quinta-feira, 15 de março de 2018

PERSONA



persona

retrato da caveira, o raio x
revela o que uma foto não revela,
ali é feia a feia, é feia a bela,
mas do caráter mesmo nada diz.

ao dissecar um cérebro, o aprendiz
até pode encontrar uma sequela,
porém não vai saber se o dono dela
foi réu, foi promotor, ou foi juiz.

pois alma é que dá vida, ação, e fala;
na comunicação em ordem cênica,
o corpo é animado a revelá-la.

mas não revela, estando na ecumênica
reserva de pudor que não se abala,
mantendo a virgindade pouco higiênica.


marcos satoru kawanami

segunda-feira, 12 de março de 2018

VOLKANA

Volkana (Clerodendron fragrans)


VOLKANA

O mundo está perdido?, sei lá eu!,
perdido vem estado sempre..., tanto
que desde Adão conhece o mundo o pranto,
e jamais houve quem jamais sofreu.

Adão não faz sentido para o ateu,
mas vejo ateu sofrendo pelos cantos
que nem em penitência o maior santo
da mortificação se assim valeu.

Pois tome a sua cruz, quem crê ou não,
floresça em si com fé, sacra ou profana,
e que a cruz justifique suas mãos.

A cruz é dor sem alma, a torne humana
ao modo que a beleza no lixão
transforma o que é refugo em flor volkana.


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 11 de março de 2018

ARROMBARAM O CONGRESSO NACIONAL



arrombaram o congresso nacional

se algum puto fanático homicida
arrombar o congresso nacional,
bastante gente vai achar legal
na raiva tanto tempo reprimida.

alguém comentará logo em seguida
que tudo não passou de irracional
ação estapafúrdia em bananal
república sem jeito toda a vida.

por ordem e progresso, pela lei?,
mas política, desde a antiguidade,
é feita com me dá que eu te darei.

não quero desvaler a ingenuidade,
só dê poder a um homem, faça-o rei,
pra vê-lo tal qual é na realidade.


marcos satoru kawanami

sábado, 10 de março de 2018

FRAUTA RUDA



frauta ruda

existe no informal autonomia
sobre toda e qualquer formalidade,
do rei e do plebeu goza amizade
pois ambos se aliviam todo dia.

já o formal pressupõe isonomia,
padrão no trato, às vezes falsidade,
um bem que faz à boa urbanidade,
e aplaca a besta fera, a rebeldia.

mas, se o informal existe sem ajuda,
conforme vem talhado na indolência,
não tem muito recurso que o acuda.

enquanto que o formal prevê clemência
se acaso desafina a frauta ruda,
requinte de uma espécie à permanência.


marcos satoru kawanami

quinta-feira, 8 de março de 2018

FORMIGA TATEANTE



formiga tateante

— o valor absoluto dos objetos
depende, e, ao depender, não vale nada. —,
pensava uma formiga ensimesmada,
vasculhando no mato alguns dejetos.

a formiga notou que, nos afetos
pelas coisas, a gente — que piada! —
parece mesmo achar que eternizadas
serão as nossas coisas e projetos.

notou também, o inseto, que eu notava
seu solilóquio anônimo pensante,
então falou mais alto, um tanto brava:

— até uma formiga tateante
conhece o que ao humano humanizava,
que é pensar no absoluto a cada instante. —.


marcos satoru kawanami

terça-feira, 6 de março de 2018

ESTOICO



estoico

jejum, divina conexão da fome,
estranha afirmação que ao corpo nega
o estado natural de besta cega
que em ânsias dos instintos se consome.

difícil conseguir que a alma dome
as coisas da matéria, à qual se apega
por costume do corpo, seu colega,
seu amigo e rival de mesmo nome.

buscar o que é do alto é alpinismo
com muito pé no chão, esforço heroico
que vê, ao mais subir, maior abismo.

vertigem de inalar vapor benzoico
impõe-me a disciplina quando cismo
que bom é me ferrar, mas ser estoico.


marcos satoru kawanami

domingo, 4 de março de 2018

ENGRENAGEM HOROLÓGICA



engrenagem horológica

o mundo oscila entre matéria e luz
conforme pelo tempo vai andando
ao modo de engrenagem, que vibrando
na mínima amplitude se conduz.

matéria-não-matéria a qual produz
a passagem do tempo agora e quando
permite o movimento, compassando
tudo que à cinemática seduz.

o belo vem do belo desde a essência,
a vida vem da vida, e vêm os atos
de um ato que aos demais tem precedência.

a escrita guarda a história em seus relatos
seguindo pelo tempo uma sequência
que oscila, vão e vêm também seus fatos.


marcos satoru kawanami


sexta-feira, 2 de março de 2018

ATUAL CONJUNTURA

link: o samba do crioulo doido

atual conjuntura

propenso a não pensar na conjuntura
do mundo, para a qual não há potência
nem ato em minha reles contingência
que possa transcender a razão pura,

eu acho que é melhor, à essa altura,
ficar sem achar nada, e, com prudência,
cagar para os arautos da ciência,
talvez nem mais fazer literatura.

porém, se o mundo inteiro der-se as mãos,
ninguém conseguirá puxar gatilho,
a força do indivíduo é a união.

só que não. decadência é nosso trilho
traçado na tragédia desde Adão
até que volte o Pai que se fez Filho.


marcos satoru kawanami



ilustração: pintura de Artêmio Fonseca de Carvalho Filho


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

TEQUILA!


tequila!

infância, pirilampo que cintila:
acende, apaga, acende, apaga, avoa,
um rastro luminoso à noite à toa,
um astro refletido nas pupilas.

cachaça, quando a cana se destila:
apaga, apaga, apaga, apaga, entoa
um samba que dos bêbados caçoa
num verso que gargalha e diz: tequila!

palavras desconexas embaralham
o nexo do que vai supra versado
a fim de que estes versos nada valham.

mas, “se saiu de dentro...”, foi cagado!,
e é cada cagalhão que agora encalham
enquanto já me sento ali veado.


marcos satoru kawanami


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

LEDO LÍRIO


ledo lírio

há dias tenho febre e nada como,
guardado no meu claustro de abandono,
e penso que morri durante o sono,
sonhando entre o cipreste e o cinamomo.

deliro, delirando provo o pomo
dulcíssimo da morte, e a morte entrono
flertando com o mal, porém meu dono
restaura-me no bem, pois ecce homo.

não faz sentido algum morrer assim,
pecando mesmo até num vão delírio,
findando em desrazão ao ter um fim.

então, a Cristo entrego o ledo lírio
da vida que não mais pertence a mim,
querendo o abraço amigo do martírio.


marcos satoru kawanami