terça-feira, 12 de dezembro de 2017

sirenes



sirenes

distante, bem distante das distâncias;
acerca, bem acerca do que é vago;
fluente, mais fluente do que um gago
abunda em relutantes redundâncias.

sirenes retumbantes de ambulâncias,
perene mal, perene e sem afago
afogo em destilado neste trago,
soleira do sapé das mendicâncias.

eu cago, cagas tu e o mundo todo
na porta vicinal, que coisa linda!:
afaga-nos um mar de merda e lodo.

a detergente luz será bem-vinda,
limpando com vassoura, escova e rodo
o perecível mal, perene ainda.


marcos satoru kawanami



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

porque consegue

Sarau (1880) - Columbano Bordalo Pinheiro


porque consegue

maria ferveu água para o chá.
jacob, não encontrando o bandolim,
pegou o cavaquinho, e fez plim-plim
na sala da casinha de sinhá.

foi quando lá cheguei, e cheguei lá
porque não vim de lá, de lá não vim;
a paz não tem começo nem tem fim
nesta terra onde canta o sabiá.

onde a cantar também assaz me obrigo,
torrando a caçoleta feito um jegue
trotando no sol quente, sem abrigo.

se a paz daquela casa é flor que eu regue,
degusto a alheia paz porque consigo,
cachorro lambe o cu porque consegue.


marcos satoru kawanami



domingo, 10 de dezembro de 2017

sempre inexistido



sempre inexistido

amor, felicidade, a peremptória
vontade derradeira dos viventes,
o medo de supor estar-se ausente
transita pelas mentes transitórias.

derrotas contumazes, vãs vitórias
parecem nunca ser suficientes,
e morre a humanidade descontente,
fazendo vista cega à sacra história.

mas não façamos nós ouvidos moucos,
se somos da razão favorecidos,
se ainda não estamos todos loucos.

notemos neste mundo decaído
que o que eterno não é é sempre pouco,
é a nulidade, o sempre inexistido.


marcos satoru kawanami


sábado, 9 de dezembro de 2017

O PARTO



O PARTO

De que poema vi nascer, um dia,
a musa que abstraiu-me para si?,
de que poema que eu não escrevi?,
mas no qual a escrevê-lo ela me urgia.

Dizendo assim, parece poesia
— acaso é mesmo o que se assenta aqui —,
mas o efeito de muita parati
resulta em fato que eu desprevenia.

Resulta num poema à musa antiga
que dele vem nascendo até agora,
e, a fim de o escrever, foi minha amiga.

No próprio nascimento colabora
a musa, que, ao nascer, inda me obriga
a um derradeiro verso, e vai embora.


Marcos Satoru Kawanami



obs: parati é sinônimo de cachaça; a cidade de Parati é um importante polo produtor da bebida desde o tempo do Brasil colônia.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Guerra de Canudos - filme de Sérgio Resende - elenco: José Wilker, Marieta Severo, Paulo Betti, Cláudia Abreu, Tonico Pereira, José de Abreu, Selton Mello, Roberto Bomtempo, Tuca Andrada - soneto: RESISTÊNCIA

Filme: link


RESISTÊNCIA

Antônio Conselheiro, a monarquia
talvez mereça mesmo ser louvada
governo após governo, pois, a cada
governo, esta república é sombria.

Com fé, com resistência, conduzias
aquela gente heroica relembrada
nos versos que ora escrevo, na jornada
errante da nação dos hoje em dia.

Canudos não rendeu-se, resistiu
até ser devorada pela morte,
até tombar seu último fuzil.

De modo que o arraial ainda é forte,
resiste com bravura ao fogo hostil,
resiste até que achemos melhor sorte.


Marcos Satoru Kawanami


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PLANETA D+



planeta D+

legal, maneiro, giro, bem D+,
sinistro, cabuloso o instante agora
parece que foi ontem, muito embora
existam outros tempos ancestrais.

liberto, a navegar de cais em cais,
o espírito do tempo ainda chora
na transitoriedade lá de fora
do jeito que choravam nossos pais.

do jeito que sorriam os primatas
que estão a nos sorrir, legal, maneiro,
D+, sinistro, giro, cabuloso.

tentando equilibrar-se sobre as patas,
o bípede primata é estrangeiro
no cais deste planeta fabuloso.


marcos satoru kawanami


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Grêmio 1 x 0 Lanús - Copa Libertadores da América - jogo do dia 22 de novembro de 2017 em Porto Alegre



Grêmio 1 x 0 Lanús

O gol, quando não sai, é zero a zero,
mas zero a zero é nota e não placar,
dizia um entendido ao expressar
a sua opinião sem lero-lero.

Vencer por placar mínimo (um a zero)
então é goleada de lavar
a égua, e tanta festa há de espantar
um sócio do gramado: o quero-quero.

Assim, o Grêmio vence o tal Lanús,
fazendo a alegria da galera,
fazendo o Porto Alegre e mais feliz.

Ao jogo, esse placar fez mesmo jus,
pois quase que o Galvão fica uma fera
por conta do estrabismo do juiz...


Marcos Satoru Kawanami


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

gol de bunda


gol de bunda

nas coisas mais ou menos há bom uso
da graça do improviso funcional:
um verso pé quebrado ou coisa e tal,
um prego no lugar de um parafuso,

a explícita presença do confuso,
a má compreensão que não faz mal,
a prova que não é prova cabal,
o meia boca agudo em sendo obtuso,

o duvidoso que por fim dá certo,
sabença na cegueira mais profunda
do bobo que demonstra ser esperto,

esta alegria que nos sempre inunda
ainda que a sofrência esteja perto,
um gol de placa, mas... um gol de bunda.


marcos satoru kawanami


terça-feira, 21 de novembro de 2017

o vento


o vento

nos planos de papel, bateu um vento,
um vento forte, o vento do destino,
devido ao qual somente agora atino
que muita vez é vão planejamento.

das coisas que tentei, enfim, atento
que desde a madrugada ao sol a pino
somente o incogitado é o que ora assino
e reconheço ser de bom intento.

bendito vento, santa mão do céu;
contrariando-me, o melhor se fez
melhor que aqueles planos de papel.

de modo que agradeço toda vez
se um vento sobre mim depõe seu véu
de proteção tocando minha tez.


marcos satoru Kawanami


sábado, 18 de novembro de 2017

A FEDELHA


A FEDELHA

Fedelha afeiçoada a um bom conflito,
a filha de seu pai, que a desconhece,
inspira muita gente a fazer prece,
inspira este soneto, em que reflito.

Esmera-se em no mal fazer bonito,
quer ser o espeto em tudo que acontece,
pois ela está sozinha, e grande é a messe,
faz arte pela arte..., entanto a imito(?).

Fedelho que já fui feliz um dia,
agora só contemplo o refinado
bom gosto do mau gosto com saudade.

No tempo em que escrever eu não sabia,
melhor talvez teria sonetado,
com menos rima rica, e mais verdade.


Marcos Satoru Kawanami