sábado, 23 de junho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 1



Capítulo 1

         Peido, se eu encontrar cheiro melhor aviso; por enquanto é o meu peido.
         O peido pressupõe que a pessoa esteja alimentada, isso é bom. O peido pressupõe que a pessoa esteja à vontade, isso também é bom. E o peido sai de dentro, como a poesia. Quem não gosta do próprio peido talvez nunca se atreva a escrever poema, ou, se escreve, não gosta.
         Peido alheio, porém, não me agrada, ainda que eu goste de poema alheio, de maneira que, pensando melhor, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
         O fato é que, quando a conheci, Cunegundes peidou, e eu gostei; fui otimista com ela, como costumo ser otimista com a escatologia teológica. O peido de Cunegundes foi divino, foi o único peido alheio que amei. Casei-me com ela!
         O casamento depende bastante dos peidos conjugais, quem já se casou sabe. Casamento é um cheirando o peido do outro até o fim, mesmo que termine antes do fim. No quesito peido, fui feliz no casamento.
         Meu otimismo confirmou-se, Cunegundes era uma mulher à frente de seu tempo: ao ter nosso primeiro filho, exigiu parto normal; e assim foi com todos os vinte e cinco filhos e filhas que tivemos. Veio a falecer no último parto, que só foi o último porque ela morreu. Não pudemos mais ter filhos, nem filhas. Mas nosso amor é eterno, e mantenho a chama dele acesa com um celibato de adolescente nerd, só que sem punheta.
         A vida é assim, não é?, a gente nasce, a gente vive, a gente morre. Contudo, se a morte faz parte da vida, a vida faz parte da morte. Sou otimista, no geral e no restrito também, mesmo quando o restrito restrinja qualquer otimismo possível e impossível. Pois tudo é possível para o impossível. E, uma vez que o impossível não é inenarrável, segue a narrativa.
         Da nossa prole, todos os vinte e cinco ainda vivem, e peidam. E peidam todos casados. Somando filhos e filhas, netos e netas, e toda a descendência que deles nasceu, acho que meu casamento tem causado um forte impacto ambiental, pois são cerca de mais ou menos sei lá quantos cus peidando mundo a fora.
         Voltemos à origem de tanto butano na atmosfera.
         “Sou bem-nascido. Menino, fui, como os demais, feliz.”, e, como Manuel Bandeira, fiz alguns versos, e os versos me fizeram a única coisa que sou.
         Casei-me muito cedo, tinha dezenove anos de idade, virgem como minha mulher, que tinha quatorze anos. Casar cedo é bom, evita que nos acostumemos com a vida de solteiro. Os padres que me desculpem.
         Tive muitos empregos, nenhuma profissão. Meus filhos já iam crescendo trabalhando, com poucos peidos de vida. Nunca parei de escrever, sempre em verso, aqui é que estou me abrindo a novas experiências, todo prosa.
         Sem profissão, após não parar em serviço algum, resolvi abrir meu próprio negócio, enchendo pneus com os peidos de minha lavra, modéstia à parte. Comecei de baixo, enchendo pneus de bicicleta, depois de motocicletas, carros, caminhões... Hoje, considero-me um bem-sucedido homem de negócio, pois ganho a vida enchendo pneus de avião com meu próprio negócio.
         Sempre fui honesto, jamais aceitei porra nenhuma pelo meu negócio, a não ser dinheiro. Na vida pública não me candidatei a nada, fui apenas representante de turma na escola. E, na vida púbica, só Cunegundes.
         Meus filhos, infelizmente, não tomaram gosto pela vocação familiar; fora o mais novo, todos estudaram e se tornaram professores da rede pública de ensino, são uns fodidos. É, a gente se aperta tanto pelos filhos para quê? Não espere gratidão de filho.
         Mas são honestos, isso é o que realmente importa; eduquei-os com rigor e carinho, mais rigor do que carinho: com amor. E quanto Cunegundes foi boa mãe! Ensinou os meninos a serem homens, e as meninas a serem mulheres. Ah, Cunegundes, sempre à frente do seu tempo!
         Cunegundes, aliás, trabalhou muito desde sempre, principalmente depois que eu abri meu negócio. Cozinhava ovo, repolho, feijão e joelho de porco para eu ter mais gás no serviço. Na hora de dormir, me entubava num botijão para armazenar os peidos da noite; era uma cientista, cabeça à frente de seu tempo, tenho dito.
         Quem me lê, talvez esteja se perguntando — Esse cara só peida e faz poesia?! — Mas, tem coisa melhor? O peido é música, a poesia é letra. O peido retumbante é a exclamação poética de um decassílabo heroico. O peido grosso acompanha um poema triste. O peido fino é a ironia do poeta. O peido silencioso são as reticências...
         Mudando de ares, o que é o perfume senão uma convenção? Quem duvida, pergunte a um cachorro cheirando o cu de outro cachorro. Eis um motivo a mais para que as convenções tenham seu valor. Já pensou? Já pensou os seres humanos cheirando o cu uns dos outros? Não dá, né? Convenhamos.
         Outrossim, mudando de pau pra cacete, quer me parecer que falo como se a boca fosse o cu. Tenho pouco estudo, mas tenho também a soberba de reconhecer que sou humilde, pois estou dizendo que sou ignorante. Ah? Não entendi o que eu disse. Mas saiu de dentro, e o que sai de dentro, se não é merda, é bom. Obviamente não concordará comigo quem tem prisão de ventre. Já vi gente morrer disso. Então viva a merda, pois cagar é mais do que saudável, é um alívio.
         Onde quero chegar com esta experiência em prosa? Não sei. Só sei que verifico pelo parágrafo anterior que boca pode fazer a vez de cu, mas cu não tem dente para fazer a vez de boca; mesmo uma boca banguela é mais que um cu; aliás, o cu é o fim da boca. Lição de anatomia.
         Estendendo o raciocínio, a pele dos lábios continua na pele do resto do corpo até a pele do cu; ou seja, a pele é continuação do intestino, e vice-versa. O pulmão aí está que não me deixa mentir.
         Cunegundes só teve partos normais, de maneira que todos os nossos filhos nasceram na merda. Não, paro aqui de falar como se a boca fosse o ânus.
         Nosso primeiro filho é filha, chama-se Ana Karenina; achei o nome chique, pois o descobri numa livraria, na capa de um livro; fui à livraria, inclusive, só para isso, achar o formoso nome de nosso primeiro rebento. Não fui nada original em ir à livraria escolher o nome, tivera a mesma ideia antes de mim um conhecido que batizou o filho com o nome de Édipo.
         Cunegundes gostou, e foi assim com todos os frutos de nosso amor: Ana Karenina, Erêndira, Brás Cubas, Madame Bovary, Olavo Bilac, Pinóquio, Augusto dos Anjos, Tieta... Apenas o caçula tem um nome bem diferente, pois deu-me desgosto devido à mãe morrer no parto; chama-se José.
         Este último, porém, é o que mais tem me consolado na viuvez com sua constante presença. Fez um puxadinho aqui em casa, e mora ele, sua esposa e mais sua vasta descendência que ele me deu para sustentar, pois sua esposa não tem mão, e ele resolveu se dedicar exclusivamente à causa ecológica, fiscalizando a Natureza.
         José empolgou-me com seu idealismo, e, há três anos, dei-lhe um livro sobre desenvolvimento autossustentável... Tomara que ele leia. Sou otimista.
         Otimismo é a base de tudo, no geral, de modo abrangente. Até o pessimista é otimista. Ao sair de casa o pessimista tem otimismo suficiente para crer que voltará vivo a casa, e, se for se suicidar, é mais otimista ainda. Pensa bem. É ou não é? Mais ou mesmo é medida de cu. Desculpa quem me lê, voltei de novo ao cu, ou melhor, ânus.
         Não acho que seja fixação. Acontece que canalizei minha vida para o brioco, pois é de lá que sai o meu ganha-pão digno enchendo pneu de avião com os flatos honestos do biodigestor humano criado por mim, que sou eu mesmo.
         Continuando o raciocínio, o uso racional do flato só se torna flato verídico após a introspecção furicular na realidade expiatória posterior à ingestão alimentar no biodigestor humano ou animal, uma vez que o ser humano é um animal mas nem todo animal é ser humano, e nem alguns seres humanos o são.
         Isto posto, ponho o resto.
         O resto, mas não o refugo. Muito pelo contrário, a história nem começou. O fim dos tempos, porém, uma hora há de vir; que venha logo; sou otimista.

quinta-feira, 15 de março de 2018

PERSONA



persona

retrato da caveira, o raio x
revela o que uma foto não revela,
ali é feia a feia, é feia a bela,
mas do caráter mesmo nada diz.

ao dissecar um cérebro, o aprendiz
até pode encontrar uma sequela,
porém não vai saber se o dono dela
foi réu, foi promotor, ou foi juiz.

pois alma é que dá vida, ação, e fala;
na comunicação em ordem cênica,
o corpo é animado a revelá-la.

mas não revela, estando na ecumênica
reserva de pudor que não se abala,
mantendo a virgindade pouco higiênica.


marcos satoru kawanami

segunda-feira, 12 de março de 2018

VOLKANA

Volkana (Clerodendron fragrans)


VOLKANA

O mundo está perdido?, sei lá eu!,
perdido vem estado sempre..., tanto
que desde Adão conhece o mundo o pranto,
e jamais houve quem jamais sofreu.

Adão não faz sentido para o ateu,
mas vejo ateu sofrendo pelos cantos
que nem em penitência o maior santo
da mortificação se assim valeu.

Pois tome a sua cruz, quem crê ou não,
floresça em si com fé, sacra ou profana,
e que a cruz justifique suas mãos.

A cruz é dor sem alma, a torne humana
ao modo que a beleza no lixão
transforma o que é refugo em flor volkana.


Marcos Satoru Kawanami

domingo, 11 de março de 2018

ARROMBARAM O CONGRESSO NACIONAL



arrombaram o congresso nacional

se algum puto fanático homicida
arrombar o congresso nacional,
bastante gente vai achar legal
na raiva tanto tempo reprimida.

alguém comentará logo em seguida
que tudo não passou de irracional
ação estapafúrdia em bananal
república sem jeito toda a vida.

por ordem e progresso, pela lei?,
mas política, desde a antiguidade,
é feita com me dá que eu te darei.

não quero desvaler a ingenuidade,
só dê poder a um homem, faça-o rei,
pra vê-lo tal qual é na realidade.


marcos satoru kawanami

sábado, 10 de março de 2018

FRAUTA RUDA



frauta ruda

existe no informal autonomia
sobre toda e qualquer formalidade,
do rei e do plebeu goza amizade
pois ambos se aliviam todo dia.

já o formal pressupõe isonomia,
padrão no trato, às vezes falsidade,
um bem que faz à boa urbanidade,
e aplaca a besta fera, a rebeldia.

mas, se o informal existe sem ajuda,
conforme vem talhado na indolência,
não tem muito recurso que o acuda.

enquanto que o formal prevê clemência
se acaso desafina a frauta ruda,
requinte de uma espécie à permanência.


marcos satoru kawanami

quinta-feira, 8 de março de 2018

FORMIGA TATEANTE



formiga tateante

— o valor absoluto dos objetos
depende, e, ao depender, não vale nada. —,
pensava uma formiga ensimesmada,
vasculhando no mato alguns dejetos.

a formiga notou que, nos afetos
pelas coisas, a gente — que piada! —
parece mesmo achar que eternizadas
serão as nossas coisas e projetos.

notou também, o inseto, que eu notava
seu solilóquio anônimo pensante,
então falou mais alto, um tanto brava:

— até uma formiga tateante
conhece o que ao humano humanizava,
que é pensar no absoluto a cada instante. —.


marcos satoru kawanami

terça-feira, 6 de março de 2018

ESTOICO



estoico

jejum, divina conexão da fome,
estranha afirmação que ao corpo nega
o estado natural de besta cega
que em ânsias dos instintos se consome.

difícil conseguir que a alma dome
as coisas da matéria, à qual se apega
por costume do corpo, seu colega,
seu amigo e rival de mesmo nome.

buscar o que é do alto é alpinismo
com muito pé no chão, esforço heroico
que vê, ao mais subir, maior abismo.

vertigem de inalar vapor benzoico
impõe-me a disciplina quando cismo
que bom é me ferrar, mas ser estoico.


marcos satoru kawanami

domingo, 4 de março de 2018

ENGRENAGEM HOROLÓGICA



engrenagem horológica

o mundo oscila entre matéria e luz
conforme pelo tempo vai andando
ao modo de engrenagem, que vibrando
na mínima amplitude se conduz.

matéria-não-matéria a qual produz
a passagem do tempo agora e quando
permite o movimento, compassando
tudo que à cinemática seduz.

o belo vem do belo desde a essência,
a vida vem da vida, e vêm os atos
de um ato que aos demais tem precedência.

a escrita guarda a história em seus relatos
seguindo pelo tempo uma sequência
que oscila, vão e vêm também seus fatos.


marcos satoru kawanami


sexta-feira, 2 de março de 2018

ATUAL CONJUNTURA

link: o samba do crioulo doido

atual conjuntura

propenso a não pensar na conjuntura
do mundo, para a qual não há potência
nem ato em minha reles contingência
que possa transcender a razão pura,

eu acho que é melhor, à essa altura,
ficar sem achar nada, e, com prudência,
cagar para os arautos da ciência,
talvez nem mais fazer literatura.

porém, se o mundo inteiro der-se as mãos,
ninguém conseguirá puxar gatilho,
a força do indivíduo é a união.

só que não. decadência é nosso trilho
traçado na tragédia desde Adão
até que volte o Pai que se fez Filho.


marcos satoru kawanami



ilustração: pintura de Artêmio Fonseca de Carvalho Filho


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

TEQUILA!


tequila!

infância, pirilampo que cintila:
acende, apaga, acende, apaga, avoa,
um rastro luminoso à noite à toa,
um astro refletido nas pupilas.

cachaça, quando a cana se destila:
apaga, apaga, apaga, apaga, entoa
um samba que dos bêbados caçoa
num verso que gargalha e diz: tequila!

palavras desconexas embaralham
o nexo do que vai supra versado
a fim de que estes versos nada valham.

mas, “se saiu de dentro...”, foi cagado!,
e é cada cagalhão que agora encalham
enquanto já me sento ali veado.


marcos satoru kawanami