feneceu.

35
Armado de pistola, o turco disse
Ao judeu que de lá não sairia
Sem que a cor do dinheiro ele visse,
Sem saber que Davi se mataria
Para que assim a dívida sumisse
No pó que volta ao pó da sesmaria;
Porém, o turco tira o seu chapéu,
E vai cobrar a dívida no céu.

36
Mortos Farid e aquele fariseu,
Manuel, empolgado, os imita
Arrebentando à bala o crânio seu;
A Mulata lamenta e se agita
Com a frase que não compreendeu:
“Ora, pois, que não perco esta grita
Nem que esteja bem morto lá no céu!”
E o portuga morreu, assim, ao léu.

37
Morte gozada, morte um tanto besta
Esta morte portuga, lusitana;
Se eu pudesse, fazia uma reqüesta
Para ressuscitar a mente insana
Do Manuel, herói desta palestra,
Que é portuga, sambista e pé-de-cana;
Quero que Deus ao mundo ele nos mande
Para do mundo a Deus dar parte grande.



CANTO II

(a ressurreição)

1
Recolhendo os miolos espalhados
Pelo chão, a Mulata dedicada
Implorava o perdão dos seus pecados,
Alegando, bastante melindrada,
Sem querer terem sido praticados,
Pois a fé para ela era sagrada:
“Saravá, Santo Antônio de Lisboa!
Tem pena desta filha de Gamboa.”

2
“Pois que se sempre obrar foi minha sina
Pelo bem do Portuga, meu marido,
Por quem perdi as graças de menina,
Tendo meu lorto muito padecido,
Afasta-me, senhor, desta prantina,
Que hás de ficar contente e ressarcido;
E juro que se tal se assuceder,
Eu deixo o samba... eu deixo de beber.”

3
Santo Antônio bondoso, enternecido
Por tamanha, singela e pura fé
Da Mulata que sempre tem vivido
De dar tudo por um copo de mé,
Considerou ser justo e merecido
Seu interceder junto à Santa Sé;
Posto que uma figura assim lendária
Não merecia tal morte ordinária.

4
Manuel levantou, de um salto, são,
Exconjurando, fulo, Santo Antônio
Que não o deixou morto em paz no chão
Junto da companhia do Demônio
E suas diabinhas de plantão
Que se davam a ele em matrimônio;
O Manuel até no Purgatório
Tinha que ser portugo e ser notório.

5
Dona Mulata quis comemorar
A feliz, conjugal ressurreição;
Saiu com seu portuga pra jantar
Cheia de si, conforme a tradição
Muito afeita ao estilo popular
De fingir que jamais meteu a mão
Num prato de comida transbordante,
Fazendo-se de chique, de importante.

6
O portuga, que nunca em restaurante
Havia acomodado o seu traseiro,
Rebolou-se por dois ou três instantes
Qual se fosse em batalha um guerreiro
A perder a saúde e o talante
Entre a faca, o garfo e o saleiro;
Queria uma azeitona alfinetar,
Porém ela insistia em escapar.

7
Até que, com respeito, o garção
Disse: “Não é assim, caro senhor”,
E com habilidade e destra mão,
Fazendo o Manuel mudar de cor,
O fruto alfinetou no bandejão,
E em frente do portuga veio a por
Garfo com azeitona qual troféu
Dando afronta ao sisudo Manuel.

8
Mas o nosso herói não se amofinou;
De ar encheu o peito, juntou tino,
A Deus e ao mundo a alma encomendou,
E com tanto conluio assim divino
Que a lusitana gente auxiliou,
Safou-se do garção num desatino:
“Pegaste a azeitona, sim, bem vi,
Mas primeiro eu cansei-a para ti!”

9
Quanto espírito!, quanta inteligência
Vemos aqui na vida lusitana;
Que tato!, que sensata interjumência
Além do terrenal, além de humana
Concedeu-se por Deus com diligência
À raça que dobrou a Taprobana,
E entre gente remota construiu
O Império, a quem tanto divertiu.

10
Gigante, Adamastor é uma imagem
Símbolo da grandeza sem igual
Nascente da vontade e da coragem
Para vencer a mofa, porco mal
Oriundo da ignóbil vassalagem
Sofrida por quem vem de Portugal:
Adamastor, com garbo varonil,
Fez-se peão de obra no Brasil.

11
Eu, outro dia, lendo um bom jornal,
Me informei da atual situação
Em que vive a família em Portugal;
As mulheres evitam concepção
Com um costume casto e virginal:
Lá, varão só se deita com varão,
E o boiolismo agora é permitido
Com aval da moral e do marido.

12
Assim é o bravo povo belicoso
Que em Porto Cale fez-se florescer,
Que desde Lusitânia, chão formoso,
Se arrojou para o mundo submeter,
Cujo Império tão vasto e glorioso
Avistava primeiro o Sol nascer;
E, portanto, também para se amar
Eles põem as espadas pra brigar.

13
O valor português será lembrado
Mesmo que, para isto, em castidade,
Cujo voto é tanto celebrado,
Tenha eu que viver feito um abade
Rezador, penitente e respeitado
Pelas mulheres da boa-vontade;
Pois à vida voltou para ser grande
Nosso herói que faz rir por onde ande.



CANTO III

(haja paciência)

1
Estando, certa vez, no elevador,
Manuel observou gentil inglês
Que ao flato de uma jovem, com pudor,
Disse ter sido seu, sendo cortês;
Pois então adentrou lá no ascensor
Velha gorda a peidar sem timidez
E o Manuel: “Os peidos da velhinha
Que agora entrou, são todos culpa minha!”

2
Mas, pior foi no bonde certo dia
No tempo desta elétrica carroça;
Chovia muito, sim, como chovia!
E o bonde era aberto, que palhoça...
E o portuga sozinho lá seguia;
“Pois, troque de lugar, ora que troça!”
Mas vendo que não tinha mais ninguém:
“Trocar até queria..., mas com quem?”

3
Também logo chegando ao Brasil,
O primo do portuga padeceu
A gozação, galhofa, troças mil
Devido ao nome que seu pai lhe deu:
José Veado, que nome mais vil...
Pois, em cartório, outro recebeu
E por escolha própria foi chamado
Não mais José, porém Vasco Veado.

4
Bem, este primo teve um triste fim,
Mas digno de honrado lusitano;
Foi quando encendiou-se o botequim
E Vasco cometeu um ledo engano
Com o extintor que dizia assim:
“Cabeça para baixo contra o plano”;
Pobre Vasco acabou carbonizado
De pernas para o ar, muito esforçado.

5
Sem graça com a fama que lhe dava
Todo o povo de ser tonto e tapado,
Manuel, furibundo, matutava
Num jeito de ser bem considerado;
E, para tanto, pouco lhe faltava:
Era só estudar, ser mais letrado;
Um professor de lógica arrumou
Que ao Manuel assim o ilustrou:

6
“De lógica o mundo está formado,
De bom-senso é que a lógica se embasa;
Por exemplo, discípulo estimado,
Acaso você tem cachorro em casa?
Se tem, tem filhos; não é, pois, veado.”
Com este exemplo doido, esta vaza,
Claro que era portuga o professor;
Perdoa-me Jesus Nosso Senhor!

7
Mais doido ainda foi o que se deu
Quando o amigo Pedro perguntou
Sobre a lógica, “coisa de sandeu”,
Ao que o portuga logo secundou:
“Tem cachorro no doce lar de seu?”
E Pedro: “Não, com bicho não me dou”;
“Logo”, fez o portuga entusiasmado,
“És bicha, um boiola, um veado!”

8
Eis sutileza!, eis vigor mental
Peculiar à raça lusitana
Que há de ser interna de hospital
Dando a luz à Ciência Americana
Cujo amor se sublima a Portugal
Nas piadas gozadas tão sacanas
Deste bardo que em seu delírio canta
O portugo valor que se alevanta.

9
Este valor já vem de antiga data
Quando do Manuel um ancestral
Em uma expedição brava e sensata
Acabou bem, mas quase se deu mal
Procurando uma nova rota exata
Rumo à Índia submissa a Portugal;
E por causa de um vento mui cortês
O Brasil é um erro português.

10
Em vez de achar a Índia, o lusitano
Encontrou com as índias tropicais,
E no seu apetite tão profano
Aderiu aos costumes canibais
Abocanhando dez índias por ano
A se fartar até não poder mais;
E desta comilança doida acaba
Que o brasileiro tem um pé na Taba.

11
Dirigindo seu carro, embriagado,
Duma feita o Mané fez uma cena;
Tendo a polícia tanto atormentado,
Inda disse com voz a mais serena:
“Cachaça não me deixa embriagado.”
Pois, deu-se alteração na sua pena
Não mais de trinta dias no xadrez,
Porém, conforme é justo, só de um mês.

12
É posto Manuel com um leproso,
O qual na cela quer meter-lhe medo;
Eis que o pérfido, podre criminoso
Arranca e joga fora o próprio dedo;
Não dando o outro mostras de ansioso,
O vilão joga um braço já azedo,
Ao que o nosso herói solta gritos loucos:
“Ó pá, o gajo está fugindo aos poucos!”

13
Depois de conseguir a liberdade,
Muito mais aprontou o Manuel
Com o seu nobre estilo e dignidade
Tanto na Terra, bem como no Céu;
De modo que, por tal enormidade
De esculhambação, falta-me o papel,
E a vocês faltaria a paciência
Para saber de tanta interjumência.


CANTO IV
(ascenção e vida eterna)

1
Já velho assaz cansado da existência,
Desgostoso a beber ardida cana,
O Manuel em trôpega cadência
Saiu com um charuto dos de Havana
A devanear sem qualquer prudência,
Pisando numa casca de banana;
Mas, antes que ele caia, o tempo pausa;
O Olimpo delibera sobre a causa.

2
Do alto do seu trono soberano,
Zeus preside o concílio divinal
Inquirindo em tom grave, puritano,
Qual será desta história o final:
“Conheço o peito ilustre lusitano,
E conheço o valor de Portugal;
Como pode um herói morrer assim
Só de queda, qual um Mané Joaquim?”

3
Vênus, cheia de amor, pudica e casta,
Contemplando o portuga, amorosa,
Despe-se, fica nua, e se arrasta
Para Zeus a rogar-lhe mui chorosa:
“Meu senhor, elogio só não me basta;
Bem sei que vós me tendes por gostosa,
Mas eu quero de vós prova cabal
De amor por vossa gaja e Portugal.”

4
Mas Baco intrometido, cão danado,
Desvelando as orgias da menina
Deixa Zeus muito fulo e corneado;
Sendo, porém, safada e feminina,
Vênus ataca por um outro lado
Fazendo-se de frágil, com prantina,
Fazendo-se de santa, piedosa,
Constipa a voz e diz toda manhosa:

5
“Se Deus é brasileiro (por que não?),
Zeus haverá de ser de Portugal,
E neste honrado posto e condição
Tem por mister trazer à imortal
Acrópole de nosso Olimpo, então,
O bravo português de estirpe tal
Digno de receber também seu culto
Mítico de piadas de alto vulto.”

6
Um amante dos gestos grandiosos,
Zeus manda Baco ir catar coquinho;
Depois, sacolejando os generosos
Músculos colossais quais de moinho,
Solta estrondos de voz mais poderosos
Que um guri pirraçando seu vizinho:
“Eu ordeno que suba o Manuel
Para entrar nas comidas cá no Céu!”

7
E assim como ele está, com vista incerta,
Língua pra fora, mãos à rivelia,
Perna no ar, braguilha meio aberta,
Dá-se com Manuel dita magia
Deixando-o cabreiro, um tanto alerta,
Sem saber para onde é que ia;
Foi subindo, subindo sempre ao léu
Com charuto e cachaça rumo ao céu...

8
Assim é que ascendeu o nosso herói
Numa ascenção de glória triunfal
Ao Olimpo que o tempo não corrói;
Livrou-se do sepulcro e pá de cal,
Ninguém lhe ofende mais, nada mais dói,
Nem mais saudade tem de Portugal;
Pois agora está livre, está contente:
Manuel Joaquim, herói da nossa gente!


Nhandeara, 17 de março de 2001
Marcos Satoru Kawanami
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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

www.cancaodoexilio.com

Colhendo a “cinza das horas”
no meu claustro negro e frio,
já velho sem negro fio
sobre o crânio que demora

(contra o câncer que o devora)
a ceder sem glória e brio,
sem o porvir já tardio
do riso infantil que chora,

eu, o “cadáver adiado”
todo avesso a polidez
já não pensava, extasiado

em obscena vetustez,
quando fui repatriado:
— quem conversa em PORTUGUÊS?


Nhandeara, 17 de fevereiro de 2002
Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009


TOC

( transtorno obsessivo compulsivo )

Em qual encruzilhada cerebral
será que eu esqueci a paz que eu tinha?
Meu siso, a cada instante, se amesquinha,
e o corpo pede Clínica Geral.

E ministra-se sempre um tal de “sal”,
princípio ativo para a caixolinha.
Agradeço se o sal for de cozinha!,
meus neurônios já passam muito mal...

O transtorno é obsessivo compulsivo,
carece tratamentos intensivos,
e ainda tem um nome que é horroroso!

Mas quem vê nunca vê o sofrimento,
pois volvi ao estágio de jumento;
agora, só sulfato fosforoso!

Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

OPOSTOS

O mundo foi criado
para o bem ser espalhado
no drama da redenção.

Quem mais tiver pecado
mais será santificado
ao receber o perdão.

O mal, subordinado
ao bem e aniquilado,
cumpre assim sua função.

Opostos, lado a lado,
conceitos polarizados
seguem por auto-indução.

Quem mais tiver errado
mais será retificado,
e terá mais gratidão.

Marcos Satoru Kawanami

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009



CONTRADIÇÕES

Portugual...
Lá meu passado deixei,
No chão que nunca pisei.

Não faz mal...
Mal é o mundo que pisei,
Que pisou-me e não deixei.

Frio val...
Das mentiras que aceitei,
Das verdades que inventei.

Pá de cal...
Finda tudo que sonhei,
Mal-me-quer que não plantei.

Prantinal...
Lembro tudo que não sei,
Lembro o que nunca serei.

Funeral...
Amo a morte que esperei,
Espero a mulher que amei.

Marcos Satoru Kawanami

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009









SONETO ANALÓGICO
DA LUZ


“Toda Sabedoria vem de Deus.”
(Eclesiástico 1:1)


A luz de um só sol entra na atmosfera,
difunde-se, refrata-se e reflete
ágeis fótons em tudo que acomete,
e um mundo colorido reverbera!

Uma luz vária, desde priscas eras,
também seu ledo nume em tudo mete:
ou é brava eloqüência de trompete,
ou é silente flor… que a vida gera.

Um sol apenas basta ao hemisfério
terrestre por ter luz em abundância
com vida e alegria —esse mistério.

Um Deus apenas basta em nossa errância
por dar Sabedoria —e isso é sério—,
que verte a luz divina exuberância.

Marcos Satoru Kawanami
.

domingo, 6 de dezembro de 2009









QUANDO


para Constança, prima e noiva falecida de Alphonsus de Guimaraens


Quando tudo na vida parecer perdido;
quando tu despencares na dura verdade,
sentindo os dissabores da realidade
contra teu sonho, para sempre abatido;

quando os teus amigos te derem as costas;
quando da amizade tu mais precisares,
mas este bem fugir esquivo pelos ares,
e o mundo sem sentido não te der respostas;

quando a derrota for triunfante e total,
faltando-te a saúde física e mental
para que te defendas de toda opressão;

quando enfim só restar-te amarga solidão,
não peças a mundana ou celeste clemência,
pois tens um bem maior: a tua consciência.

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

a igrejinha - Porciúncula - la Porziuncola - Saint Francis of Assisi - São Francisco de Assis - San Francisco

ilustração: "O Farol" de Anita Malfatti


PORCIÚNCULA

ao amigo Altino Hespanholi

No ermo frio de um deserto, solitária,
poente após poente se sustenta,
o flagelo dos séculos enfrenta
austera em sua rota indumentária.

A torre em situação mais que precária
pendida tristemente não lamenta
ser agora de sino já isenta,
mas parece vibrar... de forma vária.

É a igreja mais pobre e pequenina
que luta no mister de ser aceita,
mantendo a fé, ainda que em ruína.

Celebra na igrejinha a gente eleita
a coisa mais singela e mais divina
da verdade católica perfeita.

Marcos Satoru Kawanami
.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009



DÉCIMA DA MULHER


Mulher é um bicho esquisito:
sangue três dias lhe escorre
a cada mês, e não morre;
mas, se lhe pica um mosquito,
faz alarde igual apito.
Um bicho assim que por “regra”
sua estranheza não nega
me dá um medo patente:
pois não é que uma vidente
via tudo, sendo cega?!

Marcos Satoru Kawanami

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

ALCAGÜETE

Um dia sinhá Dadete
se meteu com Delator
sem saber do cacuete
que tinha esse impostor.

Mania feia dessa gente
dada a ser dedo-duro...,
pois logo ficou patente
que Delator cobrava juro.

Colocou a pica ao ágio
da bolsa de valores,
e Dadete por um fromaggio
leiloava os seus pudores.

Triste enleio por que passa,
na unha de alcagüete,
tutta leggiadra ragazza
que escorrega num cacete!

Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 24 de novembro de 2009



FÁBULA DA HONRA


Andando pela estrada da vida,
ia a Honra, a Ciência, e a Riqueza.
Falando com firmeza de entendida,
a Ciência disse que com certeza,

caso ela se perdesse na jornada,
na casa de um notável engenheiro,
pelas amigas seria encontrada.
A Riqueza, senhora do dinheiro,

disse: “Facilmente serei achada
no palacete de um milhonário”.
Vendo que a Honra não falava nada,

perguntaram por que o mudo fadário.
Disse, pois, a Honra: “Quem me perder,
jamais poderá tornar a me ver...”

Nhandeara, 7 de março de 2000
Marcos Satoru Kawanami



obs: ainda não conhecia a técnica do verso.
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009


SONETO DO FIM


O fim da gravidez é o nascimento;
o fim do nascimento é dar a vida;
o fim da vida é a sorte prometida
e revivida em todo sacramento.

A infância é finda com o crescimento,
que transforma a mulher bem mais querida
ao homem já viril em sua lida;
tudo a fim de que exista casamento.

O começo do fim é o Universo,
e nele começou a Humanidade,
que, um dia, começou a fazer verso.

O verso tem por fim posteridade
se o mundo não lhe der um fim perverso;
enfim, o fim do fim é a eternidade.

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 19 de novembro de 2009


A VIZINHA


Não segui o conselho da vizinha
para eu não tocar mais no trompete
(vizinha mulher em tudo se mete),
e assim toco no quarto e na cozinha.

Digo que toco mal... —modéstia minha,
porque, se as notas são apenas sete,
eu estou dentro do que me compete:
assopro a escala desde manhãzinha.

A vizinha já pensa em se mudar.
Será que o trompete é muito estridente?
Outro instrumento, pois, hei de tocar!

Tocarei tuba, que é bem imponente.
E que a vizinha vá se estrumbicar
no Inferno, com a bunda num tridente!

Marcos Satoru Kawanami
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domingo, 15 de novembro de 2009


IRMÃ


Ao mundo fui dado, por Deus, sozinho
na indiferente urbe bandeirante;
mas remanesça da infância distante
a perene imagem do meu anjinho.

Naqueles meses de flores rotundos
mais se entrelaçavam nossos destinos;
entre brejeirices e desatinos,
juntos, nós desvelávamos o mundo.

Se a vida começamos lado-a-lado,
não há de ser assim a vida inteira;
porém, vendo eu minh’ora derradeira,

lembrarei de ti, anjo bem-amado
(prima amiga da ímpia alma minha),
porque te amo, minha irmãzinha...

4-abril-1996, Rio de Janeiro —Galeão
Marcos Satoru Kawanami
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sábado, 14 de novembro de 2009

LEI NATURAL

Se Humanidades faz de tudo egoísmo,
e Biológicas
essa divinal essência
a reduz a mera Química,
que salve Amor
Astronomia
cuja providencial ciência,
da atração dos corpos
com propriedade elucida:
Gravitação Celestial.

marcos satoru kawanami
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

COERÊNCIA

Um velho moço,
sentado em pé
numa pedra de pau
de manhã já tarde
pensava:
Como o mundo é harmonioso...
A ameixa preta, por exemplo,
ela é vermelha
quando está verde!

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009


CÂNTICO EM DESCOMPASSO


Uma insone prantina, orvalhando o lençol,
a cintilar, reflete o que não há de sonho
no cântico ideal feito réquiem medonho
em pentagrama* impresso ao arribar do Sol.

Mas, a cada manhã, revigorar suponho
o cântico, alentando-o mais em cachecol
insano, e espiralado qual um caracol
a furtar-se do agreste, gris mundo enfadonho...

Mundo enfadonho!, duro, rijo em teus limites:
por que dás-me esperança?, se tanto é proibido
sob a tua foice atroz; por que sonhar permites?

Amo, sabes?, mas este bem vem preterido
pelo tempo de eu não-ser, e nada há que evite
se aflora-me anacrônica cruel libido.

Marcos Satoru Kawanami

*pentagrama: 5 linhas da partitura musical.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

se meu fusca falasse


Que se Ford Chevrolet!
Eu gosto é de Volkswagen.
—Então, em Fiat na Kombi!
—Ka Ka Ka Ka Ka...

Marcos Satoru Kawanami

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


APOLOGIA DA ESTÁTICA


Imóvel permanece quem na vida
se encontra satisfeito por completo;
tem tudo, mesmo sendo analfabeto,
quem vive agora a sorte prometida.

Mais vale a permanência que a partida
se talvez o além-mar nos guarde afeto,
posto que não há gozo mais seleto
do que prezar a sorte recebida.

O mundo foi criado por amor,
mas por paixão está em movimento;
de maneira que ocorre-me supor:

Tendo Deus agitado o firmamento,
e dado a nós a Sua semelhança,
serão leis o mover e a esperança?

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 5 de novembro de 2009


CALA A BOCA!


O que eu falo não se escreve,
o que escrevo não se fala.

Dever muito não se deve,
a gargalhada é que cala
o pranto da vida breve.

O que eu falo não se fala,
o que escrevo não se deve...

Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 3 de novembro de 2009


ATLETA


Antes de vir o sol, de madrugada,
viril disposição o impulsiona
a correr até uma maratona,
apenas por começo de jornada.

Com seu porte de esfinge levantada,
o atleta os músculos abona,
e se gaba de nunca ir à lona,
pois é do Olimpo amostra coroada.

Mas por estranhas leis que o amor decreta,
por tudo que acontece sem razão,
as mulheres preferem o poeta...

De maneira que a pose de machão
só acaba por deixar o ledo atleta
mirando o espelho, doido de paixão!

Marcos Satoru Kawanami

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OPINIÃO: Prevalece o bom-senso, o meio-termo; mulher quer homem de cultura e inteligência mediana com um corpo saudável.

AFORISMO DE MEU PRIMO JOSÉ, O GOSTOSO: "Quem gosta de homem é veado, mulher gosta é de carro."

CONFIDÊNCIA DE UMA FODECA NA FACULDADE: "Pra mim, o pênis ideal é grosso e tem 15 centímetros; mais que isso dói."

MAGALI, A GULOSA: "Transei com um cara de pau grande, e achei gostoso sentir dor durante o coito."

ENQUETE: Atleta, ou Poeta? Carro ou guarda-chuva? Vampeta ou Selton Mello? Outros pareceres Físicos, Metafísicos, Meta-a-lingüísticos e aleatórios são bem-vindos, de dentro para fora.
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009



FINADOS

na morada do defunto,
à minha avó eu pergunto:
- vovô tem "chegado junto"
na cidade do presunto?

marcos satoru kawanami

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domingo, 1 de novembro de 2009









Décima da Virgem Virtuosa

Guardo a minha virgindade
porque sou moça direita.
Minha vagina é estreita
e plena de dignidade.
Do hímen meu a integridade
é nó cego dado em laço
pelos meus nervos de aço.
Da honra tanto me gabo
que até mesmo dou o rabo,
mas não entrego o cabaço!

Marcos Satoru Kawanami
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

IMITAÇÃO DE CRISTO
ao ceguinho poetão Glauco Mattoso

Não faço apologia ao sofrimento,
nem ojeriza tenho ao mundo e ao gozo;
não sou vanguarda, nem tampouco idoso;
mas, sim, dou viva ao livre pensamento.

Da graça da fé cega estou isento,
mas da graça e fé cega sou cioso,
e almejo o Paraíso esplendoroso
prometido por todo sacramento.

Cuido, porém, que Cristo deu exemplo
ao sofrer o martírio no Calvário,
altar desta verdade que contemplo:

Será no mais extremo e perdulário
despojo, sem amparo, mãe, ou templo,
que hei de ver Deus em meu itinerário.

Marcos Satoru Kawanami

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domingo, 25 de outubro de 2009





SER PAI


“Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!”
(Coelho Neto)



Ser pai é duvidar, mas ir em frente
criando o bacuri que está no mundo
com zelos e cuidados, sem no fundo
saber se esse pirralho é seu parente!

Ser pai é ter um título aparente
de rei, que empunha o cetro cornibundo
e veste o ledo manto vagabundo
do Chaplin que parece estar contente.

Mas, enfim, o que vale é a Família
à parte de somenos prejuízo
que fica bem na altura da braguilha.

Confie que a comadre tenha siso,
assim você verá que maravilha:
ser pai é padecer num paraíso!

Marcos Satoru Kawanami

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

















FREUD EXPLICA?
(ficção total)

para Glauco Mattoso




“No fundo, o grande sonho masculino
é conseguir chupar a própria tora”,
assim falou Mattoso numa hora
em que se axibungava seu destino.

Quanto a mim, o meu sonho de menino
era beijar meu próprio cu por fora,
e meter com volúpia e com demora
a piccola piroca no intestino.

Aí, porém, a coisa se complica
pelo meu anatômico limite,
que não é só meu, ao que tudo indica...

De modo que, se o mestre me permite,
perguntarei: Será que Freud explica
o nosso tão onânico apetite?

Marcos Satoru Kawanami

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quarta-feira, 21 de outubro de 2009


MÁQUINA DO TEMPO

A memória que guardamos na mente,
Do tempo a passagem nos faz conscientes.

Mas o passado que a gente sente
É a memória que o traz ao presente.

E esta intuição contraditória
É a máquina do tempo da memória.

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009



ÚLTIMO BAILE DA ILHA FISCAL

na monarquia
do coração,
impera a dor
do imperador.

marcos satoru kawanami
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domingo, 11 de outubro de 2009


SONETO FEROZ


Eu não quero o lirismo comedido,
como já disse o velho e bom Bandeira;
eu não quero a bandeira brasileira
entre tantas de um mundo dividido.

Eu quero o amor geral, o Amor perdido,
difuso, tão confuso, assim sem eira
nem beira, só a vontade prazenteira
de viver sem jamais ser iludido.

Eu não quero este mundo decadente
que se ufana a dizer ser progressista
num suicídio lento, enquanto mente.

Eu quero é o ideal surrealista,
a doida sanidade do demente,
a lúcida loucura do autista!

Marcos Satoru Kawanami
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sábado, 10 de outubro de 2009










NONSENSE 3


O governo resolveu instalar um sistema de medição e controle de abalos sísmicos que cobriria todo o país.

O então recém-criado Centro Sísmico Nacional, poucos dias após entrar em funcionamento, já detectara que haveria um grande terremoto no Nordeste do país.

Assim, enviou um telegrama à delegacia de polícia de Icó, uma cidadezinha no interior do Estado do Ceará.

Dizia a mensagem:

"Urgente. Possível movimento sísmico na zona. Muito perigoso. Richter 7. Epicentro a 3km da cidade. Tomem medidas e informem resultados com urgência."

Somente uma semana depois o Centro Sísmico recebeu um telegrama que dizia:

"Aqui é da Polícia de Icó. Movimento sísmico totalmente desarticulado. Richter tentou se evadir, mas foi abatido a tiros. Desativamos as zonas. Todas as putas estão presas. Epicentro, Epifânio, Epicleison e os outros cinco irmãos estão detidos. Não respondemos antes porque houve um terremoto da porra aqui."

Hilda Hilst Érica
jornalista sem diploma freelancer, e freelancer também
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quarta-feira, 7 de outubro de 2009














NINFETA ARREPENDIDA


Um outro dia, a coisa ficou preta
quando eu, dondoca virgem mirradinha,
topei com um negão viril que tinha
saindo dos calções uma perneta.

Um monstro meio obra do capeta;
quem sabe seja ignorância minha
ou efeito do assombro que me vinha,
mas cuido que, tal jeba, só em peta.

Caguei de medo, e fiz uma careta,
ao que ele mais sentiu-se estimulado,
e detonou-me o cu tão bem zelado.

Ainda guardo a fama de ninfeta,
porém, arrependida, vem-me o enfado:
eu tinha é que ter dado logo a greta!

Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 6 de outubro de 2009



APOLOGIA DA BESTEIRA

"A besteira é a base da sabedoria."
(Falcão, compositor cearense)


Tudo o que há de perverso para a Humanidade
desde as guerras às brigas de menor instância,
qualquer hipocrisia ou beligerância,
o Mal, fadigas, farsas, vêm da seriedade.

O que é ruim se veste de sobriedade;
os crápulas, na sua eloqüente jactância,
vestem com gozo o ledo dólman da elegância,
mas deixam sempre rastros de calamidade...

Por outro lado, que mal fez algum mendigo
ou fanfarrão ou ébrio sem qualquer valia?:
examinando a História, lembrar não consigo...

Por mim, o siso nunca mais existiria:
a severidade é fábrica de inimigo,
já a Besteira é a base da Sabedoria!

Marcos Satoru Kawanami

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sábado, 3 de outubro de 2009

VEREDITO AO DISCURSO

Folha chata de papel,
De que me és de proveito?
Que sentir, sentido, efeito
Têm as palavras ao léu

De seus caprichos lançadas
Desde o limbo imaginário
Para o formato ordinário
Da celulose prensada?

E me ponho a escrever...
Voz burocrática entoa:
“A palavra escrita é boa!”
—Só para ofício há de ser.

Pois escrever é um ofício,
Já dizia o seu Machado
Para Bilac extasiado
Em falácias de artifício;

Mas comunicar efeitos,
Só mesmo os feitos, ação!
Abaixo inócuo confeito,
Volátil discurso vão!

Quero fazer redondilhas,
Versos-monte fervorosos!
Não dizer, mas fazer Ilhas-
Vida em mares estrondosos!

—Todo o de essencial perdido
Em seu arregrar trivial,
Talhe bidimencional.
Rudo cismo: que sentido

Têm as palavras ao léu?
Que sentir, sentido, efeito;
De que me és de proveito
Folha chata de papel?

Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 29 de setembro de 2009



UMA LENDA QUÍMICA


Nos manuais químicos dum laboratório
um Cloreto de Hidrogênio apaixonou-se
um dia
exotermicamente
por uma base.
Vislumbrou-a com seu olhar abrasivo
de uma reação reversível:
uma figura iônica;
olhos 2 molar, boca dativa,
corpo isobárico, seios em suspensão aquosa.
Fez da sua uma vida
à dela eletropositiva,
até que se encontraram
numa solução.
“Quem és tu?” —indagou ele
em precipitado.
“Sou filha de um Alcalino, e neta do Oxigênio.
Mas pode me chamar Hidroxila, de Sódio”.
E de falarem descobriram que eram
altamente reagentes.
E assim se amaram
num ciclo de oxi-redução
oxidando
ao léu da temperatura
e da pressão
metais, não-metais, semi-metais
por entre as colunas da Tabela Periódica.
Escandalizaram os ortodoxos
e desbancaram Lavoisier;
desmoralizaram Clayperon
e a relação de PVT.
Enfim resolveram atingir um equilíbrio,
constituir uma família,
uma família de gases nobres!
De nobreza nada tinham;
nem um tio Xenônio,
nem um primo Hélio...
Mas o produto que tiveram
foi mais venturoso
e providencial:
no bojo dum erlenmeyer
com rendimento cem por cento
nasceram
Água e Sal.

Marcos Satoru Kawanami

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domingo, 27 de setembro de 2009


PÉ FRIO

(ficção total)

Os sapatos vou pôr na geladeira;
explico: sempre fui muito azarado,
pois logo que nasci me foi cortado,
além do umbigo, um membro por cegueira

ou descuido ou maldade da parteira,
sei lá!; só sei que agora, mutilado,
avexo-me de só mijar sentado,
pois do contrário encharco a calça inteira...

Por conta desse corte fui cortado
de fazer na Marinha uma carreira,
nem ganhei a patente de soldado.

De Vênus não desfruto nem que queira
um beijo. Sou pé frio, e, conformado,
os sapatos vou pôr na geladeira!

Marcos Satoru Kawanami

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sábado, 26 de setembro de 2009














ENQUETE






Inteligência é importante?

Quando queres um amigo, este deve ser inteligente?

Eu tive um cachorrinho chamado Noel, que foi o cão mais burro que conheci, mas foi quem me amou com mais sem-amor-à-própria-vida, entende?

É um cachorrinho chamado Noel ou são pessoas inteligentes que projetam artefatos de guerra?

Os benefício da Ciência compensam o Paraíso perdido?


Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 22 de setembro de 2009





ARTE METAFÍSICA


Estranha arte é esta de escrever...
Sem pincel, sem cinzel a obra cresce
e toma forma, e nem forma carece
para que a outrem venha a entreter!

Um papel sujo basta ao seu mister,
um papel que no lixo alguém esquece...
Na folha rota que o desdém merece,
é nela que o poema vai nascer.

Poesia, prima-irmã da Matemática
que no papel também faz teorema,
tem ela sempre musa mais simpática.

Seguem Música e Dança o mesmo esquema,
brotando da sublime e etérea prática
qual do nada também brota um poema.

Marcos Satoru Kawanami

.........
Teorema da impressão que se tem de um ângulo quando visto sob determinada inclinação:  http://memoriasdaliravelha.blogspot.com/2011/08/corintiano-maloqueiro-e-sofredor.html



sexta-feira, 18 de setembro de 2009












DESPOETIZANDO


a Bocage







Quem pensa que o Poeta é diferente
só porque faz do Verso a sua saga,
esquece que o Poeta peida e caga,
e assim a rima estraga, inconseqüente!

Mentira que o Poeta sempre mente
e, em brancas nuvens, vive e só divaga…
Poeta, se tem renda, o Imposto paga;
e é da Urbe, da Roça e do Presente.

O ofício de escrever é dom mesquinho,
mais vale um Albert Einstein que um Cervantes;
junto a Newton, Pessoa é tão tolinho…

Nos dias atuais ou mesmo antes,
não transcende o Poeta o seu vizinho:
ou é inócuo, ou irrelevante…

Marcos Satoru Kawanami


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quinta-feira, 17 de setembro de 2009



ORAÇÃO


Serena alegria é ouvir Vosso eloqüente
e impassível silêncio,
que ensinou-me na primeira infância
a conversar com os seres mudos do milagre
da Criação.

Por meio deles, meu Deus, Vós me ensinastes
a constante oração que nada pede,
a qual o Cristo pôs em palavras
dando “a César o que é de César,
e a Deus o que é de Deus”.

Só faz sentido pedir a boaventura
da Fé,
razão de ser Humano.

Marcos Satoru Kawanami

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terça-feira, 15 de setembro de 2009











NAVIO


a Camões





Este que os mares singra com pujança,
vaga de continente a continente
a levar para sempre um bem ausente,
a trazer o imigrante e a esperança.

Com coragem viril ao léu se lança
da fortuna até mesmo imprevidente
que, por vezes, não sai impunemente,
a soçobrar qual sonhos de criança...

Navio ou belonave, embarcação
que rasga com o peito despojado
o líquido da vida ou perdição,

carregou, no seu ventre, do passado
os astronautas sem hesitação
"em perigos e guerras esforçados".

Marcos Satoru Kawanami

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009








ATAVISMO




Não se incomode, Euclides, por ser corno;
predicados havia na tal Ana
raros em toda a fauna americana:
mais que a vaca, era boa de contorno.

Qual ninguém, pilotava bem um forno;
podia ser gazela da savana,
contudo, se ao chifrar-lhe, foi sacana:
o chifre ela lhe deu foi por adorno.

Veja bem, você foi da Academia;
pois, isso basta, vale mais que tudo!,
não vá se ater com reles ninharia.

Se seu filho também sucumbiu mudo
tentando a vil vingança, a pontaria
demonstra o atavismo em ser cornudo.

Marcos Satoru Kawanami

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sábado, 5 de setembro de 2009










FRACTAL

- soneto em alexandrinos -






A forma está presente em toda a natureza…;
inútil refutar tamanha onipresença,
meu caro modernista afeito à desavença,
que empunha o gládio em vez da lira (com certeza).

Poeta, no pós-tudo, até sem ter destreza
na rima amor com flor, e ninguém há que vença
ensinar-lhe o valor da antiga e firme crença
que o esmero, ao divinal fitar, propõe beleza.

A prova aí está, desponta na ciência
vitaminada, além ultra, que é chic e tal
— o zelo da razão é paz, sem penitência…

Em um minério ou bem em plantas de quintal,
em um soneto ou bem na gênese da essência:
a forma lá está, na equação de um Fractal.

Marcos Satoru Kawanami



ACCORDO ORTHOGRAPHICO

Cu não tem acento, mas o meu cu tem assento.
Marcos Satoru Kawanami
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

MARINA SILVA - pra presidenta!



Marina, morena Marina
se candidatou
Marina, você faça tudo
mas faça o favor

Não ganhe esse posto que eu gosto
que eu gosto e que é só meu

Marina, você foi ministra
e deu no que deu

Me comprometi com a Dilma
e não posso falhar

Eu vou arranjar um negócio
procê se arrumar

Eu já prometi tanta coisa
que mais uma não me faz mal

Se você desiste, Marina,
te dou o pré-sal

Pré-sal pra você...
pré-sal pra você...

Paulo Moreira

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terça-feira, 25 de agosto de 2009



AMOR DE FRUTA


Os brutos também amam foi estória
que fez muito sucesso pelo mundo;
da sala do cinema lá no fundo
o beijo celebrado hauria glória.

Merecem ter, do Amor, todos vitória...,
assim sonhou algum meditabundo;
mas ocorre é que o peito vagabundo
acaba da sarjeta sendo a escória.

Até os brutos foram contemplados,
merecendo da Arte piedade
para em sonho, talvez, serem amados.

Mas tem do Amor também sua amizade
a rapariga da triste labuta,
a qual não menos ama, sendo fruta.

Marcos Satoru Kawanami

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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ESCOLA

Rostos risonhos, sonhos juvenis;
fraternidade, amor, palpita a vida,
a vida que começa a ser vivida,
a vida que só sabe ser feliz.

Almas atentas ao que o mestre diz,
que diz como quem canta em sua lida;
em cada aluno, a sorte prometida;
e o mestre, além de mestre: um aprendiz!

Um ar de baile espraia melodia
volátil, que veloz logo se evola
como o fresco sereno ao vir do dia.

E, a cada dia, o Sol, celeste bola,
compartilha do gozo, da alegria,
que impera e se renova em cada escola.

Marcos Satoru Kawanami

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sábado, 8 de agosto de 2009




O BEIJO


O meu amor é coisa indefinida:
existe dentro em mim um sentimento
que oscila entre o riso e o lamento
ao compasso do pêndulo da vida.

Em tudo quanto vejo ou invento,
sempre a ternura se me faz sentida;
assim, amo a chegada e a partida,
amo a carne e o casto pensamento.

Por tudo que acontece sem razão,
ou talvez pela extrema solidão
que me faz desviar do senso reto,

em uma noite quente de verão,
o cúmulo senti do meu afeto:
enterneceu-me o beijo de um inseto!

Nhandeara, 19 de outubro de 2001
Marcos Satoru Kawanami

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domingo, 2 de agosto de 2009



Minha Nora Vidente


Achei, de minha parte, coisa boa
os zelos e cuidados que agora
ao meu filho dispensa minha nora,
a qual varre, cozinha, e ensaboa.

Pois, antes, nem sequer mesquinha broa
degustava meu filho ao vir da aurora,
moído a sustentar a tal senhora
que ao banho não se dava, tão à toa...

Hoje em dia, meu filho passa bem:
a mulher tomou viço e se perfuma,
cuida do lar com ânimo também!

Mas a transformação se deu, em suma,
depois que um “anjo” lá chegou —de trem—
por benzer as mulheres, uma a uma!

Marcos Satoru Kawanami
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sábado, 1 de agosto de 2009








SAUDADE


"Saudade é o sentimento que fica daquilo que não ficou."
(Luciane)




De todas que me beijaram,
de todas que me abraçaram
já não me lembro nem sei...
São tantas que me amaram,
são tantas que eu amei.
Mas tu, meu rude contraste,
tu, que jamais me beijaste,
tu, que jamais abracei,
só tu nesta alma ficaste
de todas que eu amei!

(autor desconhecido)

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quinta-feira, 30 de julho de 2009








POEMA NADA ORIGINAL





É o lápis que escreve?
Ou é minha mão que escreve?
Ou é o lápis e minha mão que escrevem?
Ou sou eu quem escrevo?
Ou são os que me geraram que escrevem por meio de mim?
Ou é a proteína primeira que escreve?
A poesia não é fruto meu.
E estes versos só têm de original o impulso original
do Movimento Primeiro;
o resto é conseqüência: tudo,
até os sentimentos.
Não existe o “Humano, Demasiado Humano”.
Mas, realmente, o Livre Arbítrio é uma pilhéria!


Nhandeara, 8 de maio de 2002
Marcos Satoru Kawanami
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terça-feira, 28 de julho de 2009

A pintura ao lado é de Artêmio Fonseca de Carvalho Filho (Temito), que já seria O CARA de sua geração se conseguisse mover os dedos das mãos...; mas Temito é tetraplégico, e, mesmo contando só com o impreciso movimento dos braços, ele faz isto que os amigos podem ver.






Sites do Artêmio:
http://www.arte4fun.hpg.com.br/home.html
http://www.artemiodesign.hpg.ig.com.br/index.html


A VIDA NÃO É FILME
ao amigo de minha infância, o pintor Artêmio Fonseca de Carvalho Filho

Quitou-me o romantismo esta verdade:
—A vida não é filme nem romance!—
Incauto o adolescente que se lance
a dar vaza ao Amor em tenra idade…

Mais vale bem-querer Sobriedade,
casta lira impassível ao alcance
da cupidez mundana que lhe avance
no esplendor da virgínea mocidade.

Não à toa os antigos, por costume,
prezavam a senil opinião,
que vivência e razão enfim resume.

Amor? Existe. Longe da paixão,
do romantismo e do carnal betume:
—Conjugo o verbo amar, sem transição.

Marcos Satoru Kawanami
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segunda-feira, 13 de julho de 2009

À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA

“No princípio, era o Verbo”, e o Verbo amava,
e, para amar, deu vida à criatura.
Porque ser Deus, ser Deus não Lhe bastava,
determinou a Redenção futura.

Javé, que sempre o povo Seu guiava,
sendo Senhor, desceu de tal postura
de fria impavidez que o amargurava,
pois Deus quis ser PAI, e pai de ternura.

Mas só ser pai não Lhe bastou, ainda
quis ser IRMÃO, e Se entregar exangue
nas mãos sem nexo de sinédria gangue.

E, para ser irmão, na Sua vinda,
o bom Deus recorreu à poesia:
foi FILHO de uma virgem mãe, Maria.

Marcos Satoru Kawanami
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terça-feira, 7 de julho de 2009

i'm not dog no!



SONETO AO CACHORRO

É o Cão, do Homem, seu melhor amigo,
conforme reza o velho e bom ditado;
quem nunca nesta vida foi amado
dará valor a tudo quanto digo.

O Cão nem mesmo tem aquele umbigo
egoísta pra ser idolatrado,
enquanto o ser humano, do pecado
escravo, do egoísmo herda castigo.

Xingando uma mulher, dizem: “Cadela!”;
ofensa muito rude para ela,
a Cadela, mulher casta do Cão,

um bicho que, sem ter nem mesmo mão,
o asseio preza, nos deixando à míngua
quando se limpa com a própria língua!

Marcos Satoru Kawanami
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sexta-feira, 3 de julho de 2009









Soneto de Santos Dumont


No alegre turbilhão da juventude,
no esplendor do motor por explosão,
em meio de projetos a efusão,
criar o aeroplano então eu pude.

Crente no ser humano, na virtude,
tudo era festa!, tudo empolgação,
“belle époque”..., ninguém pensava não
que Marte conspirava oculto e rude.

Veio a guerra, o carrasco do progresso?;
talvez não, pois usou-se o aeroplano:
não o inventasse, agora triste eu peço!

Somente o ser humano é desumano...,
e, assim, por suicida eu quis ingresso
na morte-símbolo do ser humano.

Marcos Satoru Kawanami

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quinta-feira, 2 de julho de 2009



NONSENSE 2


Sim, nós podemos!... e de mãos dadas venceremos a crise teologicocosmogônica planetária do amor ventríloquo, pois, se todos os seres humanos da Terra se derem as mãos numa corrente orbital, será que algum vivente ainda vai dar conta de se patolar?


Hilda Hilst Érica

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quarta-feira, 1 de julho de 2009






WE?


Lonelyness is a so natural state
of any living matter you will find;
’cause when I was a child, now I remind
myself: I was alone, that was my hate!

I had a mother, a father, a faith,
and the true love of my sister, so kind...
come from the very equal flesh of mine,
and, yet, I was I behind the soul’s gate!

Now, where’s my faith, my sister, where am I?
in this spinning sphere which just says good bye
to teach us good bye, to teach us to pass...

As our life goes too fast, we’re lonely as
the fast spaceship that goes faster as far
it is from us, from the Origin we are!

Marcos Satoru Kawanami

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----------> ILUSTRAÇÃO: pintura de Edward Hopper
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terça-feira, 30 de junho de 2009


NONSENSE 1

Aí, eu misturei tudo no liquidificador, e tomei com gasolina. Mas foi o quentão da festa junina é que me deu aquela hemorróida, a qual eu soquei logo pra dentro com o consolo de pau da minha avó.


Pior que isso, só "jornalismo sério, imparcial e competente".
Ah, tio, vai cagá, ô!

Bando de mercenário! Bando de mafioso!



Chica dos Prazeres Aquino Rêgo
(minha porção mulher, e mulher homossexual)

mulher homossexual = SAPATÃO, para quem não captara a perspicácia da colocação; mas isso não significa que eu ande colocando por aí.


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sexta-feira, 26 de junho de 2009











SONETO À SOGRA
"Eu amo a sogra da minha mulher!"
(Dicró)


Quem ama a mãe da esposa é destinado
a ter segunda mãe no casamento,
cujo desvelo afável faz momentos
de eternidade, eternos, conjugados.

Caminha o marido lado a lado
com os pais do querido complemento;
quem quer dessa família estar isento,
não pode ter seu próprio clã honrado.

Ser mãe de um ser amado é dom divino,
se santo é o próprio Amor que nos dá a Vida
que vem da Virgem Mãe do Céu querida.

Portanto, aqui redijo um ledo hino,
se tal louvor subido um genro logra
expondo como é bom amar a sogra.

Marcos Satoru Kawanami

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Velho Tema I








Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.


Vicente de Carvalho
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terça-feira, 16 de junho de 2009










SONETO SHOELESS

ao Glauco Mattoso

No afã de superar minhas manias
de símio faniquítico cristão,
adotei como pai o velho Adão,
e fui circuncidar tudo o que eu via.

Eu quis Raquel, porém casei com Lia,
e ainda de pastor servi Labão;
topei com boi chifrudo em contra-mão,
lançando as bases da Cornogonia…

Corinthiano sou, e não santista,
porque não vi jogar o rei Pelé
que teria me feito um vitorista!

Eu gosto de louvar mesmo é o Mané,
o sumo do resumo idealista,
eu gosto é de mulher que tem chulé!


Marcos Satoru Kawanami
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segunda-feira, 15 de junho de 2009









A POESIA










Após disposto o mundo, o infinito,
Logo o Senhor pensou na Poesia;
E foi Ele o primeiro, em harmonia,
Que escreveu o poema mais bonito!

Pôs-lhe o nome de “Amor – Amor bendito –
Fez-lhe um hino de encanto, a melodia
Que ainda canta hoje a cotovia…
E aos Anjos ensinou-lhes som e rito!

Houve festa no Céu, cânticos ternos!
Inspirados, suaves e fraternos
Na voz dos Anjos, santos e profetas!

E foi desde essa hora, sublimada,
Que Deus deixou a lira consagrada
No coração e alma dos Poetas!

Clarisse Barata Sanches

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