domingo, 15 de janeiro de 2017

BOQUEJAR


BOQUEJAR

— Eu acho que é mentira que é verdade,
ou, pior, que é verdade que é mentira
a prosa da comadre Arminda Elvira,
que é só quem te defende na cidade! —

Mulher, quando boqueja, põe vontade,
e eu sempre da patroa estou na mira
ouvindo tudo quanto ela delira
no doce lar da nossa intimidade.

Mas me ofende de modo tão mimoso,
que eu acho que é com gosto que ela o faz,
expressão de um amor mais caloroso:

Exaltada epopeia de Luís Vaz,
esbraveja em estilo grandioso,
enquanto um tácito soneto jaz.



Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

GOOGLE IMAGES

Dercy Gonçalves *1907+2008

GOOGLE IMAGES

Em fotos velhas, vejo gente nova,
gente que agora é velha ou já morreu
(e, nisso, o Imagens Google é museu),
o tempo passa, e nos escracha a prova.

A primeira impressão fica na trova,
o amor, ao procriar-nos, leva o seu,
e, a foder-se, é que sempre se fodeu,
pois primeira impressão é uma ova!

Não há verdade em uma bela estampa,
há uma ilusão com toques de magia,
é caixa de bombom que se destampa.

E a caixa de bombom fica vazia,
e aquela bombonzada vira trampa,
por conta do que foi fotografia.


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 7 de janeiro de 2017

PRISÃO DE VENTO


PRISÃO DE VENTO

Em meio ao meu barulho interior,
lá fora nada, nada, nada, nada,
e escuridão, que até alma penada
omite-se, o vazio lhe dá pavor.

Não tarda a morte, chego eu a supor
em ânsia derradeira; a madrugada
ergue sanguíneos dedos de alvorada
alcançando o meu último estupor.

Porém, golfando, espirro uma aspirina
nos olhos do doutor já sonolento,
que acorda dando viva à Medicina.

Por pouco vou-me à cova, e não aguento
lembrar que até um padre de batina
via eu morrer só de prisão de vento!



Marcos Satoru Kawanami

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

AOS ANJOS


Cândido Portinari - chorinho - 1942

AOS ANJOS

Quem me dera escrever desta maneira
e todos entendendo o que ora escrevo,
acima das fronteiras, do relevo
linguístico que impõe tosca barreira.

Porém é tão canora a brasileira
linguagem portuguesa, que me atrevo
a procurar mover tamanho enlevo
que ler em português o mundo queira.

E, quando céus e terra enfim passarem,
pereça com o mundo o que é tristeza
de modo a nem de leve a recordarem.

Pereçam a feiura e a beleza,
só reste a perfeição, mas, ao cantarem,
cantem, anjos, em língua portuguesa!


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 17 de dezembro de 2016

CONTRA AZIA E MÁ DIGESTÃO


CONTRA AZIA E MÁ DIGESTÃO

Coisas coisais, nenhuma coisa vária
além do que é coisal, terreno e plano,
indicam sem querer e sem engano
engrenagens do tipo a planetária.

Bastasse a vida ser protozoária
a fim de um milagroso e sobre-humano
teatro descerrar do palco o pano,
mas isso vai conforme a faixa etária.

O muito especular convém de menos,
o muito contemplar convém demais,
mas quem sai sem chapéu toma sereno.

E às vezes um terceto é merchandise:
contra azia, só sal de fruta Eno,
que é mais sal e mais fruta que outros sais.


Marcos Satoru Kawanami

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Tia Kinóris

Tia Kinóris: tem cabelo no peito, fuma charuto,
bebe chumbo derretido, e cospe bala de canhão.



TIA KINÓRIS

O sol da meia-noite não é nada
se comparado ao breu do meio-dia,
declara sobriamente minha tia,
a qual voltou do norte sequelada.

Tia Kinóris foi muito agitada
no tempo em que primeiro aqui vivia,
agora não, pois fez lobotomia,
ficou boba, mas deu uma centrada.

E sol à meia-noite é mesmo chato,
mas breu ao meio-dia é uma morte,
o provérbio parece bem sensato.

Até que minha tia teve sorte,
pois vê-la prosear é o mor barato,
porém tenho evitado o rumo norte...


Marcos Satoru Kawanami


domingo, 11 de dezembro de 2016

ZEITGEIST


ZEITGEIST

Entre cifras, cifrinhas e cifrões
a contabilidade vai contando,
a vida desencanta descantando,
e, num vazio, transbordam os chavões.

Agora contam anos aos bilhões,
mas, em verdade, o tempo, escasseando,
mais célere a correr vai olvidando
Petrarca, Homero, Dante, até Camões.

E, se a tecnologia se incrementa,
coloca a Humanidade em contramão
a estar de humanidade ela sedenta.

À beira da provável extinção,
se a humana evolução não se sustenta,
mais exubera em Cristo a salvação.


Marcos Satoru Kawanami

sábado, 10 de dezembro de 2016

CONTO DE FADA + LEI DE MURPHY


CONTO DE FADA + LEI DE MURPHY

Estando a ver navios, Cinderela
achou de pela sorte ser achada
no meio do gentil conto de fada
que em muito favorece a tal donzela.

O mundo de repente desfivela
sorrisos de uma noite enluarada,
e a serva ora servida e contemplada
sorri de volta à noite, que é só dela.

Mas, mudando de pau para piroca,
seu mundo volta a ser aquele porre
de indigência, que tanto a dor evoca.

A fada vem de novo, e a socorre:
transforma seu o.b. em uma foca,
que explode-lhe a boceta, e ela morre.


Marcos Satoru Kawanami



Piada que me foi contada, no tempo de escola, pela colega que se sentava na minha frente:
--- Como é que a Cinderela morreu?
--- Não sei.
--- O o.b. dela virou uma abóbora!

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

CRONOLOGIA


CRONOLOGIA

Memória de um passado sem futuro,
agora, no futuro, o meu passado
procura de si mesmo o olvidado
pretérito imperfeito tão obscuro.

A cada instante, eu mais não sou, mas juro:
jurar transgride em muito o combinado,
porém deixo de estar onde hei estado,
a cada instante, e entanto me procuro.

Procuro, procurei, e procurava,
o fluxo ininterrupto nos ilude
que o presente não passa nem passava.

E, estando no passado, eu amiúde
o presente futuro imaginava,
fazendo futurismo enquanto pude.


Marcos Satoru Kawanami


segunda-feira, 25 de julho de 2016

MISTO QUENTE


MISTO QUENTE

Algum lugar pensado, inexistente,
existe na memória do que existo,
ainda que o lugar eu tenha visto
no tempo sem pensar de estar contente.

Sentido algum me diz que agora sente
aquele tal lugar que sinto, e, nisto,
o mundo quer mostrar-se como um misto
de hambúrguer e bauru, um misto quente.

Mas em qualquer lugar felicidade
constrói o pensamento quando pode,
e agora humor feliz é o que me invade.

Pois danço minha pena no pagode
escrito nestes versos à vontade,
enquanto um povo doido se sacode.


Marcos Satoru Kawanami