sábado, 18 de agosto de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 9



Capítulo 9

         O peido no palco de um teatro é avassalador. Se proposital, causa riso na plateia, e depende de sonoplastia, ou mesmo dela prescinde se for um peido intencional da peça mas um peido silencioso. Agora, imagina um peido que escapa sem querer no palco. É bem provável que o público não o sinta nem escute, o efeito avassalador será nos outros atores em cena, monólogos à parte.
         Você que me lê, já reparou que atores e atrizes são cínicos em cena? Vivem de fingir. Então por que raios tanta gente quer saber a opinião de atores e atrizes como se eles fossem os porta-vozes da verdade? Eu gosto das artes cênicas, admiro muitos de seus profissionais, mas péra lá! A opinião de um amigo vale mais para mim, seja ele um padre, médico ou policial que esteja contribuindo com sua parte para o nosso belo quadro social. Toca Raul...
         O mesmo vale para outros tipos de arte. Seus autores não são Deus, nem deuses se esses fossem possíveis. Inclusive o que eu escrevo aqui não vale como verdade nem sabedoria, para verdade e sabedoria existe a Bíblia; o resto é passatempo, diversão. E repare nesta palavra diversão, pode ser malévola.
         Ficar bitolado, porém, pode ser uma agonia. Já pensou? Aí estão os workaholics para ilustrar a bitolação. Inevitável pensar nas carmelitas enclausuradas e nos monges, mas eles também têm momentos de descontração.
         Imagine se eu só me dedicasse ao meu negócio, não tem cu que aguente!
         Espairecendo um pouco, penso em Cunegundes. Meu amor foi à primeira vista, e à primeira vista ela peidou em retribuição. Gostei de seu peido à primeira inalação, mas cometi a indelicadeza de jamais perguntar-lhe se gostava ela também do meu. Oh dúvida cruel... Eu supunha que sim, nunca duvidei de tal reciprocidade. Agora é tarde, Inês é morta.
         Inês é um nome tão romântico... Inês causa uma associação em minha mente; imagino uma senhorinha medieva sendo enaltecida em redondilha por um trovador galante, mas servil, arrasado, pudibundo mesmo. Antes de Cunegundes, fui esse trovador.
         Comecei nessa vida de trovador aos quinze anos de idade, comecei tarde. Antes de cultivar a lira, cultivei uma roça de verduras, as quais oferecia a minha musa, uma espécie de Dulcinea dos meus treze anos de idade.
         Estranho é que, quando a gente se casa com a musa, ela deixa de ser musa e se torna a nossa patroa. Muito prejuízo teve minha verve depois do casamento. Ou não, porque passei a escrever sobre temas mais diversificados, mas a escrever bem menos. A família é a célula máter da sociedade, o dever nos chama, temos de matar um leão por dia, só o amor constrói. É.
         Acho a coisa mais linda esses casais velhinhos que vivem implicando um com o outro, tornaram-se irmãos. Com irmão, no meu caso irmã  só tenho um irmão, que não é irmão, é irmã. Com minha irmã, a gente tinha tanta fraternidade que brigava todos os dias. Se você não pode brigar com alguém, esse alguém ainda não é seu amigo, seu irmão camarada. É ou não é?
         Isto posto, continuo a pôr.

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sábado, 11 de agosto de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 8



Capítulo 8

         Os flatos vaginais são outro assunto de suma importância.
         Durante o coito, é possível que a boceta peide. O constrangimento se estabelece, mas normalmente é sobrepujado pela empolgação do momento. Tanto o peido anal quanto o peido bocetal são inoportunos na presença de outrem; no caso do bocetal, o testemunho do parceiro é inevitável. Portanto, o peido propriamente dito, o que sai do cu, continua sendo melhor, pois, se na ausência de testemunha, dá sempre o prazer do alívio. É o que eu digo: ao soltar um pum, onde quer que seja, fico imediatamente ali veado. Coisa parecida é quando encontro meu amigo Adão na rua, e digo: Hoje eu vi Adão.
         Se bunda é preferência nacional, boceta é unanimidade. Homem gosta de boceta, mulher cuida com zelo da própria boceta, tem mulher que gosta da boceta alheia, tem homem que quer ter uma boceta em si mesmo. Olha, vou te falar, não é à toa que chamam-na de perseguida.
         Lembro-me de quando a vagina de minha senhora juntou tanto muco que parecia recheada de requeijão cremoso. Desculpe o baixo calão. Acontece que foi meu filho Nelson Rodrigues o mentor intelectual da ocorrência. Ele imaginou um equilíbrio da flora microscópica de nossos corpos. Parou de tomar banho. Após uma semana, Cunegundes foi chamada à escola por conta do fedor de Nelsinho, e defendeu o filho com unhas e dentes. Voltou da escola furiosa, determinada a se solidarizar com ele. Parou de tomar banho. É. Olha a encrenca em que eu me meti sem ter movido um palito. O jeito foi eu parar de tomar banho também, ora porra! Fui despedido do emprego. Voltamos a tomar banho.
         Tomar banho de chuveiro é uma coisa, mas tomar banho de banheira é outra coisa. Peidar na banheira então... Parece uma bomba atômica dentro da banheira, aquilo sobre e explode na superfície da água espalhando um suave buquê de merda. Lembrei-me disso quando vi o funcionamento de um narguilé.
         Falando em narguilé, eu fumo cachimbo, fumo tabaco no cachimbo — hoje em dia a gente tem de dar certas explicações. Sendo tabagista, verifico que o imposto sobre o tabaco chega praticamente a criminalizá-lo. Entanto, querem legalizar a maconha. Ué, legaliza, mas reduz o imposto do tabaco, para o povo escolher. Saudável é ninguém fumar, nem beber álcool; mas quem disse que eu quero ser saudável? Imagino o velório de um membro da geração saúde, eis aí um cadáver saudável... Toda vida que não é eterna é sempre pouca.
         Desculpa furada de um tabagista, pois é claro que morrer saudável é melhor, melhor do que sofrer cheio de grugrunhanha por conta de fumo e álcool e morrer do mesmo jeito mas pesteado que só o pó.
         Saber morrer é uma arte. Só se morre no fim, o jogo só acaba quando termina. Mas, sabendo que desde o nascimento a morte é certa, podemos cultivar nossa morte com requintada volúpia. Estamos morrendo todos desde o começo da vida, mas o que pensamos entre nascimento e morte é fundamental para uma boa morte. Enquanto que o nascimento é alheio à nossa vontade. Pois viva bem enquanto morre, e morra bem enquanto vive!

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sábado, 4 de agosto de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 7



Capítulo 7

         José consola minha viuvez, estando próximo, guardando-me da solidão. Além de fiscal da Natureza, fiscaliza meu celibato, isso é fato pertinente e consumado na inconsumação do ato. Mas o filho que, em sua infância, foi a figurinha mais encantadora entre a pirralhada de seu tempo foi o décimo quarto, o Nelson Rodrigues. Jamais houve reclamação dele, por parte da escola, a que não tenha minha esposa Cunegundes socorrido nosso pimpolho, defendendo-o sem concessões.
         Nelson Rodrigues formou-se biólogo, e leciona não Matemática, nem Gramática, porém Biologia, o que vem a ser muito natural, considerando seus anteriormentes. Aos sete anos de idade, concluiu que a aranha perde consideravelmente a audição ao subtrairem-se-lhe as oito patas; ele berrava “Anda!, anda!”, e a aranha não andava. Doutra feita, encontrou sete gatinhos empesteados com micose; banhou-os com gasolina a fim de curá-los; em seguida colocou-os para secar no forno de micro-ondas: os gatinhos explodiram. Errando é que se aprende, assim é que se constrói o conhecimento. Com tal conhecimento, Nelsinho chamou toda a molecada para uma conferência na qual repetiu a experiência com outros sete gatinhos, estes sem micose nem banho de gasolina; mas explodiram do mesmo jeito.
         Já nossas filhas gêmeas Ilíada e Odisseia abominavam Nelson Rodrigues, e fizeram desgostosa a mãe, que era racista. Quanto a mim, são as meninas dos meus olhos. Vai vendo. Foram escoteiras; até aí, Cunegundes achou bom. Mas cresceram viajando muito com as escoteiras, tomaram gosto pela coisa, formaram-se ambas em Geografia. Continuaram viajando... Foram até mama África, onde Ilíada casou-se com um violeiro negro retinto e deu-me os netos mais engraçadinhos e bonitos, talvez subjetividade minha por conta dos filhos que outros plantaram no meu quintal, pronto, falei; Cunegundes que me perdoe por não perdoá-la, mas isso estava engasgado na minha garganta, e causa humanitária é o cacete. Acontece que na verdade já a perdoei, só o amor constrói, a família é a célula máter da sociedade; no meu caso, foi uma sociedade de capital aberto, mas todos me elogiam pelos filhos que criei: “É ele, é ele!”. Estranhamento me causou foi Odisseia quando resolveu pesquisar a ilha de Lesbos sem jamais ter escrito verso sáfico nem verso algum; voltou com uma grega a tiracolo, e tiveram muitos filhos.
         No dia exato do meu casamento senti que nossa descendência daria o que falar, Abraão se admiraria dela, meu nome estaria nas bocas de Sidon a Bersabeia, e povoaríamos a Terra...
         Ah, Terra, o melhor dos mundos possíveis! Imagina se não fosse. E esse povo besta querendo colonizar Marte(?)(!)(*).
         Cadê as prioridades? Onde a guerra? Onde a fome? Onde a indigência? Onde o desabrigo? Onde o furúnculo a céu aberto?!
         Pois lhes digo: na escadaria da Catedral de São Paulo.

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sábado, 28 de julho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 6



Capítulo 6

         Sou católico, já disse. Não tenho pudor em professar minha fé; nesse ponto, cada um com seu cada um. Ainda mais hodiernamente falando.
         Por alguns anos, gostei de assistir à missa na Catedral de São Paulo; ia só, Cunegundes era luterana. A missa que eu gostava mais era a das seis horas da manhã de domingo, tinha um canto solene, diferente dessas canções toscas de igreja no geral, salvo Padre Zezinho e quejandos. Parece que era um seminarista ou diácono que cantava, voz grossa e empostada, mas não cantava em latim, era em português mesmo, só que de um jeito tão classudo que parecia latim. Diriam que era programa de índio, seis horas da manhã de domingo, fora a hora em que eu devia acordar para chegar à Sé, longe pra dedéu da Caixa-Prego onde eu morava. Mais programa de índio foi quando, num dos meus inúmeros períodos de desemprego, resolvi pernoitar na escadaria da Catedral a modo de experiência. Eu tinha de testar se minha verdadeira vocação era para mendigo. Mendigo é assim: tem o mendigo raiz, magro, barbudo, corintiano-maloqueiro-e-sofredor; já o mendigo magnata tem até conta no banco, só falta ganhar esmola passando cartão; dá para fazer carreira na profissão de mendigo, mas abdiquei do ofício por motivos de força maior. Uma noite na escadaria da Sé bastou para me convencer de que nem para mendigo eu prestava. Contudo, fui otimista e notei que um poeta sanitarista já é uma espécie de mendigo; sentiu a perspicácia da colocação? Nem eu.
         O mundo é uma bola, e seixo que não rola cria limo. Consequentemente, inconstitucionalissimamente ou não, tem gente que deita e rola nesse mundão aberto e sem porteira. Andando sempre em linha reta, e persistindo, resulta que não saímos do lugar nem andamos em linha reta, o mundo é uma bola. Pior notícia é que, se sairmos do planeta em ziguezague aleatório, não conseguiremos sair do universo em que estamos; e, se sairmos em linha reta, voltamos ao ponto de partida. O universo não tem saída! Por enquanto.
         A Ciência faz-me rir, uma hora diz isso, depois aquilo; vive a se desmentir. Dá para confiar na Ciência? Eu não dou.
         Farei uma pausa agora para ver o jogo do Corinthians, conto o resultado na linha de baixo.
         Olha, não é sacanagem minha. Meu televisor não capta o canal pago em que o jogo está passando, no meu televisor está passando Vasco x Cruzeiro. Até nisso a Cunegundes faz falta, fazia uma gambiarra como ninguém! Torço para o Vasco no Rio de Janeiro, onde morei; mas o campeonato Brasileirão 2018 está no início, então deixa pra lá.
         Agora lembrei-me de uma curiosidade, nunca enchi bola alguma com peido, lacuna em minha carreira; mas, quem já o fez, que se manifeste.

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quarta-feira, 25 de julho de 2018

A VERDADEIRA ESTÓRIA DO GRÃO DE ORVALHO - livro de Paulo Vítor Cruz


Escrito com apurado entendimento de homem, e espontaneidade da forte inspiração da mocidade, este livro é interessante para quem já gosta de Literatura, e, para quem ainda não gosta, passar a gostar.


MORADIA

Na fome
o alimento

no medo
a diversão

no simples
o segredo

no erro
a lição.

Paulo Vítor F. da Cruz



STRIPTEASE

Chega correndo feito louca
e logo tira a blusa
o sutiã
a meia
a saia
e a calcinha
numa pressa apavorada
feito pressa de estrada
como quem quer poupar cada peça do que está por vir
sai correndo com as roupas na mão
deixando desse modo o varal nu
peladinhozinho
à espera da chuva.

Paulo Vítor F. da Cruz


--- Encomendas, pelo blog: Frutos Podres de uma Imaginação Febril

sábado, 21 de julho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 5



Capítulo 5

         Longe de mim o Movimento Antropofágico e qualquer Modernismo, apesar de a intenção modernista ter sido boa; e, realmente, os modernistas arejaram a atmosfera cultural, trazendo novos ventos, ventos são comigo mesmo. Mas sinto que o resultado refletiu-se pejorativamente na instrução pública. Reparem na rapaziada pós-moderna, pós-tudo, que aí está. Reparem no presidente que se gabava da própria ignorância, e foi eleito uma e duas vezes.
         Política, outro tema a ser evitado. Lá na Ilha do Governador que não pertence a governador algum havia o bar de um sábio português (salve colônia portuguesa carioca!, saudades) bar em cujo balcão estava escrito: “Proibido falar de Política, Religião e Futebol.”. Outra inscrição dizia: “Fiado só para maiores de noventa anos, com documento e acompanhados de seus pais.”.
         É. A gente tinha de seguir o regulamento, o que ensejou um episódio pitoresco. Numa tarde, eu e mais três amigos conversávamos, quando Vargolino perguntou se eu era católico praticante. Ah, não deu outra; antes que eu respondesse, o dono do bar interveio, dizendo: “Ó pá, nada de Religião, pois sempre acaba em briga.”. Mudamos de assunto; conversa vai, conversa vem, perguntei ao Vasco se ele torcia para o Flamengo ou aquilo era lorota. Antes que Vasco falasse, o dono do bar sabiamente interveio de novo: “Não se fala de Futebol aqui!”. Conversa vai, conversa vem, pimba! Jaquelino quis saber das eleições. O dono do bar exclamou: “Vê lá, nada de Política.”. Então, o gordo Daniel, o espirituoso da galera, perguntou ao bom portuga: “E de Sexo, podemos falar?”. Ao que este respondeu: “Báim, de sexo... pode.”. E Daniel concluiu: “Então, vai tomar no cu!”.
         Essa é uma anedota popular que deveras não ocorreu em minha vida, mas não podia deixar passar. Eu perco o amigo, mas não perco a piada.
         Piadas de lado, a vida é séria. Não brinquemos com a vida, isso se chama bioética. Se não houver bioética, onde vamos parar?
         Eu passei a levar a vida a sério quando conheci Cunegundes; o casamento põe o homem no trilho certo, ou no trilho do trem, depende das dependências e dos dependentes, pois o dever está acima de tudo, a família é a célula máter da sociedade, escova-se os dentes após cada refeição, e café é que nem banho: toma-se todo dia. Ou não.
         Ah, que falta me faz Cunegundes!... Aquele rosto... Aquela bunda... Aquelas pernas... Aquele joelho de porco com ovo, feijão e repolho que só ela sabia fazer... A vida é séria, pois existe a morte. Se fôssemos imortais, haveria mais putaria do que já existe, os deuses da mitologia podem confirmar.
         Nesta terra bárbara, quase mitológica, onde se comia gente no sentido antropofágico da expressão, e onde hoje continuamos a comer gente no sentido figurado, abandonem toda esperança, vós que entrais! Ah, Beatrice! Ah, Dulcinea! Ah, Cunegundes! Quão semelhantes sois!
         Quão semelhantes sois vós todas que inspirais a lira tanto de um Dante quanto a de um poeta de banheiro como eu, que nem lira tenho, mas somente a agreste rabeca e o rude pífano; dai-me igual canto aos feitos da famosa gente vossa, que a Marte tanto ajuda, dai-me a tuba canora que ao peito ascende e a cor ao gesto muda, por que de vossas moitas Febo diga que saiu assustada a rapariga...

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sábado, 14 de julho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 4



Capítulo 4

         Vamos à retórica elevada. No alto daquele cume, plantei um pé de abobrinha; quanto mais o cume enche, mais abobrinha eu falo: abobrinha!, abobrinha!, quem vai?; uma é cinquenta centavos, duas é um real; pague dois reais, leve três; tudo na bunda, é!, tudo...
         A bem da verdade, não plantei abobrinha; plantei batata. Fiquei plantando batata até por bastante tempo se comparado aos outros trabalhos que tive. Mas nunca fui um agricultor profissional, o que eu fazia era plantar batata. De primeiro, quando eu plantava bananeira, ficavam me dizendo: “Vai plantar batata! Vai plantar batata!”. E eu, que não sou besta, fui, né? O que mais gostei de plantar, porém, você já viu, foi filho. É um trabalho fértil.
         Filho, se você não planta, vai outro lá e planta no seu lugar. Aí o filho não é seu, a não ser que você faça questão de registrá-lo em cartório, o que às vezes é a melhor solução. Agora, se você é branco, sua mulher é branca, e nasce um filho preto para você, é por causa das cotas. Toda família poderia ter cotas, é uma bonita causa humanitária.
         Cunegundes é que era racista, e nunca quis ter um filho de outra raça que não fosse a sua, ela era branca, loira e do olho azul. Como eu sempre fui caboclo, ela procurava os pais de nossos filhos nos arredores, e isso foi bom, porque tenho cada filho alto, loiro, do olho azul; o povo sempre me elogia; onde quer que eu passe, o povo diz: “é ele!, é ele!”.
         Meus filhos de sangue são meus poemas, isso ninguém elogia. Não faz mal, eu gosto de ir distribuindo cultura pelos banheiros da vida, também é uma causa humanitária. Muitas vezes alguém está sem inspiração para cagar, lê um poema meu, e caga.
         Não ficarei me autoelogiando a mim mesmo, do contrário não termino esta história acerca de mim. A modéstia deve ser cultivada. Foi o imperador romano Júlio César que, ao desfilar pela cidade, mandava um escravo ficar dizendo atrás de si: “Você é apenas um velho careca e barrigudo.”? Se não foi Júlio César, foi outro velho careca e barrigudo; mas são tantos...
         Bem, eu não tenho escravos, então escuto uma gravação que diz: “Perto de Bocage, quem és tu? Um homem que ganha a vida usando o cu!”, rima de minha lavra, modéstia à parte.
         Sou otimista a tal ponto que colho-me agora a pensar que rima em geral não tem tradução, isso consegue ser pessimismo e otimismo ao mesmo tempo. Já pensou? Minha literatura sanitarista evacuando mundo afora traduzida? Para os leigos esclareço que Sanitarismo é o movimento artístico cujo substrato vem a ser o local do assento sanitário público, ainda que da privada. Vanguarda que inclui os artistas plásticos com pintura de cocô sobre vaso, uma variante do óleo sobre tela.
         Isto posto, ponho mais um pouco.
         Quem se dá ao luxo de abordar a estética corre o risco de acabar abortando a estética. Evito o tema, questão de gosto é mais complicada que raiz quadrada de menos um; a subjetividade é coisa muito Freud. O que é a subjetividade? Subjetividade pressupõe sujeito, e, das duas uma, ou o sujeito sou eu ou o sujeito não sou eu. Ser ou não ser, eis a questão. Por precaução, eu prefiro não ser, mas não desestimulo quem é. Questão de gosto não se discute. Por exemplo, mania feia. A mania é feia porque não é minha, porquanto o feio é o contrário do belo, mas não deixa de ser Arte; prosseguindo nesse raciocínio, talvez quem me lê perceberá que há muita arte na técnica da conversa para comer gente. Não, longe de mim o Movimento Antropofágico!

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sábado, 7 de julho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 3



Capítulo 3

         Tudo bem que a gente só não tem tempo de fazer o que não quer fazer, mas... Há sempre um mas em se tratando de justificativa. Ocorre que nenhuma escola ou faculdade iria esclarecer as idiotices fundamentais do conhecimento e da ignorância que tanto me motivavam a trocar de emprego por incompetência e desatenção no uso de minhas atribuições legais, mas que me pareciam um saco. Aliás, aprendi na escola que a Terra é uma bola; agora, o supositório da possibilidade estatística pertinente à suposição de a Terra ser duas bolas? A escola não atentou a isso, nem a Astronomia. Pensando bem, a Astronomia passou raspando na resposta, pois Terra e Lua são meio que duas bolas se gravitando mutuamente. Mas não. A resposta a esse enigma da cosmogonia quem me deu foi meu filho José, justo ele... Se a Terra fossem duas bolas, seria um saco. E pelo enfado, o grande saco da existência neste planeta água, acho que o dueto Terra e Lua cumpre bem o papel de duas bolas constituindo o saco cósmico e metafórico do existencialismo ateu.
         Porém, eu sou católico. É. Por quê? Não pode não? Tô fora de moda mas sou bonito. Pior é estar na moda mas ser feio. De maneira que uma inculcação que ocupa meu pensamento abissal é: E se eu peidar de susto quando Cristo voltar? Será que na volta do meu salvador todos os cus se fecharão automaticamente devido ao flato de que ninguém precisará cagar na Eternidade? Então não comeremos no Paraíso? Mas as bocas devem necessariamente permanecer abertas a fim de entoarmos hinos incessantes. Pode ser que seja chato assim. Contudo, diante da Graça só quereremos a própria Graça sem razão para outro movimento, pois, quando nos movemos, é sinal que precisamos, ao passo que na presença de Deus a felicidade total prescindirá de movimento. Um porre, não acha? Portanto, tomara que os cus permaneçam abertos. Essas coisas ocupam o pensamento abissal.
         Nota-se que São Tomás de Aquino mesmo não seria professor para mim, eu seria expulso na primeira aula. Mas gostei demais do que ele deixou escrito.
         Melhor encontrar a monotonia no Paraíso do que encontrar a animação do Inferno. Já vejo com bons olhos o Purgatório, talvez seja um meio termo. Especulações à parte, vem, Senhor Jesus!
         E tratemos de ir ficando pianinhos...
         Ir ficando? Isso também ocupa o pensamento abissal. Se é para ir, não é para ficar; se é para ficar, não é para ir. “Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?”. Quer saber, eu teria me casado com a Eugênia que Brás Cubas esqueceu na Tijuca.
         Mas não conheci Eugênia, nem Virgília, nem Eulália; conheci Cunegundes, o que foi superlativamente melhor. Olha eu puxando o saco de minha senhora mesmo depois de morta... Vai que ela volte, ou volte que ela vai puxar meu pé de noite? Nada disso; tudo se encaminha para o bem no melhor dos mundos possíveis. Voltaire estava errado, o Pangloss superou seu criador?
         Não sei, só sei que estou um pouco petulante no tom, e isso não é de bom tom. Outrossim, o trocadilho é retórica rasteira.

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sábado, 30 de junho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 2



Capítulo 2

         Bravos anos da minha juventude, confesso que não peido mais como antigamente, Cunegundes faz falta em tudo, inclusive nisso. Não sou mais o mesmo.
         Ninguém é mais o mesmo a todo instante, as células morrem e outras nascem em seus lugares. Como então continuamos tendo a mesma identidade? Tudo bem que a memória se mantenha nas ligações do cérebro, mas se fosse só uma questão material, poderíamos até agir como se tivéssemos conhecimento de nós mesmos, e, no entanto, não teríamos em verdade consciência de nossa própria existência.
         Quando jovem muitos pensamentos me faziam boiar no trabalho, era uma desatenção prejudicial para a manutenção do emprego. De modo que comecei a procurar sempre serviços que não exigissem muita atenção; gostei muito de varrer rua, o emprego de gari foi o mais longevo de minha vida antes de me tornar patrão de mim mesmo, abrindo o meu próprio negócio.
         Meu primeiro emprego, porém, só o mantive por poucas horas. Foi muito antigamente, foi na Antiguidade, quando eu tinha dezoito anos. Manejava uma retroescavadeira na construção da acrópole de Atenas, quando dei uma cavocada que libertou a deusa Afrodite dos ínferos. Ela é uma figura bem boa, no bom sentido. Concedeu-me três pedidos. Diante de tal situação inusitada, exclamei “Caralho!”, e começou a chover caralho. Incomodado com tanto caralho, gritei “Sumam-se os caralhos!”; todos os caralhos sumiram, inclusive o meu. Aí eu pedi “Devolve o meu caralho?”; ela devolveu meu caralho, e meus três pedidos se esgotaram.
         Mas a deusa Afrodite é boa, apontou seu dedo indicador para o noroeste, e para lá eu marchei, abandonando meu primeiro emprego. Subi morro, desci morro, contornei montanhas, e atravessei o Mar Adriático a nado, modéstia à parte, feito de minha lavra, Homero que me desculpe.
         Ao chegar na Europa Central, lá estava Afrodite fazendo sair de uma concha gigante a minha bela Cunegundes, que, de emoção, peidou.
         Essa passagem da minha milagrosa existência neste planeta deste universo parece até lenda de índio, mas o Shakespeare abriu um precedente quando disse que há mais mistérios entre o céu e a terra do que qualquer punheteiro possa imaginar.
         Aquele peido mitológico me cativou, pois nunca se viu cu de tanta alvura, e, ao ver peidar a formosura, fui sugestionado a psicologicamente associar o peido de Cunegundes à libido eterna de nosso amor, amor à primeira vista, amor visceral mesmo.
         Tive de arrumar outro emprego, “o preço da liberdade é a abstinência”, ouvi isso num filme de Ana Carolina. E acrescento: O homem quer liberdade, a mulher quer segurança; por isso, entre homem e mulher, a relação é sexual.
         Entrei como marinheiro numa caravela que partiu de Portugal para o Brasil, completei dezenove anos de idade à bordo, e Cunegundes passou a viagem inteira vestida de padre. Houve um motim por causa de nossos peidos, e tivemos de passar a dormir ao relento. Muito frio à noite, em compensação, muito sol de dia. Cunegundes e eu chegamos ao Brasil totalmente caracterizados, ela a índia Paraguaçu, e eu o cacique Tibiriçá. Ao desembarcar, casamo-nos numa capelinha que não existe mais.
         Antes da invenção do pneu, peregrinei de déu em déu trabalhando em coisas diversas sem nunca exercer profissão alguma, era pau pra toda obra.
         Os filhos foram nascendo, chegou o século 20, nossa descendência já se espalhava sobre a Terra, mas eu hesitava em abrir meu negócio. Minha prioridade ainda era a casa própria. Como demora essa tal de casa própria! Foram trezentas suaves prestações que não desejo para o mais criminoso vivente nem fodendo.
         Estranhamente as dificuldades nutriam a verve, eu escrevia até nos banheiros públicos. Veja por aí quanta poesia fiz em banheiro público, é só conferir, tudo de minha lavra, modéstia à parte.
         Estranhamente também é dizerem que hoje em dia o povo vive mais, sempre teve quem morresse cedo e quem morresse tarde; se bem que é sempre cedo para morrer.

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sábado, 23 de junho de 2018

METAFÍSICA DO PEIDO - Capítulo 1



Capítulo 1

         Peido. Se eu encontrar cheiro melhor, aviso. Por enquanto, é o meu peido.
         O peido pressupõe que a pessoa esteja alimentada, isso é bom. O peido pressupõe que a pessoa esteja à vontade, isso também é bom. E o peido sai de dentro, como a poesia. Quem não gosta do próprio peido talvez nunca se atreva a escrever poema, ou, se escreve, não gosta.
         Peido alheio, porém, não me agrada, ainda que eu goste de poema alheio, de maneira que, pensando melhor, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
         O fato é que, quando a conheci, Cunegundes peidou, e eu gostei; fui otimista com ela, como costumo ser otimista com a escatologia teológica. O peido de Cunegundes foi divino, foi o único peido alheio que amei. Casei-me com ela!
         O casamento depende bastante dos peidos conjugais, quem já se casou sabe. Casamento é um cheirando o peido do outro até o fim, mesmo que termine antes do fim. No quesito peido, fui feliz no casamento.
         Meu otimismo confirmou-se, Cunegundes era uma mulher à frente de seu tempo: ao ter nosso primeiro filho, exigiu parto normal; e assim foi com todos os vinte e cinco filhos e filhas que tivemos. Veio a falecer no último parto, que só foi o último porque ela morreu. Não pudemos mais ter filhos, nem filhas. Mas nosso amor é eterno, e mantenho a chama dele acesa com um celibato de adolescente nerd, só que sem punheta.
         A vida é assim, não é?, a gente nasce, a gente vive, a gente morre. Contudo, se a morte faz parte da vida, a vida faz parte da morte. Sou otimista, no geral e no restrito também, mesmo quando o restrito restrinja qualquer otimismo possível e impossível. Pois tudo é possível para o impossível. E, uma vez que o impossível não é inenarrável, segue a narrativa.
         Da nossa prole, todos os vinte e cinco ainda vivem, e peidam. E peidam todos casados. Somando filhos e filhas, netos e netas, e toda a descendência que deles nasceu, acho que meu casamento tem causado um forte impacto ambiental, pois são cerca de mais ou menos sei lá quantos cus peidando mundo a fora.
         Voltemos à origem de tanto butano na atmosfera.
         “Sou bem-nascido. Menino, fui, como os demais, feliz.”, e, como Manuel Bandeira, fiz alguns versos, e os versos me fizeram a única coisa que sou.
         Casei-me muito cedo, tinha dezenove anos de idade, virgem como minha mulher, que tinha quatorze anos. Casar cedo é bom, evita que nos acostumemos com a vida de solteiro. Os padres que me desculpem.
         Tive muitos empregos, nenhuma profissão. Meus filhos já iam crescendo trabalhando, com poucos peidos de vida. Nunca parei de escrever, sempre em verso, aqui é que estou me abrindo a novas experiências, todo prosa.
         Sem profissão, após não parar em serviço algum, resolvi abrir meu próprio negócio, enchendo pneus com os peidos de minha lavra, modéstia à parte. Comecei de baixo, enchendo pneus de bicicleta, depois de motocicletas, carros, caminhões... Hoje, considero-me um bem-sucedido homem de negócio, pois ganho a vida enchendo pneus de avião com meu próprio negócio.
         Sempre fui honesto, jamais aceitei porra nenhuma pelo meu negócio, a não ser dinheiro. Na vida pública não me candidatei a nada, fui apenas representante de turma na escola. E, na vida púbica, só Cunegundes.
         Meus filhos, infelizmente, não tomaram gosto pela vocação familiar; fora o mais novo, todos estudaram e se tornaram professores da rede pública de ensino, dançaram. É, a gente se aperta tanto pelos filhos para quê? Não espere gratidão de filho.
         Mas são honestos, isso é o que realmente importa; eduquei-os com rigor e carinho, mais rigor do que carinho: com amor. E quão boa mãe foi Cunegundes! Ensinou os meninos a serem homens, e as meninas a serem mulheres. Ah, Cunegundes, sempre à frente do seu tempo!
         Cunegundes, aliás, trabalhou muito desde sempre, principalmente depois que eu abri meu negócio. Cozinhava ovo, repolho, feijão e joelho de porco para eu ter mais gás no serviço. Na hora de dormir, me entubava num botijão para armazenar os peidos da noite; era uma cientista, cabeça à frente de seu tempo, tenho dito.
         Quem me lê, talvez esteja se perguntando — Esse cara só peida e faz poesia?! — Mas, tem coisa melhor? O peido é música, a poesia é letra. O peido retumbante é a exclamação poética de um decassílabo heroico. O peido grosso acompanha um poema triste. O peido fino é a ironia do poeta. O peido silencioso são as reticências...
         Mudando de ares, o que é o perfume senão uma convenção? Quem duvida, pergunte a um cachorro cheirando o cu de outro cachorro. Eis um motivo a mais para que as convenções tenham seu valor. Já pensou? Já pensou os seres humanos cheirando o cu uns dos outros? Não dá, né? Convenhamos.
         Outrossim, mudando de pau pra cacete, quer me parecer que falo como se a boca fosse o cu. Tenho pouco estudo, mas tenho também a soberba de reconhecer que sou humilde, pois estou dizendo que sou ignorante. Ah? Não entendi o que eu disse. Mas saiu de dentro, e o que sai de dentro, se não é merda, é bom. Obviamente não concordará comigo quem tem prisão de ventre. Já vi gente morrer disso. Então viva a merda, pois cagar é mais do que saudável, é um alívio.
         Onde quero chegar com esta experiência em prosa? Não sei. Só sei que verifico pelo parágrafo anterior que boca pode fazer a vez de cu, mas cu não tem dente para fazer a vez de boca; mesmo uma boca banguela é mais que um cu; aliás, o cu é o fim da boca. Lição de anatomia.
         Estendendo o raciocínio, a pele dos lábios continua na pele do resto do corpo até a pele do cu; ou seja, a pele é continuação do intestino, e vice-versa. O pulmão aí está que não me deixa mentir.
         Cunegundes só teve partos normais, de maneira que todos os nossos filhos nasceram na merda. Não, paro aqui de falar como se a boca fosse o ânus.
         Nosso primeiro filho é filha, chama-se Ana Karenina; achei o nome chique, pois o descobri numa livraria, na capa de um livro; fui à livraria, inclusive, só para isso, achar o formoso nome de nosso primeiro rebento. Não fui nada original em ir à livraria escolher o nome, tivera a mesma ideia antes de mim um conhecido que batizou o filho com o nome de Édipo.
         Cunegundes gostou, e foi assim com todos os frutos de nosso amor: Ana Karenina, Erêndira, Brás Cubas, Madame Bovary, Olavo Bilac, Pinóquio, Augusto dos Anjos, Tieta... Apenas o caçula tem um nome bem diferente, pois deu-me desgosto devido à mãe morrer no parto; chama-se José.
         Este último, porém, é o que mais tem me consolado na viuvez com sua constante presença. Fez um puxadinho aqui em casa, e mora ele, sua esposa e mais sua vasta descendência que ele me deu para sustentar, pois sua esposa não tem mão, e ele resolveu se dedicar exclusivamente à causa ecológica, fiscalizando a Natureza.
         José empolgou-me com seu idealismo, e, há três anos, dei-lhe um livro sobre desenvolvimento autossustentável... Tomara que ele leia. Sou otimista.
         Otimismo é a base de tudo, no geral, de modo abrangente. Até o pessimista é otimista. Ao sair de casa o pessimista tem otimismo suficiente para crer que voltará vivo a casa, e, se for se suicidar, é mais otimista ainda. Pensa bem. É ou não é? Mais ou mesmo é medida de cu. Desculpa quem me lê, voltei de novo ao cu, ou melhor, ânus.
         Não acho que seja fixação. Acontece que canalizei minha vida para o brioco, pois é de lá que sai o meu ganha-pão digno enchendo pneu de avião com os flatos honestos do biodigestor humano criado por mim, que sou eu mesmo.
         Continuando o raciocínio, o uso racional do flato só se torna flato verídico após a introspecção furicular na realidade expiatória posterior à ingestão alimentar no biodigestor humano ou animal, uma vez que o ser humano é um animal mas nem todo animal é ser humano, e nem alguns seres humanos o são.
         Isto posto, ponho o resto.
         O resto, mas não o refugo. Muito pelo contrário, a história nem começou. O fim dos tempos, porém, uma hora há de vir; que venha logo; sou otimista.

continua sábado

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